edição n.º 14 vai para a página do index da edição
um jornal? uma revista?
crónica de viagem fernando gouveia  

index

editorial

bom porto

cultura

opinião

homenagem

provocações

aventura

património

cad. de viagem 1

cadernos de viagem 2,3

crón. de viagem

perfil

ensaio 1

ensaio 2

ensaio 3

conto

anacrónica 1

anacrónica 2

poesia 1

poesia 2

apartado 51


Colaboradores neste número: Carlos Teixeira, Carvalhinha Rebocho, Dora Sarmento Mota, Duarte Alegre, Elza Garcia, Eugénio Branco, Fernando Gouveia, José Ferreira Borges, Luís C. Teixeira, Manuel Guimarães, Maria Costa, Maria Filomena, Rui Duarte, Rui Ribeiro, Troglodýtes Trogloditikós, Vicente de Sousa e Vítor Nogueira.

A 7.000 quilhómetros de casa


O avião faz-se à pista do aeroporto internacional de Orlando, Florida num fim de tarde feio — de uma escuridão nebulosa, aqui e ali cortada pelos relâmpagos da tempestade subtropical que se abate sobre a região. É pena: estivesse um dia radioso e pensar-se-ia que se aterra no Paraíso, tal é a profusão de lagos — grandes e pequenos, naturais e de criação humana — que povoa a região. Hoje eles são negros, tenebrosos, e as estradas molhadas assemelham-se a rios, a sua verdadeira natureza (artificial) revelada pela rectilinearidade suspeita e pelo prodígio de camiões que navegam na sua superfície aquosa.

Meia hora depois, já de bagagem a reboque, saio do ambiente condicionado do terminal aeroportuário e mergulho na atmosfera pesada, abafada, peganhenta de Orlando. A trovoada já acabou, mas não deve ter refrescado nada: quente e húmido antes, quente e húmido depois. Dividido entre o desconforto e o prazer (o “quentinho”, no fundo, sabe sempre bem), sigo as setas que indicam a paragem de táxis.

Ainda meio perdido, rendo-me ao irresistível apelo de um mapa da área metropolitana afixado numa coluna, quando sou abordado por um sujeito moreno, de porte médio e calções pelos joelhos. «Precisa de transporte?», pergunta-me ele (obviamente em Inglês, traduzido aqui para maior conforto dos leitores). «Sim...», respondo eu com pouca convicção. «Para onde vai?» Confirmo a morada retirada da Internet: «11651, University Boulevard.» O motorista vai ao porta-luvas da carrinha de nove lugares buscar um mapa para apurar onde exactamente fica o destino indicado. (O University Boulevard tem 10 km de extensão, pelo que a tarifa deve variar um pouco entre uma ponta e a outra...) «São 37 dólares», diz. Faço uma rápida conversão mental e aceito.

Bagagem arrumada atrás, sento-me no banco ao lado do condutor e partimos. «Então de onde é que vem?», pergunta ele, como deve perguntar sempre. Não me apetece estar com grandes pormenores, não só por se tratar de um desconhecido, mas também porque as treze horas e meia de viagem me arrasaram. Depois, como Portugal é o mais da vezes um rectângulo desconhecido,1 respondo evasivamente: «O meu voo veio de Nova Iorque, mas eu venho da Europa.» O taxista olha para mim, interrogativo: «Ah, sim? De que país, especificamente?» «Portugal», respondo, preparando-me para acrescentar que fica ali para os lados da Espanha. Não tenho tempo: «Ah! Mas então você fala Português!», exclama ele, desta vez não em Inglês, mas... na nossa língua. «O quê? Não! Você também é português?!», digo eu, uma vez mais surpreendido com a omnipresença da nossa diáspora. Rimo-nos da coincidência — a Florida não é a Suíça, as probabilidades de encontrar um patrício são bem mais baixas.

A conversa flui agora livremente, o cansaço esquecido ou adiado: fico então a saber como o José, um português do Funchal, desembarcou um dia na Florida como tripulante de um paquete transatlântico e ficou por lá, trocando o balanço do mar pelo volante de um táxi. Talvez cedendo à nostalgia marítima, o “Joe” (nome por que é conhecido naquelas paragens) vive ainda na cidade portuária onde um dia o seu paquete parou para deixar de ser seu: Port Canaveral.

«É muito longe daqui? A quantos quilómetros?» pergunto eu. «Aqui é tudo em milhas, não é em quilhómetros...» corrige ele. Sorrio: não há dúvidas — o “Joe” é mesmo da terra do Alberto João...

fgouveia@periferica.org

P.S.: Tal como alguns visitantes vão à Cidade Eterna e não vêem o herdeiro de Pedro, também eu fui a Orlando, terra da Disney World, e não vi o Mickey. Heresias...

Nota:
1 Mais tarde, quando, interpelado pela recepcionista do hotel, caracterizei Portugal com um lacónico «É pequeno», comentou ela: «A beautiful little island, yes?» Uma prova da proverbial geo-ignorância americana, ou a recepcionista conheceria o “Joe”? (Quem?)

 
vai para o topo da página  

'Andarilho', símbolo do EITO FORA

Leia este texto também na Secret’Área, o refúgio literário do Fernando Gouveia.

 

transmontano sem preconceitos