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anacrónica [2]
luísa costa


Ainda não tinha reparado que a Luísa Costa e o Manuel Guimarães andam sempre sintonizados (ou sincronicamente des-sintonizados)? Pois é — andam. Então não se esqueça de ler também a anacrónica do Manuel!


Doenças


As pessoas adoram doenças. Qualquer doença lhes serve. É uma dor nos rins, uma súbita falta de ar, um aperto no estômago, umas picadas no tórax, uma tontura ao levantar. Marcam consultas, esperam em consultórios abafados, cheios de outra gente que também sofre de outras doenças, alegram-se porque a dor delas não é do lado esquerdo, é mais acima, assustam-se porque a dor que sentem é igualzinha à dos outros que já foram sujeitos a intervenções cirúrgicas, embrenham-se nas doenças próprias e alheias.

Nos fins de semana as doenças proliferam. São enxaquecas, dores de costas, uns zumbidos nos ouvidos, insónias, não preguei olho a noite inteirinha. Tudo acontece ao fim de semana. Então telefonam aos anjos da noite, equipas de médicos filantropos que em troca de uma pequena mensalidade, fazem piquete 24 horas e de malinha e estetoscópio rumam às moradas mais distantes para medir a tensão, espreitar uma garganta, auscultar um peito, diga trinta etrês, mais forte, não ouço nada, a senhora está sã que nem um pêro. Mas este abafamento que não me deixa dormir, doutor. Eu passo-lhe aqui esta receita, toma um comprimido às refeições, esfrega com esta pomada, vai ver que se vai sentir melhor. Deus lhe pague, senhor doutor. A receita fica esquecida sobre a mesa, a D. Rosalina caiu no sono logo que o médico bateu a porta. Outras vezes a D. Celeste não adormece sem o comprimido, o filho chega a casa por volta da meia-noite, ficou a fazer horas extraordinárias no café para se casar em Setembro, amãe pede-lhe entre gemidos, vai a uma farmácia de serviço e avia-me esta receita. O bom filho faz a vontade à mãe, mãe é assim, cria, e depois são os filhos que a amparam, é justo.

Na segunda-feira, está tudo estoirado com as doenças. O autocarro enche-se de gente macambúzia, com olhos pisados de tantas emoções. Quando a língua se solta, é um ver se te avias de pequenas desgraças, mas o pessoal já se sente melhor, saiu de casa, arejou, a semana começa, o emprego é uma chatice, ganha-se mal, trabalha-se muitas horas seguidas, os colegas têm uma língua comprida, a fulana andou a espalhar por aí que eu vivia amigada, o chefe não trocou a folga porque estava mal disposto, mas se fosse à menina dos seus olhos fazia-lhe o horário que ela quisesse, isto é uma injustiça, o que o chefe quer, sei-o eu. Viva o trabalho! Nos intervalos ainda há uma análise para fazer, uma consulta onde ir, mas as doenças minguam.

Se não fossem estas doenças imaginárias, como é que o pessoal conseguia passar o deserto dos fins de semana, sem a balbúrdia dos transportes e a má língua dos colegas?

 


'Andarilho', símbolo do EITO FORA

EITO FORA: transmontano sem preconceitos

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