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património TEXTO: luís c. teixeira
ILUSTRAÇÃO: elza garcia   FOTOGRAFIAS: rui ribeiro
 

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Colaboradores neste número: Carlos Teixeira, Carvalhinha Rebocho, Dora Sarmento Mota, Duarte Alegre, Elza Garcia, Eugénio Branco, Fernando Gouveia, José Ferreira Borges, Luís C. Teixeira, Manuel Guimarães, Maria Costa, Maria Filomena, Rui Duarte, Rui Ribeiro, Troglodýtes Trogloditikós, Vicente de Sousa e Vítor Nogueira.

ilustração de Elza Garcia
ilustração de Elza Garcia

«— Ó avozinha, que grandes orelhas as suas! — disse o Capuchinho.
— É para te ouvir melhor — respondeu o lobo.
— Mas ó avozinha, que dentes enormes que a avozinha tem!
— É para te comer melhor! — gritou o lobo.»

Na pele do lobo


Ou a demonstração de uma das mil maneiras de tipificar o mito do lobo mau no universo infantil! Primeiro passo para a histeria colectiva que, ainda hoje, este predador provoca. Capuchinho Vermelho. Um clássico da literatura infantil que, apesar de tudo, se pode e deve comentar. Criticamente. As orelhas dos lobos até são relativamente curtas e os dentes caninos são proporcionalmente mais pequenos do que em outros canídeos!

Urge pois desmistificar esta e outras histórias. Como a dos Três Porquinhos. Reinventem outros contos infantis! Verdadeiras infantilidades. Reargumentem novos filmes! O lobo não é sempre o mau da fita...Quem tem medo do lobo? Ou do lobisomem? Todavia, mesmo na filmografia hollywoodesca existem excepções onde este animal é tratado com a dignidade que merece! Um exemplo. «Mulher Falcão» («Lady Hawk») com Rutger Hauer e Michelle Pfeiffer.

Curiosamente preservar os Fojos do Lobo — essas “armadilhas seculares para a captura do lobo” — significa também contribuir para recuperar a identidade do lobo enquanto predador e/ou presa. Simplesmente animal. Ser vivo. Sentimentos! No fundo, estudar simultaneamente o Património Natural e Cultural. O mote para tal objectivo surgiu com a “descoberta” do FOJO do LOBO da SAMARDÃ. Pequena serra localizada algures entre Vila Real e Vila Pouca de Aguiar. Trás-os-Montes.

 

fotografia de Rui Ribeiro
fotografia de Rui Ribeiro


O FOJO

Trata-se de um recinto fechado, feito em pedra, que corresponde grosseiramente a uma oval irregular equivalente sensivelmente a dois terços de um campo de futebol. O muro é constituído por pedra irregular com pequenos megálitos junto à base. Na parte superior do muro — como podemos observar na zona Oeste, a mais bem conservada — foram colocadas lajes de pedra que são mais largas que a grossura deste. Designadas cápeas, e que aqui até são ligeiramente pontiagudas, serviam para impedir a saída do lobo. Antes deste momento, a entrada do lobo deveria fazer-se pela parte Norte já que no exterior existem rochas naturais encostadas à parede que facilitariam o acesso ao Fojo.

Este monumento de inegável valor patrimonial parece pertencer à tipologia dos Fojos de Cabrita. Os iscos colocados no interior, para atrair o lobo eram alternadamente cabritos ou ovelhas. Mancas ou tinhosas. Doentes.

Ainda no interior verificamos, à semelhança de outros monumentos idênticos, a existência de um grande rochedo, entre outros mais pequenos, no qual o animal a caçar se refugiava. Isto acontecia porque o lobo cedo se apercebia que caíra numa cilada. Fatal. Muitas vezes bastava um só tiro! Mas nem sempre... como confirma António Lagoa que conhece a serra quase tão bem como o seu pai. Matias. «Uma vez o lobo subiu ao penedo grande e, talvez devido ao seu porte ou desespero, conseguiu saltar para fora do Fojo.» Uma honrosa excepção para o lobo, mas uma agonia para o homem. Inverteram-se os papeis! «A ovelha era colocada à noite no Fojo», conclui António. Por causa do cheiro...

Estrategicamente este Fojo da Samardã situa-se junto a uma linha de agua embora o solo seja pobre, o que não é de estranhar.

No interior, em termos de vegetação, nada está substancialmente diferente. Caso contrário, o lobo poderia suspeitar de anormalidades neste corredor da morte. Deste modo, predominam as giestas, pinheiros e urzes. Fora e dentro. As acessibilidades a este local são facilitadas quer pela natureza do relevo quer pelas proximidades das aldeias. Samardã. Vilarinho de Samardã e até Covêlo, na fronteira entre o concelho de Vila Real e Vila Pouca de Aguiar. Muitas vezes, a utilização do Fojo era feita imediatamente após um pastor, desta aldeias, ter tido prejuízos causados pelo lobo. No fim da batida exibia-se o trofeu! «Em cima de um jumento — contava o meu pai — o lobo (ou o que restava dele, a pele) dava a volta à aldeia em troca de uma esmola destinada a cobrir os danos causados a esse pastor». Prática ainda muito comum nos inícios do século, confidencia António Lagoa.

Esta pequena serra que conflui com as fraldas do Alvão (zona de Cerva e Gouvães da Serra) era uma intensa zona de caça. Ainda hoje... A prová-lo está a toponímia existente nas vizinhanças do Fojo. Couto da Serrapa. Cabanões. Cabeça de Cabrito. Sintomático!

 

fotografia de Rui Ribeiro
fotografia de Rui Ribeiro


DO LOBO

O lobo é um animal. Como o homem. Social. Protege a família. Delimita o seu território. Com mijo e dejectos. Reage sempre que alguém entra na sua área vital quase sempre coincidente com o território. Nem que sejam os primos ou lobachos de uma alcateia vizinha. Porque é o seu local de alimentação, reprodução, refúgio, abrigo e brincadeira. E o Homem? Não faz isso quando alguém salta para o seu quintal e/ou invade a sua privacidade? Pior! Frequentemente ataca por raiva e não para sobreviver...

Ao contrário do lobo que é um predador. Necessita pois de matar outros animais para sobreviver. Como o leão. Rei da selva. Ou a águia. Real?! Animais com statu quo. Símbolos de clubes e organizações políticas. Logo aceites pelos indivíduos e governos. Respectivamente.

Como se compreende então o facto do Homem estar prestes a conseguir extinção do lobo? Primeiramente devido ao mito, enquanto erro histórico, de que o lobo ataca o Homem. Pensamento incorrecto até porque, na esmagadora maioria das vezes, procura evitar o contacto com o ser humano. Depois, porque o lobo cada vez mais depende dos animais domésticos para a sua sobrevivência. Por exemplo, da cabra na população lupina do Parque Natural do Alvão. Este comportamento provoca uma perseguição directa e quase obsessiva ao lobo. Sem dúvida que os pastores estão a pagar, em certa medida, a conservação do lobo mas a questão é mais complexa do que parece. Antes de mais, existem um conjunto de factores imputáveis à acção do Homem que conduziram a esta situação: a redução drástica das espécies silvestres, a degradação do habitat natural do lobo mormente devido aos incêndios e ao desenvolvimento da rede viária, a ausência de incentivos à pastorícia tradicional, o desinteresse do pastor em conservar exemplares de cães para a protecção das presas domésticas como, por exemplo, o cão de gado transmontano. Acrescente-se ainda que uma tempestade ou doença epidémica também pode causar prejuízos. Na era das subsídiodependências recomenda-se paciência!

Outra confusão que deve ser esclarecida remete para a necessidade de referenciar a presença de cães vadios (Parque Nacional da Peneda-Gerês) responsáveis igualmente por ataques na pecuária. Mais! Habituado a uma relação de confiança com o Homem num período anterior, o cão assilvestrado pode eventualmente atacar o homo sapiens sapiens. Mas. O lobo (canis lupus) parece ser a única vitima! Desesperado recorre à necrofagia, a lixeiras e vazadouros como alternativa à sobrevivência. Esta luta desleal contra o veneno do Homem só cessará quando a educação ambiental e/ou ecológica definir um rol de estratégias que conduzam a uma informação verdadeira sobre a natureza deste carnívoro. Até porque, antes da sedentarização (cultivo da terra e criação de animais), o Homem respeitava o lobo e o seu instinto de predador. Exemplo disso eram as tribos ameríndias.

Contudo a ameaça paira também sobre os Fojos do Lobo votados ao esquecimento. As condições climatéricas e o “roubo” de pedra aparelhada para as construções fez o resto. Devido a este estado de degradação progressiva, emerge ideia de inventariar e classificar estes monumentos. Obviamente de interesse público. No mínimo... Além disso, a tradição oral, eivada dos habitantes das aldeias próximas, pode revelar pormenores da sua utilização e percurso histórico. No caso particular do Fojo da Samardã constatam-se friamente estes problemas, aos quais devemos acrescentar a infeliz ideia de ter colocado, nos penedos do interior do Fojo, duas placas comemorativas de instituições ligados ao burgo mais próximo. Ou seja à capital da região!...

Lobo e Fojo representam marcas do nosso Património. Natural para o primeiro; Cultural e/ou Etnográfico para o outro. Mas ambos têm um denominador comum. O Homem. Enquanto predador dos outros ou presa de si próprio. Ad referendum.

 

ilustração de Elza Garcia
ilustração de Elza Garcia


BIBLIOGRAFIA

CARREIRA, Rita e NASCIMENTO, José — Construção de Novas Vias Rodoviárias: Impactos no População Lupina in revista «Erica», n.º 29, Parque Natural do Alvão, 1997.
CARREIRA, Rita — Situação Populacional e Biologia Alimentar do Lobo na Área de Influência do Parque Natural do Alvão, Relatório de Estágio, Departamento de Zoologia e Antropologia da F.C.U.L., Lisboa, 1996.
FONSECA, Petrucci e LYLE Robert — O Lobo, 2ª Ed., Grupo LOBO, 1992.
LEWIS, Ann — Capuchinho Vermelho, Trad. Port., Electroliber, s/ data.
MOREIRA, Luís — O Lobo no nordeste de Trás-os-Montes, Património Natural Transmontano, Mirandela, João Azevedo Editor,1998.
VÁRIOSAlguns Vertebrados do Parque Nacional da Peneda-Gerês, Edição P.N.P.G., Braga, 1987.

INTERNET
http://www.terravista.pt/
http://www.duartevieira.com/lobo
http://www.geira.pt/arqueo/cabreira

 


IR NA PEUGADA DO FOJO...

LUGAR: Tojal (Samardã)
FREGUESIA: Vilarinho de Samardã
CONCELHO: Vila Real
DISTRITO: Vila Real
CARTAS: Carta Militar de Portugal, folha 88, Telões (Vila Pouca de Aguiar), Instituto Geográfico do Exército, escala 1/25000
DISTÂNCIAS: 12 km de Vila Pouca de Aguiar e 13 km de Vila Real
TIPO de PERCURSO: Estrada macadamizada e em terra batida
PONTO de REFERÊNCIA: Cruzamento da Samardã na EN2
LEITURAS: Camilo Castelo Branco, Novelas do Minho — O Degredado, 1877

 
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