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apartado 51


Colaboradores neste número: Carlos Teixeira, Carvalhinha Rebocho, Dora Sarmento Mota, Duarte Alegre, Elza Garcia, Eugénio Branco, Fernando Gouveia, José Ferreira Borges, Luís C. Teixeira, Manuel Guimarães, Maria Costa, Maria Filomena, Rui Duarte, Rui Ribeiro, Troglodýtes Trogloditikós, Vicente de Sousa e Vítor Nogueira.

o meu canto herbertiano


I

sou um receptáculo de poesia
fonte descabida da vertigem nocturna
onde amanhece o dia imenso da perplexidade
do brotar da respiração aquática dos lobos

sou a floresta contínua das coisas todas
que me ardem nos dedos demiurgos de cristal
soltando-se o criador da leveza dos olhos
que espelham qualquer coisa de incrível...
tal qual o arder da vela dos campos
que discorrem naturais no sonho contínuo
varando a certeza do corpo feminino
que transcende o eclipse mais claro da lua

sou o respirar de umas veias concretas
que batem o sentimento descabido do poema
num quietismo falante do hálito dos dias
que percorre montanhas de ninguém...
divagando por entre a neve cristalina das mãos
que afagam as imaculadas sombras líquidas

sou algo de medonho no epicentro da noite
que uiva com sílabas de pétalas
no som límpido do gesto feroz da lua
onde não cabe a certeza do dia rectilíneo

sou algo de descabido por definição
que atinge a fronteira do âmago cru
das coisas que brotam no limiar do silêncio...
onde se estende a vidência do fonema mortífero — exacto
fundindo o gérmen do ser enquanto sombra...
sobrevoando a imensidade do tempo
que desliza sofregamente sobre os oceanos...
em albatroz de olhos-loucura-primacial

sou o reflexo cristalino de um rio de vozes
que estalam no crepitar absurdo dos rostos — diamantes
que se acendem dentro da pele...
como candeias que nos alumiam os ossos
na vastidão do deserto-peixe contínuo...
...das searas da carne...
até às colheitas da água...
...dos sorrisos infantis — dispersos em fuligem

sou um nocturno de chopin
diluído no amor das mães-dedos
que acariciam folhas-mortas...
...no dilúvio do tempo-mármore...
...dos sons do piano-outono...
...que enlaçam os rostos violentamente
por entre as subtis pétalas do olhar
que elas atiram para todo o lago
à procura do cisne-corpo-delas
em voz de soprano delirante
que se estende pelos vales da terra
como cântico maldito das eras
retinindo constantemente nos ossos das árvores...

sou a loucura do cristal diluído
que atravessa a claridade dos rios-alcateia
em inconcebíveis íris de pedra-violeta...
à espera dos sonhos contínuos dos campos

Transumância


I
a mosca imóvel cavalga um flanco de outono

II
Espiras de fumo de um cachimbo a navegar...,
elas cingem de sílabas ciciadas o pelourinho mudo.
Ó colar irrisório como uma grinalda em valeta de pus,
ó estátua vespertina, em cinza depauperante...

Grudado ao cipreste final, afogo desatinos, lava de zelo,
na água de lustre com que o tempo se faz maior.
Ondeiam rostos osculados em libações de néctar.
Interposta a medo, a fenda de ser de uma pitonisa...

Conheço agora as pedras que branqueiam o alancear
do espelho sinistro, e a tríade obtusa do pudor mesquinho.
Entretanto, as falanges arremessam o impulso mais nobre
à combustão falaz de uma dor que regurgita.

III
Pela túnica tremendamente podre
passa água que amadurece a nudez dos cumes.
A mão a monte e decepada, os dedos brancos,
em que sangue petrificado se aprisionou?
Uma dança, dentro da luva hesitante. No palco
do muro horizontal, o vinho incendeia as pedras,
e as pedras unem a sombra que foi sua.
Os dedos cobrem-se com penas de ave.
As aves são excêntricas como as uvas.

IV
Há inúmeras mesas sentadas em redor do frio
que toca, imperceptível, o dedo anelar
e a mão esquerda de um recém-nascido.

Da velha freira louca, nas entranhas glaciais,
que ousou beber o sol através dos olhos,
é preciso dizer que o caixão é circular.

As mesas erguem-se, inclinam-se para o ritual.
Começam a rodar com passos de criança.
Uma serpente dourada é o seu arquétipo.

V
Do pão se disse que era vasto.
E as migalhas duplicantes
caíram-me das mãos.

pastorear de medos...
melodias taciturnas...
transumância de alabastro...

 
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eugeniobranco@periferica.org

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