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edição n.º 14 |
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um jornal? uma revista? |
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cadernos de viagem [2, 3] |
maria filomena |
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poesia 2
apartado 51
Colaboradores neste número:
Carlos Teixeira, Carvalhinha Rebocho, Dora Sarmento Mota, Duarte Alegre, Elza Garcia, Eugénio Branco,
Fernando Gouveia, José Ferreira Borges, Luís C. Teixeira, Manuel Guimarães, Maria Costa, Maria Filomena,
Rui Duarte, Rui Ribeiro, Troglodýtes Trogloditikós, Vicente de Sousa e Vítor Nogueira.
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Leia também a parte 1 e a
parte 3 destes cadernos.
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Cadernos de viagem
Prosa de casa de banho
ou uma questão de etiqueta
Em várias bibliotecas, distinguem-se os leitores (leia-se: os estranhos à casa) dos
da casa (leia-se: os funcionários) através duma etiqueta de cor diferente consoante o dia da semana. Advertem para
colocá-la em lugar visível. Não sei se é este o critério por que se decidem os leitores assim
marcados com os estigmas dos suspeitos. A olho nu, poder-se-á dizer que oferece este comezinho arbítrio, no
conjunto, uma noção múltipla da geografia da visibilidade corporal e, no particular, uma insinuante
manifestação das individualidades de cada qual contra aquilo que nas grandes bibliotecas subsiste de menos
afortunado da vivência monástica: austeridade e rebanhização.
A maioria opta pela lateral ligeira, substituto possível da flor na lapela, que sempre fica bem, ou pelo
menos não fica mal e realmente vê-se. Uns na direita outros à esquerda a assinalar posições
ideológicas, quiçá uma última resistência às ambiguidades contagiantes, ou simplesmente
no lugar do coração, por sentimentalismo ou picardia — faz de conta que sou alvo, a salvo, sem atirador à
vista. Na manga curta, na comprida a garantir todas as probabilidades do braço, no colarinho, ao centro tipo padre, ao
lado tipo rês de matadouro. Nas saia, à direita, à esquerda, em baixo, em cima, in extremis. Nas
calças, a remedar as aplicações da moda da estação, sobre ou sob o bolso ou o joelho, um ou
outro, enfim, um regalo para a variação... mas sempre preservando um círculo proibido em torno das partes
pudendas.
Ainda não tinha reparado neste manancial de psicologia de esplanada e sociologia de esquina da Gomes,
quando me vejo na casa de banho da Biblioteca Nacional de Madrid feita assistente involuntária duma lição
sobre as possibilidades da etiqueta. Duas jovens (inconsequentes!) num afã de experimentos punham e tiravam as
respectivas já ditas — etiquetas — em todos os igualmente já recenseados pontos anatómicos e
sumptuários, variando mais aqui, mais acolá, mais a oeste, mais a leste, sem desprezar os correlativos posteriores,
tão-pouco os que sobram para serem todos. E ensaiavam poses e contraposes, até que uma saiu com a
determinação de quem encontra soluções perfeitas. De ventre ao léu, ancas meneantes,
lá vai ela, fermosa e bem segura.
E onde acham que a muchacha meteu o rectangulozinho rosa, hum?... Não foi não, impudico
leitor. Foi 20 centímetros mais a norte. No umbigo, por uma questão de etiqueta.
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Capa do programa do espectáculo
de Joaquín Cortés
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Joaquín Cortés
(rescaldo de uma noite de verão)
África, ballet, bolero, Brasil, Cuba, flamenco, gospel, jazz, tango, aço, águia,
água, anjo, ar, ar, bélico, cisne, cálice, caule, cristo, dócil, dragão, épico,
esfinge, escravo, febril, fogo, falcão, galope, gato, garra, gládio, golpe, ginete, laço, lírico,
lírio, mata–morre, melodia muscular, onda em carne e osso, pégaso, pietá, pomba, pétala,
príncipe, raça, raio, rosa, sátira, seda, serpente emplumada, suave, tenso, ténue, tigre, touro,
toureiro, trágico, trote, tambor, violino, veludo, vulcão.
Beleza masculina. A cem por cento. |
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filomena@periferica.org

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transmontano sem
preconceitos |
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