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apartado 51
Colaboradores neste número:
Carlos Teixeira, Carvalhinha Rebocho, Dora Sarmento Mota, Duarte Alegre, Elza Garcia, Eugénio Branco,
Fernando Gouveia, José Ferreira Borges, Luís C. Teixeira, Manuel Guimarães, Maria Costa, Maria Filomena,
Rui Duarte, Rui Ribeiro, Troglodýtes Trogloditikós, Vicente de Sousa e Vítor Nogueira.
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ENe livros. ENe traças. Estradas Nacionais?
Não. Talvez auto-estradas da informação. Em livros que são valorizadas acima de qualquer suspeita.
Pela capa, forma e conteúdo. Mas também, e sobretudo, pelos caracteres próprios e personalidade
específica. Únicos quando dedicados a alguém...
Montes deles, virgens e usados, poisam na rua dos Mártires da Liberdade. Cidade Invicta. Livraria Académica,
o nosso destino.
Veio a propósito o endereço... porque também o livro foi ferido pelo lápis azul. Censura. Um
mártir por uma boa causa. «Vinham pelo menos uma vez por semana. Sub-repticiamente. Traziam a lista de livros, porque a
cultura não lhes ocupava a cabeça. Mesmo assim, às vezes, levavam os livros proibidos. Quando não
havia tempo para os guardar». Quem assim conta é a alma mater deste espaço de fruição. Nuno
Canavez.
Transmontano. De Vale do Juncal, Mirandela. Quase sempre irónico, por vezes áspero e ríspido, mas «por
formação e não pelo facto de ser transmontano». Acrescenta o próprio.
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Livraria Académica
As traças também têm que viver, coitadas...
Chegou ao Porto com treze anos. Um de Outubro de 1948. Dia triplamente especial porque, pela primeira vez, calçou sapatos, vestiu fato e andou de comboio. O livro nunca lhe passara pela cabeça. Mas a ida precoce para a livraria de Guedes da Silva, o fundador da Académica, conduziu-o a um «gosto progressivo pela leitura». Pelo meio ficaram os estudos na Escola Comercial e uma espécie de estágio na Cedofeita, onde ganhou a noção de que poderia ir mais longe. A estratégia passava por explorar as potencialidades do catálogo. Nos anos sessenta torna-se proprietário da livraria que ainda explora. A Académica.
Hoje contabiliza mais de meio século em supremo contacto com o livro. «Permanentemente a aprender alguma coisa», considera.
Ao longo deste tempo apercebeu-se que as mulheres eram um aliado de peso na prossecução do seu negócio. Quando enviuvavam vendiam logo as obras. Essencialmente por três razões. Primeiro, porque era a única forma de recuperar o dinheiro (mal)gasto pelos defuntos na aquisição de livros, em detrimento da perfumaria e do guarda-roupa femininos; depois, porque os livros tinham sido rivais demasiado bem sucedidos na conquista das atenções; por fim, porque eram fieis depositários do pó, mais uma tarefa ingrata para as senhoras! «As mulheres só coleccionavam sapatos e vestidos. Os homens é que tinham espirito de coleccionador. Felizmente hoje as coisas são diferentes».
Apesar de tudo confessa que existe crise no negócio do livro. «Antigamente as pessoas desfaziam-se rapidamente dos livros. Actualmente guardam-nos como património. A primeira edição e/ou o livro raro cada vez chega menos ao grande público». Neste âmbito referencia que o «mundo da informação — basicamente devido ao computador — distancia o homem da leitura. Por exemplo, as enciclopédias raramente se vendem».
Na participação em congressos e conferências sobre Trás-os-Montes emergiu a ideia de criar um fundo bibliográfico — precisamente sobre esta região — na Biblioteca Sarmento Pimentel (Mirandela). Logo na abertura desta, por volta dos anos oitenta, doou quatrocentos livros. Hoje... são cerca de 1700 obras entregues na capital da Terra Quente. Todavia, e porque o livro deve «andar sempre na linha da frente», tal atitude não chegou e decide publicar dois volumes onde apresenta um bibliografia exaustiva e pormenorizada sobre Trás-os-Montes e Alto Douro. Pesquisa por índices, temático e toponímico; mas o trabalho e a catalogação continuam... Mandou estas obras para as Bibliotecas. Só uma é que agradeceu. Enviou igualmente para as Câmaras. Apenas duas responderam. A de Chaves e de Bragança. Sintomático! «As câmaras transmontanas não se interessam pela cultura e o respectivo Pelouro não divulga os livros que, muitas vezes, edita». Mesmo assim tem livros dos contemporâneos transmontanos como Barroso da Fonte, Pires Cabral e António Cabral.
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Ainda jovem, conheceu Miguel Torga. O escritor que mais admira. Contudo, «o seu carácter e comportamento humano não correspondiam à qualidade dos seus textos. Inacessível. Nem pensar em pedir-lhe uma dedicatória. Recusou uma ao próprio Mário Soares...». A clientela sempre foi vasta, heterogénea e cosmopolita. Jaime Cortesão. José Régio. Leonardo Coimbra. José Rodrigues, o escultor do regime. Entre muitos. Conversavam e discutiam o livro. Hoje existe a pressa do quotidiano e a disponibilidade da Internet que, de alguma forma, inviabilizam a tertúlia.
Por outro lado, manifesta estima àqueles que estudam e/ou investigam. Assim se explica a sua permissão para consulta de obras ou, em última análise, tirar fotocópias. A mesma atitude surge quando algum autor vem apresentar o seu trabalho. «Nunca recusei a compra de um livro. Deste modo, evito uma possível frustração do autor...»
De entre os seus clientes é capaz de distinguir personalidades e atitudes perante o saber livresco. Uma tipologia breve e simplificada. O bibliófilo, o «amante do livro»; conhece as características da obra, identifica o autor e estuda a temática. O bibliómano é o «indivíduo que gosta do livro como objecto», evidencia o sentimento de posse, adora o livro raro e ambiciona adquirir a primeira edição. Depois vem o cliente normal que pretende valorizar os seus conhecimentos; para este «o livro é um recurso». Clientes transmontanos são poucos. Um industrial de Moncorvo amante de livros com dedicatória e um ilustre flaviense. Júlio Montalvão Machado. Médico e entusiasta da investigação da história local. No entanto, a vocação de alfarrabista não o impede de ter um top de vendas. Primeiramente as Monografias; depois, as Revistas Literárias e, em terceiro lugar, as Primeiras Edições.
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