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provocações TEXTO: rui ângelo araújo
ILUSTRAÇÕES: paulo araújo
 

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Colaboradores neste número: Carlos Teixeira, Carvalhinha Rebocho, Dora Sarmento Mota, Duarte Alegre, Elza Garcia, Eugénio Branco, Fernando Gouveia, José Ferreira Borges, Luís C. Teixeira, Manuel Guimarães, Maria Costa, Maria Filomena, Rui Duarte, Rui Ribeiro, Troglodýtes Trogloditikós, Vicente de Sousa e Vítor Nogueira.

ilustração de Paulo Araújo
ilustração de Paulo Araújo

Tomar a Sé pela fé
(Onde se maltrata o clero, a nobreza e o povo. Todo o espectro social, enfim.)


Aggiornamento ortográfico

Quando já todos duvidávamos da capacidade de aggiornamento da Igreja católica, surge-nos a evolução ortográfica a pôr em causa o método da nossa dúvida, O nosso cartesianismo, cujo erro já tinha sido apontado no livro de António Damásio, não sobreviverá à revisão linguística que se anuncia no seio da Santa Madre Igreja. Não pense o leitor que o Sr. Padre Minhava mudou de lentes e encontrou maravilhas na pontuação do Sr. Saramago. Não! A coisa é muito mais subtil — ainda que revolucionária.

Na verdade, trata-se de uma reinterpretação dos ensinamentos cristãos à luz de novos dogmas — diferentes na grafia e no sentido, mas semelhantes na ressonância.

Quem primeiro viu as vantagens de semelhante "modernismo" foi, não sem alguma hesitação, o Sr. Bispo de Bragança/Miranda (ou Miranda/Bragança, depende do ponto de vista geográfico). D. António José Rafael (que ainda tem nacionalidade portuguesa porque, graças a Deus, o referendo sobre o aborto correu-lhe de feição e, portanto, o holocausto não foi despenalizado), até se irmana com o Sr. Padre Minhava na ruidosa aversão à má pontuação do nosso Nobel. Mas a revolução preconizada pelo Sr. Bispo não vai ao ponto de se ignorarem os sagrados pontos finais. A coisa fica-se pela alteração de uma letra, como se verá.

O perspicaz D. António notou que a Igreja, na seu sentido abstracto, de congregação de espíritos, tem hoje dificuldades em proporcionar abrigo e conforto às almas brigantinas. Com o incremento da construção civil e o incentivo ao empréstimo bancário as ovelhas albergam-se em modernos T3 com garagem e ignoram as "casas de Deus" — mesmo em dias de tempestade. A verdade é que, num mundo materialista só há uma maneira de se construir uma Igreja: literalmente. Foi esta a revelação.

O conservador D. António Rafael mostrou-se, afinal, um pragmático. Através de uma mexida nos dogmas da língua, eis o subtil aggiornamento proposto: "Pela ‘Sé’ nos movemos!".

Muda-se uma letra, gastam-se dois milhões de contos numa nova catedral e temos a Igreja à la page com os tempos modernos. (A construção de uma nova Sé Catedral ficará na História como o maior passo em frente que se deu na diocese brigantina desde o Concílio Vaticano II. Aliás, como se sabe, é o espírito desse Concilio que ilumina o Sr. Bispo nas suas piedosas obras. De construção civil. A mesma História se encarregará de lhe erguer um busto na etérea galeria dos imortais.)

Resumindo: o update bragançano é este: "Perde-se a fé, mas ganha-se a Sé!". Não me parece mal. Dez mil metros quadrados sob o lema "Nem mais uma alma à chuva" proporcionarão às ovelhas, certamente, um maior conforto na sua relação com Deus.

 

Cardeal Cerejeira e Salazar
O ministro Fernando Gomes e o
Bispo de Bragança aplaudindo
a magnífica catedral, a última
do milénio. Outras se seguirão.


Relações íntimas e luxu(ri)osas

Não pense o leitor (jacobino!) que a construção do monumento se trata de um esbanjamento inútil e inconforme com os ensinamentos do cristianismo. E não seja o facto de a maioria dos brigantinos (muitos párocos incluídos) assim pensar que lhe dê ânimo nesses pensamentos perniciosos.

Como nos assegurou o Sr. Fernando Gomes quando se dirigiu a Bragança (de helicóptero) para receber o baptismo, a admirável construção é "uma obra de arte que irá constituir um dos elementos de arquitectura mais nobres da cidade de Bragança, que pela sua natureza e objectivos, enriquecerá o património arquitectónico e religioso nacional". Se outras razões não houvessem, estas bastavam para que o novel "Ministro da Catedral" (assim baptizado por D. António) sentisse a alma confortada ao assinar o cheque de 370 mil contos para ajudar a actualização linguística da Igreja. (Muito mais barato que o acordo ortográfico laico!)

O Sr. Ministro da Administração Interna, como sabemos, não tem jeito para polícias e bombeiros — mas a sua amabilidade para com os novos dogmas da "sé" cristã faria o senhor Cardeal Cerejeira censurar Salazar pela sua avareza.

E como em assuntos de “sé” a razão não mete o bedelho, o Sr. Ministro, com argumentação beata, já prometeu a continuação da esmola. “Tendo o estado comparticipado nas anteriores fases da obra, não pode, neste momento, alhear-se da conclusão da mesma”, defende, de mão no peito e joelho no chão.

Nestas coisas de generosidade cristã ninguém gosta de ficar atrás. Por isso a Câmara local também não poderia alhear-se do património que ali se erige. Naquele mesmo dia anunciou a oferta de 150 mil contos. (É dádiva pequena para tão grande devoção).

Aproveitando a maré de cerimónias, O Sr. Bispo, que já tinha realizado um baptizado, poderia ter abençoado um matrimónio. O Estado e a Igreja. O macho viril, entroncado, negra madeixa ao vento — e mãos largas. A fêmea recatada, pudica — mas vaidosa. Com a entrada do poder local na relação, teríamos um triângulo amoroso na sacristia.

Tudo a bem da Nação!

 

ilustração de Paulo Araújo
ilustração de Paulo Araújo


O Sino

Ao contrário dos ingratos paroquianos de Bragança, eu acho que é uma pena que o Sr. Bispo tenha que resignar em breve. É que, se lhe dessem tempo, ainda convencia o Ministro da Catedral a oferecer à Diocese o sino da Assembleia da República que o Sr. Almeida Santos lhe recusou em tempos (mesmo sabendo que há lá muitos!).

Não restam dúvidas de que o Sr. Gomes (que não padece do laicismo do Sr. Santos, pugnando antes por uma devoção que não olha a despesas), empenhar-se-ia pessoalmente na obtenção de tão elementar instrumento da “sé” católica. (O sino, como se sabe, é o símbolo do chamamento de Deus). O patrono S. Bento, utente do famigerado sino, preferiria ouvi-lo chamar as almas para as homilias do Sr. Bispo na Catedral do que para as prelecções do Sr. Portas na Assembleia. Os discursos não divergem muito, é verdade, mas o Santo, mais antiquado do que conservador, prefere a sotaina ao fato de corte inglês.

Este adiar da resignação do Sr. Bispo seria muito benéfico para a imagem política de Portugal. Dava-lhe a possibilidade de rebaptizar o Sr. Ministro da Administração Interna. É que, com um “Cardeal” nas Finanças e na Economia, um primeiro-ministro beato e um Ministro da Catedral, ainda se poderá pensar que em Portugal não temos um governo, mas sim um episcopado... O Ministro da Catedral poderia via a ser o Ministro do Sino. (O sino da Assembleia está mais no âmbito do MAI, e o ministro poderia ser “o Sino”, para os amigos. Se não é mais civilizado é mais civil, pelo menos.)

 

Fernando Gomes e Bispo de Bragança
Salazar e o Cardeal Cerejeira
olhando o país com esperança
(foto de arquivo).


Resignação

Como diz “O Independente”, a população e o Clero estão de costas voltadas para o Sr. Bispo. (Não entendem que a Igreja e o Estado Português, com tal “investimento”, querem cumprir uma velha promessa de Guterres: colocar Bragança no mapa. Das peregrinações.) Julgando insensato este estranho modo de cartografar uma região, os bragançanos optaram, no entanto, pela estratégia de esperar que o homem acabasse o mandato com dignidade. Antes que o Bispo o fizesse, resignaram-se.

Aquele bom povo, que já se tinha resignado com o preço das rotundas em Bragança, resigna-se agora com o preço das igrejas. Só pode ser fé, porque a razão não convida a tal contemplação. Quase se diria que a Catedral é feita por medida.

Se o Sr. Bispo desejasse os “jardins suspensos da Babilónia”, o povo achava caro — mas resignava-se. Se o Ministro do Sino, desatento dos incêndios florestais, oferecesse helicópteros aos senhores padres, a população ruborizava de cólera — e resignava-se. Se a Câmara deliberasse cobrar o dízimo juntamente com a taxa da água, o vulgo não mais tomava banho, em protesto — e quando o cheiro fosse insuportável... resignava-se.

Até o “Semanário Transmontano”, aquele pasquim incréu, se rendeu aos méritos do Sr. Bispo. Tudo porque o bom transmontano, o resignado transmontano, rejubila quando alguém consegue sacar uns cobres ao Terreiro do Paço, não importa o destino.


Em Trás-os-Montes a “sé” é inabalável!

 
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ruiaaraujo@periferica.org
pabloarau@periferica.org

P.S. Este texto foi escrito quando ainda havia esperança num milagre de S. Bento. Para mal da Nação e deste honesto pasquim, o milagre não se deu: o Ministro Gomes foi demitido...

'Andarilho', símbolo do EITO FORA

 

transmontano sem preconceitos