edição n.º 14 vai para a página do index da edição
um jornal? uma revista?
ensaio [3] josé ferreira borges  

index

editorial

bom porto

cultura

opinião

homenagem

provocações

aventura

património

cad. de viagem 1

cadernos de viagem 2,3

crón. de viagem

perfil

ensaio 1

ensaio 2

ensaio 3

conto

anacrónica 1

anacrónica 2

poesia 1

poesia 2

apartado 51


Colaboradores neste número: Carlos Teixeira, Carvalhinha Rebocho, Dora Sarmento Mota, Duarte Alegre, Elza Garcia, Eugénio Branco, Fernando Gouveia, José Ferreira Borges, Luís C. Teixeira, Manuel Guimarães, Maria Costa, Maria Filomena, Rui Duarte, Rui Ribeiro, Troglodýtes Trogloditikós, Vicente de Sousa e Vítor Nogueira.

«...pouco importa que a liberdade seja um produto metafísico ou teológico a que se é alheio; importa, sim, que nunca se aliene o exercício que dela se fizer.»

Determinismo e Liberdade


Há uma célebre quadra de António Aleixo que exprime de modo fiel o princípio básico explicativo do comportamento humano, na óptica do behaviorismo. Escreve o poeta: «Não sou esperto nem bruto, / nem bem nem mal educado: / sou simplesmente o produto / do meio em que fui criado».1 A ideia de ser simplesmente o produto do meio em que fui criado traduz os ensinamentos da corrente behaviorista, teorizada sobretudo por Watson, para o qual o comportamento e, por conseguinte, a personalidade, é determinado pelo meio, adquirindo a aprendizagem e os múltiplos factores ambientais um papel primordial neste processo.

Com as contribuições teóricas da reflexologia de Pavlov, Watson considera que a Psicologia deverá ser a ciência do comportamento directamente observável, visando torná-la assim objectiva e rigorosa. Para segundo plano é relegada a introspecção, que Wundt privilegiara. É que a correspondência interior de determinada conduta «nunca pode apreender-se de forma a satisfazer as exigências da objectividade científica».2 Levada ao extremo, a corrente behaviorista desenvolve afirmações como esta: «Dêem-me uma dúzia de crianças saudáveis, bem formadas, e um ambiente para criá-las que eu próprio especificarei, e eu garanto que, tomando qualquer uma delas ao acaso, prepará-la-ei para tornar-se qualquer tipo de especialista que eu seleccione — um médico, advogado, artista, comerciante e, sim, até um pedinte e ladrão, independentemente dos seus talentos, pendores, tendências, aptidões, vocações e raça dos seus ancestrais».3

Implicado nestas possibilidades experimentais encontra-se um esquema operatório de acordo com o qual conhecendo o estímulo (ou a situação enquanto conjunto de estímulos) pode prever-se a resposta que ele desencadeará e, conhecendo a resposta, pode identificar-se a situação que a engendrou. Esquematizando: R = f (S), isto é, a resposta (R) é função da situação (S), ou conjunto de estímulos do meio.

Não sendo necessário enunciar aqui as várias críticas a que este esquema explicativo esteve sujeito, é desde logo evidente o reducionismo que o caracteriza. Ignorar os aspectos hereditários e a capacidade livre de reacção às influências sociais é ter das causas da conduta uma visão demasiado unidimensional. Prescindir da interioridade e da complexidade do ser humano e encarar o comportamento tão-só no seu carácter visível e quantificável é catapultar o indivíduo para um inexorável determinismo.

Ao salientarem a importância da interacção entre a personalidade e a situação, Fraisse e Piaget superam a visão de Watson na explicação do comportamento, inscrevendo-o num campo de significações que estão na sua base. Estas constituem, por assim dizer, o mundo de cada um, e são as diferenças entre esses mundos que fazem com que D. Quixote possa ver desaforados gigantes onde o seu escudeiro Sancho apenas vê moinhos de vento. Resultando de um processo complexo, marcado por diversas variáveis (internas e externas), a personalidade constrói-se em interacção com as inúmeras situações, e a forma como estas são interpretadas depende da personalidade. A organização que cada um faz do seu mundo é correlativa do modo como cada um se faz a si mesmo. E aqui deparamos com uma vertente essencial do ser humano, que os behavioristas de certa maneira ignoraram: a liberdade.

Segundo Jean-Paul Sartre, a liberdade revela-se ao ser humano pela angústia, ou seja, «a angústia é o modo de ser da liberdade como consciência de ser».4 Colocado ante a urgência de construir o significado da sua existência, bem como pela inevitabilidade da escolha, no curso temporal das suas alternativas de ser, o homem descobre-se como desprovido de qualquer orientação prévia, no estado que Heidegger designa de derrelicção, isto é, o estar lançado no mundo, sem justificação a priori, e em cujo horizonte de possibilidades se inscreve aquela que é a mais autêntica de todas, a morte, uma vez que, pertencendo a cada momento à esfera do possível, fatalmente se realiza por destruição de tal esfera.

Nesse sentido, o homem é o ser pelo qual os valores existem. É mediante a escolha, intransferível, que cada um constrói e redefine a sua hierarquia de valores, cujo fundamento é a liberdade e «nada, absolutamente nada, justifica que eu adopte este ou aquele valor, esta ou aquela escala de valores».5 Isto significa que, só, injustificável e sem desculpas, «o homem está condenado a ser livre»,6 uma vez que não se criou a ele próprio e é, ao mesmo tempo, responsável pelo que faz, escolhendo-se e escolhendo um ideal de humanidade. Nessa escolha está envolvido todo o seu ser, na sua orientação projectiva para uma essência que nunca será definitiva. O homem ultrapassa-se a si mesmo, e essa ultrapassagem constitui-se, de resto, como um imperativo, que faz dele algo que «só existe para ser superado»,7 ainda que, ou justamente porque, marcado pela aceitação da finitude e da contingência, tornando-se alguém que «deve fazer a sua existência sem ter feito o seu existir».8

Com certeza que toda a liberdade é situada, condicionada e limitada. Os factores sócio-culturais e bio-psicológicos, as opções individuais, as normas sociais e os limites da espécie impõem-se como barreiras a uma inteira expansão do querer. Todavia, «ser livre não é poder fazer o que se quer, mas é querer o que se pode».9 É nesse registo que cada um vive com autenticidade, no compromisso responsável da sua atitude existencial. O que os behavioristas afirmam é aquele determinismo psico-sociológico, que desresponsabiliza o indivíduo, surgindo como fuga à vertigem da liberdade, ao mesmo tempo que é expressão de má-fé. Mas o determinismo tem outros rostos, do átomo ao inconsciente, do gene à influência astral, angélica e numinosa.

Concluindo, é natural que a liberdade, na acepção indicada, seja difícil de suportar. Por conseguinte, sempre o ser humano há-de procurar desculpas, a fim de pacificar a consciência. E só uma auto-análise minimamente isenta porá a nu a má-fé dessa procura. Experienciada como um facto, do qual se deve partir, sem justificações inconsistentes nem pressupostos que nos escapam, pouco importa que a liberdade seja um produto metafísico ou teológico a que se é alheio; importa, sim, que nunca se aliene o exercício que dela se fizer. E apesar de, não havendo nenhuma escala de valores objectivos, serem atitudes paralelas «embebedar-se solitariamente ou conduzir os povos»,10 não é menos certo que assumir a liberdade como fundamento dos valores é (re)colocar o destino do homem nas suas próprias mãos, sob a forma de um percurso que essas mãos vão desenhando para além da natureza e não à maneira das linhas que a natureza nelas desenhou.


Notas:
1 António Aleixo, Este Livro Que Vos Deixo, 7ª ed., Edição de Vitalino Martins Aleixo, 1983, p. 49.
2 William Stern, Psicologia Geral, 2ª ed., Fundação Calouste Gulbenkian, 1981, p. 57.
3 Watson, Psicologia, p. 10, cit. por Teresa Macedo e Manuela Monteiro, em Sapiens-Demens — Psicologia, 3ª ed., Porto Editora, 1990, pp. 24–25.
4 Jean-Paul Sartre, L’Être et le Néant, Librairie Gallimard, 1965, p. 66.
5 Sartre, op. cit., p. 76.
6 Sartre, O Existencialismo É Um Humanismo, Editorial Presença, 1962, p. 194.
7 Nietzsche, Assim Falava Zaratustra, Guimarães Editores, 11ª ed., p. 12.
8 Waelhens, La Philosophie de Martin Heidegger, Publications Universitaires de Louvain, 4e éd., 1955, p. 163.
9 Sartre, A liberdade cartesiana, em Situações I, Publicações Europa-América, 1968, p. 287.
10 Sartre, L’Être et le Néant, p. 721.

 
vai para o topo da página  


jfborges@mail.pt

'Andarilho', símbolo do EITO FORA

 

transmontano sem preconceitos