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apartado 51


Colaboradores neste número: Carlos Teixeira, Carvalhinha Rebocho, Dora Sarmento Mota, Duarte Alegre, Elza Garcia, Eugénio Branco, Fernando Gouveia, José Ferreira Borges, Luís C. Teixeira, Manuel Guimarães, Maria Costa, Maria Filomena, Rui Duarte, Rui Ribeiro, Troglodýtes Trogloditikós, Vicente de Sousa e Vítor Nogueira.

fotografia de Paulo Araújo
fotografia de Paulo Araújo

Apologia do fogo posto


Todos os anos a época estival abre com magníficas paradas de bombeiros, orgulhosos com os seus novos brinquedos prontos a estrear. São os carrinhos vermelhos, de jantes brancas, que fazem um ti-nó-ni muito afinadinho; são os helicópterozinhos e aviõezinhos ejaculatórios; são os sistemas de comunicações sempre renovados e infalíveis numa de “desta vez é que é”. O ministro responsável convoca a malta toda e fazem uma festa fixe, onde comparam estatísticas enquanto comem uma fêvera e bebem uma pinga de estalo, quem sabe para apagar o fogo que lhes vai na alma.

Debalde (vazio). Todos os anos lá se repete a cena. As labaredas surgem das profundezas da terra consumindo hectares de esperança e estorricando bombeiros a torto e a direito. Que fazer?

É inútil tentar compreender o fenómeno. Todas as explicações já foram arriscadas. Inicialmente, quando este problema começou a ter proporções mais descontroladas os fumadores foram os primeiros a ser olhados com desconfiança. A teoria da prisca negligenciadamente arremessada, qual flecha incendiária, durou pouco tempo. Eu próprio fiz a experiência e garanto não ter sido responsável por nenhum incêndio, nem mesmo por uma fogueirinha pequenina. Depois, também ninguém no seu juízo perfeito acreditaria na possibilidade de um pequeno exército de gajos, espalhados pelo país a mandar priscas incendiária por esses ermos fora. Isso não explicava os incêndios em locais muito isolados, em matas sombrias e húmidas, em reservas naturais teoricamente bem protegidas, incêndios que deflagram à noite, em locais longínquos, às vezes vários em simultâneo na mesma zona. A coisa evidenciava sinais criminosos! Mas porque? Qual era a vantagem de andar a atear fogo por aí eito fora? Disfarçar o mau odor corporal com o cheiro do fumo das ervas do monte?! Isso não devia ser obra de gente sensata. Nasceram, assim, as figuras do pirómano tarado, do psicopata vicioso que se vem a olhar para o fogo, do maluquinho da aldeia que é pirómano tarado, ou é aliciado pelo psicopata vicioso (e cobarde) e outras psicopatologias de que nem é bom falar. Depois de se sacrificarem alguns bodes expiatórios, chegou-se à triste conclusão de que este país devia estar cheio de tarados, o que toda a gente se apressou a recusar, naturalmente. Excluída esta hipótese, sobrevieram as teorias mercantilistas. A coisa devia meter dinheiros. Esta teoria, sim, agradou a toda a gente. Como sabem, a cabecinha das pessoas funciona sempre melhor quando se trata de assuntos de dinheiro, e essa ideia de que alguns privilegiados se andavam a governar em negócios tão quentes poderá ter suscitado algumas invejas. Havia que começar a desancar. Primeiro foram os madeireiros a comer de tabela. Ora era porque pegavam fogo para comprar a madeira queimada mais barato, ora para coagir proprietários a vender a que escapava por um triz, enfim para especulações sem escrúpulos. Depois, eram os pobres dos pastores porque queriam o melhor para os seus animaizinhos. A seguir, já eram os tipos dos aviões que precisavam de ganhar a vida a apagar os fogos. Mais tarde, chegou-se ao cúmulo de apontar o dedo aos próprios bombeiros, que isso de ser bombeiro era sacrifício cobiçado por muitos. E outras teorias indecentes que eu não me atrevo a referir. Tudo mentira!

Depois de muito ter cogitado, começa a fazer-se luz no meu espírito. Uma das hipóteses mais plausíveis ouvi-a da boca de um ente querido há não muito tempo. Investigara profundamente todas as causas possíveis deste holocausto anual e só lhe restava uma certeza: a culpa era dos extraterrestres que, impossibilitados, por uma avaria irreparável do equipamento, de comunicar com o seu planeta ou nave-mãe, se viam obrigados a fazer sinais de fumo numa tentativa desesperada que os viessem buscar. Uma espécie de tragédia russa intergaláctica. Não sei, é possível... De qualquer modo, de uma coisa eu tenho a certeza: onde há fumo há fogo.

Por isso, como temos que viver com esta realidade, o melhor é aproveitar ao máximo enquanto ninguém se preocupa a sério com isto (que é como quem diz que o chiado não mora aqui) e, se me permitem o atrevimento, deixarei algumas sugestões para proveitosas acções futuras.

Primeiro, há que começar por dignificar a figura do incendiário. Quantos de nós já não passaram umas horas divertidas a olhar para o fogo, nas noites quentes de Verão. Nas nossas varandas, confortavelmente instalados numa cadeira, de binóculos, saboreando um “drink”, analisando a altura das labaredas, imaginando a intensidade da fornalha. Depois, aquela parte muito divertida de ver aqueles pirilampos azuis a progredir devagar em direcção ao braseiro, atravessando caminhos de cabras, roçando o vazio na noite negra. E então, quando estão quase a chegar lá, um outro incêndio a começar, nas suas costas, e depois outro e ainda outro. É ver, então, a malta toda a apontar com o dedo e a espumar indignada: “assassinos”, “bandidos”, “criminosos”, etc. E os pirilampos? Todos tontos, de um lado para o outro sem saber o que fazer. É mesmo giro! Durante o dia também é um espectáculo, diga-se de passagem. Aí, além das majestosas colunas de fumo, como cogumelos incandescentes, temos a mais valia das manobras dos meios aéreos (uma inovação ainda recente e mal explorada no nosso país), nomeadamente as respectivas cargas e descargas de água que deixam qualquer um de boca aberta. Isto sem falar do delicioso aroma do rescaldo fresco.

De qualquer modo, aquele tempo em que o pessoal se divertia a tocar o sino, tratava de arranjar uma giesta jeitosa e corria para o monte já acabou há muito tempo. Era demasiado perigoso. O mínimo que podia acontecer era queimar as solas, ficar a tossir e com os olhos a arder, isto para não falar no risco de partir uma perna ou ficar encurralado pelo fogo. É por isso que eu fico revoltado quando ouço as pessoas dizer, quando apanham algum incendiário, que o deviam lançar ao fogo. Nada mais injusto! Que fizeram essas pessoas para evitar o fogo? E para o combater? E para alertar? Ele ao menos teve a coragem de o atear. Arriscou-se a um linchamento público ou a ficar transformado em torresmo e morrer no anonimato, enquanto todos beneficiavam do espectáculo que ele de uma forma heróica e desinteressada (ou não) oferecia a todos sem excepção (não há espectáculo mais gratuito). Enquanto ele sacrifica a sua honra pelo ordenamento do território, a administração florestal pouco ou nada colabora. Fazem estátuas ao bombeiro? Eu digo, façam ao lado uma estátua ao incendiário, que tanto merece. È uma justa homenagem por tantas emoções sentidas e por tantas reportagens consentidas.

Não brinco, e digo mais! Os incêndios que todos os anos chamuscam os nossos montes já carecas de tanto fogo deviam ser aproveitados para fins turísticos. Não riam! É isso mesmo, para fins turísticos! E turismo internacional (que nós por cá já estamos a ficar um bocado queimados com esta história). Parece que já estou a ver os folhetos das agências de viagens: “Fiordes da Noruega”, “Paraíso das Caraíbas”, “Palácios da Europa”, “Incêndios de Portugal”. Era um sucesso garantido. Tão imponente como os “Vulcões da Islândia” mas com as vantagens do clima ameno, da hospitalidade portuguesa, da gastronomia e, evidentemente, do menor grau de perigo.

Seja como for, com incendiários ou com extraterrestres, eu defendo que não há tempo a perder. É preciso pegar no Mega Ferreira, transformá-lo em Mega Fogueira, mandá-lo para a Europa defender este novo projecto nacional e ateá-lo aos quatro ventos de modo a que ele alastre em todas as direcções do planeta. Mas antes que comecem a chegar os aviões carregados com máquinas fotográficas armadas de japoneses urge preparar o povo para este novo desígnio (tão ígneo). É preciso uma palavra de ordem, um slogan que se propague como um rastilho irresistível: DEIXARDER!, DEIXARDER!...

 
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