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cadernos de viagem [1] maria filomena  

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Colaboradores neste número: Carlos Teixeira, Carvalhinha Rebocho, Dora Sarmento Mota, Duarte Alegre, Elza Garcia, Eugénio Branco, Fernando Gouveia, José Ferreira Borges, Luís C. Teixeira, Manuel Guimarães, Maria Costa, Maria Filomena, Rui Duarte, Rui Ribeiro, Troglodýtes Trogloditikós, Vicente de Sousa e Vítor Nogueira.

Maria Filomena em Barrow
Barrow, a cidade mais a norte dos
Estados Unidos (71º 17’ N)

Leia também as partes 2 e 3
destes cadernos.

Cadernos de viagem
Do círculo polar árctico à Puerta del Sol


Um dia inteiro para chegar a Anchorage. Sim, vinte e quatro horas, incluindo as cinco de escala em Nova Iorque que contam porque também moem.

Dois encontros, dois, salvo lapso da memória, me levaram a este fim de mundo: a leitura de The Call of the Wild de Jack London,1 cuja acção se passa no Grande Norte e o testemunho entusiasta de uma professora de inglês: vai, o Alasca é uma experiência única.

Três noites em Anchorage — incluindo a da chegada, que é de recuperação da viagem e das nove horas de fuso horário — bastam para sentir a majestade absoluta dos fiordes e dos glaciares e ficar com uma ideia das dimensões da perda das espécies extintas pelo ser humano. Focas, lontras marinhas, baleias, raposas vermelhas, alces e ursos deixam os reinos televisivo-imaginários e movem-se mesmo à nossa frente. Três é também o número das semi-novidades desta terra: a primeira é o estranhamento que constitui a presença de portugueses por estas paragens (de cada vez que respondemos à pergunta donde somos, locais e visitantes não poupam expressões próprias de quem vê um bicho raro); a segunda é o facto de todos terem histórias de ursos para contar, fatalmente semelhantes; a terceira é o conhecido horror vacui dos americanos que aqui se manifesta de modo exponencial nos guias, que explicam, descrevem, sintetizam, narram, inventam, enfim, falam sem dar um minuto de descanso a paciências delicadas, e, como prova do apreço pelas qualidades verborrágicas, exibem anúncios de excursões full narrated.

Quatro dias depois, já em pleno interior, no Parque Denali, saio para caminhar um pouco no bosque, muito pouco, porque uma mulher desacompanhada logo fica exposta aos destemperos do mundo, com maior probabilidade — dizem — de aqui serem bichos de quatro patas. Nem a 30 metros do hotel, em pleno aldeamento, na margem do rio, começo a recuar ao ver o chão pejado de pegadas de, literalmente, várias espécies — carnívoros incluídos.

Cinco coisas que não há em Barrow, a cidade mais a norte dos Estados Unidos, a menos de 1500 km do pólo Norte: sol durante 62 dias, noite durante 82 dias, árvores, montanhas, asfalto nas ruas. Causas e efeitos da inclemência do clima, que não cheguei a experimentar nos estivais 4 ºC. Que comia esta gente? Como faziam fogo sem lenha? Que vestiam? Todas as respostas estão na baleia, cuja migração para o Árctico implica duas passagens anuais pelo estreito de Bering. Dantes núcleo da sobrevivência física de um povo, agora apenas ritual cultural, a caça ao grande cetáceo está no centro de discussões entre esquimós e ecologistas.

Seis corridas, pelo menos, fizeram a historia do Alasca: a das peles, as duas do ouro, a do cobre, a do salmão e a do turismo. Com excepção da última, todas se pautam pelo excesso de ambição e de desilusão. Pura construção humana ou também reflexo duma natureza, em que o descomedido se torna assombrosamente tangível no gigantismo do relevo, nos rigores do inverno, no perigo da fauna, nas auroras boreais e na excelência do silêncio, onde talvez pulse o extremo coração do Call of the Wild?


 

Manifestação na Puerta del Sol
Manifestação na Puerta del Sol

Detalhe da foto anterior
Detalhe da foto anterior

Sete foram as vítimas da ETA, este Verão, um dos mais ensanguentados da história da violência nacionalista basca a juntar às nove que o ano já carregava. E vão 781 assassinatos durante os últimos 32 anos! Ou talvez mais, pois «com o passar dos anos a estatística deteriora-se e a memória debilita-se», escreve Fernando Urbaneja.2 Isto se pode constatar ao vivo e a cores de cada vez que tombam mortos. Abre-se o concerto de apelos, o coro de protestos, mas tudo em dó menor. Uma das faces do impasse político do momento exibe-se na própria arena das manifestações. Refiro-me à falta de garra nos participantes, legível nesta frase ouvida ao acaso «vamos a militar un ratito por la causa, e en seguida vamos al cine, ¿vale?» e nos seus gestos, com muita propriedade comentados por um amigo brasileiro ao assistir ao ¡Basta ya!: «Parecem de plástico, só mexem os lábios». Viva ilustração das preocupações do citado jornalista: «Quando os factos se convertem em dados, perdem-se os sentimentos e emergem as rotinas». Tudo uma questão de memória, que as massas têm curta e ao poder, de um modo geral, convém manter em estado letárgico. E assim se encontra um espaço compartilhado pelos disputantes: o do esquecimento. Pois não haverá que procurar na História que Castela ostensivamente protagonizou, as páginas em branco da integração da diversidade que a habitava, e perceber que o branco dessas páginas é o território pátrio dos nacionalismos, que, numa lógica negativa de amor com amor se paga, erigem as suas memórias retocando heroicidades doutros contextos, construindo uma continuidade que não existiu? É a cabeça e a cauda da serpente do memoricídio. Faço-te abortar a memória, eliminando-te da história, tu judeu, tu mouro, tu negro, tu basco, tu... Violo-te as filhas, desnuco-te os filhos, derrubo as tuas estátuas, substituo os teus nomes das praças e cidades, e neles escreverei o meu nome, de preferência com o teu sangue. Jugoslávia dixit (fecit). E por falar em memória recordem-se e medite-se nas palavras de Perseo à Medusa, de Calderón de la Barca, no ano do quarto centenário da graça do seu nascimento:
Perseo — Si miras a quien matas
¿Por qué no te miras a ti?

Seis motivos válidos, sem contar as variantes, para ir à Puerta del Sol: à espera, de passagem para fazer compras, tirar a foto com o urso e o medronheiro, ver o sítio onde Franco arengava às massas, para ser visto, ou, simplesmente, por acaso.

Cinco séculos, ou quase, tem a Puerta del Sol. Levantada pelos comuneros revoltosos de 1520, derrubada para desafogar a principal saída de Madrid foi — e é — teatro das necessidades e loucuras dos tempos. Aí se arrastaram cadáveres e se cortaram línguas de falantes atrevidos, aí saiu o populacho, sedento de sangue, para assaltar conventos, porque se dizia que os frades envenenaram as águas, aí se deu a matança de 2 e 3 de Maio de 1808 ordenada pelo general francês Grouchy, horror que inspirou magníficas pinturas, entre as quais avultam os Fuzilamentos de Goya. Encruzilhada de vencidos e vencedores, num dia aí se proclamou a Constituição, no outro aí se queimou, para indignação e desgraça do cura Merino, que de Constituição em punho aí interpelou o rei e vociferou: «¡Trágala, tirano!»

Quatro duma vez foram os terroristas/patriotas que se assassinaram a si próprios, dando a carne e os ossos à resposta da Medusa: Ai bombas, ai bombas da ira cega, se vísseis quem vos pega.

Três, entre as mais, são as jóias da coroa a incluir no roteiro madrileno: Prado, Reyna Sofia e Fundação Thyssen-Bornemisza.

Duas vezes mais, sim pelo menos duas, estatística artesanal a que me dediquei, eram os homens em relação às mulheres que frequentavam as bibliotecas. Porque eles têm mais tempo livre que elas, que têm que cuidar dos filhos e da casa. Duas razões redutíveis a estoutra: sociedade tradicional, patriarcal, masculina etecetera e tal. Sim, talvez em parte, e em muita parte, haverá que não esquecer, mas também, e certamente, haverá que admitir, que as coisas serem como são tem os seus confortos, as suas delegações de responsabilidade, os seus não estou para pensar nisso, virtudes da quietude total, física e mental e outros actos do satisfeito e passivo voluntariado em hábitos ruminantes.

Uma praga! Contra a qual se informa que redobrar a atenção pode não ser bastante para desarmar a sofisticação técnica. Falo dos chorizos, entenda-se amigos do alheio, que com agilidade rapace manipulam umas pinças com que penetram os orifícios dos incautos passantes, entenda-se bolsos e bolsas, e zás, é fogo no rabo, rua abaixo.

Zero, precisamente, o quilómetro zero é marcado na Puerta del Sol, palco da tragédia, não raro esperpéntica em que (contra)cenam as Convergências e Divergências de Madrid–Castela–Espanha, com licença de galegos, catalãos e bascos, só para nomear os maiúsculos.


Notas:
1 Versão portuguesa publicada pela Europa-América sob o título O Apelo da Selva.
2 Diário Madrid, edição de 30 de Agosto de 2000.

 
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