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um jornal? uma revista?
reportagem TEXTO: luís c. teixeira (c/ r. a. araújo e c. chaves)
FOTOGRAFIAS: r. a. araújo e c. chaves
 

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Colaboradores neste número: Carlos Teixeira, Carvalhinha Rebocho, Dora Sarmento Mota, Duarte Alegre, Elza Garcia, Eugénio Branco, Fernando Gouveia, José Ferreira Borges, Luís C. Teixeira, Manuel Guimarães, Maria Costa, Maria Filomena, Rui Duarte, Rui Ribeiro, Troglodýtes Trogloditikós, Vicente de Sousa e Vítor Nogueira.

Nuno Canavez

ENe livros. ENe traças. Estradas Nacionais? Não. Talvez auto-estradas da informação. Em livros que são valorizadas acima de qualquer suspeita. Pela capa, forma e conteúdo. Mas também, e sobretudo, pelos caracteres próprios e personalidade específica. Únicos quando dedicados a alguém...

Montes deles, virgens e usados, poisam na rua dos Mártires da Liberdade. Cidade Invicta. Livraria Académica, o nosso destino.

Veio a propósito o endereço... porque também o livro foi ferido pelo lápis azul. Censura. Um mártir por uma boa causa. «Vinham pelo menos uma vez por semana. Sub-repticiamente. Traziam a lista de livros, porque a cultura não lhes ocupava a cabeça. Mesmo assim, às vezes, levavam os livros proibidos. Quando não havia tempo para os guardar». Quem assim conta é a alma mater deste espaço de fruição. Nuno Canavez.

Transmontano. De Vale do Juncal, Mirandela. Quase sempre irónico, por vezes áspero e ríspido, mas «por formação e não pelo facto de ser transmontano». Acrescenta o próprio.

Livraria Académica
As traças também têm que viver, coitadas...


Chegou ao Porto com treze anos. Um de Outubro de 1948. Dia triplamente especial porque, pela primeira vez, calçou sapatos, vestiu fato e andou de comboio. O livro nunca lhe passara pela cabeça. Mas a ida precoce para a livraria de Guedes da Silva, o fundador da Académica, conduziu-o a um «gosto progressivo pela leitura». Pelo meio ficaram os estudos na Escola Comercial e uma espécie de estágio na Cedofeita, onde ganhou a noção de que poderia ir mais longe. A estratégia passava por explorar as potencialidades do catálogo. Nos anos sessenta torna-se proprietário da livraria que ainda explora. A Académica.

Hoje contabiliza mais de meio século em supremo contacto com o livro. «Permanentemente a aprender alguma coisa», considera.

Ao longo deste tempo apercebeu-se que as mulheres eram um aliado de peso na prossecução do seu negócio. Quando enviuvavam vendiam logo as obras. Essencialmente por três razões. Primeiro, porque era a única forma de recuperar o dinheiro (mal)gasto pelos defuntos na aquisição de livros, em detrimento da perfumaria e do guarda-roupa femininos; depois, porque os livros tinham sido rivais demasiado bem sucedidos na conquista das atenções; por fim, porque eram fieis depositários do pó, mais uma tarefa ingrata para as senhoras! «As mulheres só coleccionavam sapatos e vestidos. Os homens é que tinham espirito de coleccionador. Felizmente hoje as coisas são diferentes».

Apesar de tudo confessa que existe crise no negócio do livro. «Antigamente as pessoas desfaziam-se rapidamente dos livros. Actualmente guardam-nos como património. A primeira edição e/ou o livro raro cada vez chega menos ao grande público». Neste âmbito referencia que o «mundo da informação — basicamente devido ao computador — distancia o homem da leitura. Por exemplo, as enciclopédias raramente se vendem».

Na participação em congressos e conferências sobre Trás-os-Montes emergiu a ideia de criar um fundo bibliográfico — precisamente sobre esta região — na Biblioteca Sarmento Pimentel (Mirandela). Logo na abertura desta, por volta dos anos oitenta, doou quatrocentos livros. Hoje... são cerca de 1700 obras entregues na capital da Terra Quente. Todavia, e porque o livro deve «andar sempre na linha da frente», tal atitude não chegou e decide publicar dois volumes onde apresenta um bibliografia exaustiva e pormenorizada sobre Trás-os-Montes e Alto Douro. Pesquisa por índices, temático e toponímico; mas o trabalho e a catalogação continuam... Mandou estas obras para as Bibliotecas. Só uma é que agradeceu. Enviou igualmente para as Câmaras. Apenas duas responderam. A de Chaves e de Bragança. Sintomático! «As câmaras transmontanas não se interessam pela cultura e o respectivo Pelouro não divulga os livros que, muitas vezes, edita». Mesmo assim tem livros dos contemporâneos transmontanos como Barroso da Fonte, Pires Cabral e António Cabral.

 

Nuno Canavez

Ainda jovem, conheceu Miguel Torga. O escritor que mais admira. Contudo, «o seu carácter e comportamento humano não correspondiam à qualidade dos seus textos. Inacessível. Nem pensar em pedir-lhe uma dedicatória. Recusou uma ao próprio Mário Soares...». A clientela sempre foi vasta, heterogénea e cosmopolita. Jaime Cortesão. José Régio. Leonardo Coimbra. José Rodrigues, o escultor do regime. Entre muitos. Conversavam e discutiam o livro. Hoje existe a pressa do quotidiano e a disponibilidade da Internet que, de alguma forma, inviabilizam a tertúlia.

Por outro lado, manifesta estima àqueles que estudam e/ou investigam. Assim se explica a sua permissão para consulta de obras ou, em última análise, tirar fotocópias. A mesma atitude surge quando algum autor vem apresentar o seu trabalho. «Nunca recusei a compra de um livro. Deste modo, evito uma possível frustração do autor...»

De entre os seus clientes é capaz de distinguir personalidades e atitudes perante o saber livresco. Uma tipologia breve e simplificada. O bibliófilo, o «amante do livro»; conhece as características da obra, identifica o autor e estuda a temática. O bibliómano é o «indivíduo que gosta do livro como objecto», evidencia o sentimento de posse, adora o livro raro e ambiciona adquirir a primeira edição. Depois vem o cliente normal que pretende valorizar os seus conhecimentos; para este «o livro é um recurso». Clientes transmontanos são poucos. Um industrial de Moncorvo amante de livros com dedicatória e um ilustre flaviense. Júlio Montalvão Machado. Médico e entusiasta da investigação da história local. No entanto, a vocação de alfarrabista não o impede de ter um top de vendas. Primeiramente as Monografias; depois, as Revistas Literárias e, em terceiro lugar, as Primeiras Edições.

 

Nuno Canavez

Na qualidade de leitor privilegiado, as suas preferências recaem sobre autores considerados chaves da literatura. Entre os portugueses, Miguel Torga. Vergílio Ferreira («este merecia o Prémio Nobel da Literatura porque soube encarar a morte de frente. Como deve ser...»). Padre António Vieira e até António José Saraiva (uma escolha moderna já que anda a ler O que é a cultura?). Nos estrangeiros. Thomas More. Maquiavel. Victor Hugo. Durante a juventude adorava a literatura de aventura. Salgari ou Júlio Verne. Mas também consome reportagens de países, sobretudo de África. Um fascínio...

No capitulo das raridades & outros episódios pitorescos, destaca a cena em que lhe roubaram uma edição da Mensagem autografado pelo mesmíssimo Fernando Pessoa. «Valia setecentos contos!». Sem mais. Conserva ainda as primeiras edições de alguns autores portugueses como Camilo Castelo Branco (curiosamente a edição de1865 do romance O Esqueleto cujo enredo passa pelas terras transmontanas de Vidago e Vila Pouca de Aguiar). Ou de Vergílio Ferreira.

O Salão Nobre situa-se no primeiro andar da livraria. Muitas coisas. Livros. Raridades. Outras menos raras. Por exemplo as poses com o Mário Soares. «Oficialmente veio cá três vezes. Outras tantas particularmente...», frisa com orgulho. Mais tarde exibe uma colecção (incompleta) da revista Presença (1927) que vale dois mil contos. Desenhos, poesias e outros escritos que «romperam com a literatura tradicional». Álvaro de Campos. Miguel Torga. José Régio. Camilo Pessanha. Gaspar Simões. Adolfo Casais Monteiro. Nasceu o modernismo nos anos 20.

Na retaguarda possui ainda outras secções: Manuscritos; e obras sobre Timor e Macau; literatura italiana e indiana. Inevitavelmente, o cantinho com bibliografia sobre Trás-os-Montes. Mais um armazém e as garagens particulares. Contentores de livros!

 

Nuno Canavez

Por falar na região... contactos com a Mirandela natal quase só através dos jornais locais. «Há dois anos fui lá durante uma semana (Agosto). Os gajos passam a vida enfiados a ver TV. Mesmo assim ainda tive umas conversas entusiasmantes com os velhotes».

É chegada hora de abandonar este paraíso das traças. Odores de Pessoa. Telurismos de Vergílio. Ingredientes do Padre António. Claves de Régio. Poemas da Florbela. Obras de arte. E traças. Muitas. «As traças também têm que viver...Coitadas!», rematou Nuno Canavez à saída do seu Reino Maravilhoso. Não o de Torga.

 
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'Andarilho', símbolo do EITO FORA

 

transmontano sem preconceitos