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apartado 51
Colaboradores neste número:
Carlos Teixeira, Carvalhinha Rebocho, Dora Sarmento Mota, Duarte Alegre, Elza Garcia, Eugénio Branco,
Fernando Gouveia, José Ferreira Borges, Luís C. Teixeira, Manuel Guimarães, Maria Costa, Maria Filomena,
Rui Duarte, Rui Ribeiro, Troglodýtes Trogloditikós, Vicente de Sousa e Vítor Nogueira.
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ilustração de Rui Duarte
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O Adulto e a Arte
Um contributo da Psicologia
No desenvolvimento de um plano de Educação Artística de adultos (ou de uma outra iniciativa que vise uma formação estética e/ou artística), a primeira questão a colocar será a de saber se estes terão capacidades (cognitivas, psicomotoras, etc.) para desenvolver trabalhos artísticos e, consequentemente, apurar o seu sentido estético.
A Psicologia tem revelado conclusões importantes sobre o desenvolvimento humano e em especial sobre o próprio adulto. Admite-se que, apesar de o processo biológico não poder ser evitado, «nem todas as mudanças após a maturidade envolvem decadência ou deterioração».1 Conclui-se mesmo que algumas capacidades mantêm-se ainda durante muito tempo, e outras há que evoluem. «O funcionamento cognitivo continua, geralmente, constante na maior parte dos anos da idade adulta. Entre os vinte e cinco e os sessenta anos as habilidades mentais tendem a permanecer; algumas capacidades podem diminuir mas outras podem melhorar».2 Inclusive alguns estudos demonstram que o desempenho dos adultos mais velhos em muitas áreas da vida se encontra abaixo do seu nível de competência.3 Daqui se conclui que algumas capacidades do adulto ainda não foram (ou não são) exploradas. Há que responder ao desafio de explorar essas capacidades.
Relativamente ao desenvolvimento intelectual do adulto, António Simões postula duas concepções de inteligência: uma de natureza qualitativa e outra de índole quantitativa.4 Relativamente à primeira, uma inteligência do tipo piagetiano (ou seja, aquela que evolui segundo estádios), o autor, tomando como base empírica várias investigações levadas a cabo com adultos, sublinha a «existência de um pensamento pós-formal, hierarquicamente superior ao pensamento formal, cujas características seriam: a abordagem relativista e dialéctica aos problemas e mais dirigida à descoberta de problemas novos que à solução de questões já formuladas».5 Ainda segundo este autor, a adultez caracteriza-se não só pela perda óbvia de algumas capacidades, mas também, e sobretudo, pelos progressos que se dão no domínio cognitivo. O desenvolvimento de aptidões do adulto e a aquisição de outras dependerá, em certa medida, do investimento já feito e da efectiva utilização que o indivíduo fizer das suas competências.6
Quanto ao desenvolvimento de capacidades expressivas, técnicas ou criativas, vários estudos e pesquisas desenvolvidas sobretudo nas últimas décadas, vieram fornecer dados que, por sua vez, levaram à conclusão de que «todo o ser humano é criativo (alguns mais, outros menos, dependendo de inúmeras variáveis) e que os poderes da mente humana, ainda pouco explorada, são, sem sombra de dúvida, ilimitados».7
Embora, por vezes, surjam vozes desvalorizando estas conclusões, a verdade é que o adulto é, em certa medida, capaz de desenvolver trabalhos artísticos com expressividade, técnica e criatividade interessantes, que chegam, por vezes, a surpreender os mais incrédulos.
Considerando a criatividade como algo de próprio, do foro íntimo, que emerge e se materializa, por exemplo, através de um trabalho plástico, poderemos (sem petulância) afirmar que o adulto está à altura de conceber obras artísticas. Mas, para tal, será fundamental afastarmo-nos de todo o “eruditismo” artístico e de todo esse “fundamentalismo” baseado na crença de obrigatória sectorização das artes, e da sua atribuição exclusiva a determinados grupos monopolistas.
No que respeita à produção criadora, Eunice Alencar (com a autoridade científica que muitos anos de estudo lhe conferem) refere-se a três aspectos fundamentais para que aquela se processe: «O primeiro diz respeito à preparação do indivíduo (...) a par da sua dedicação, esforço, envolvimento, trabalho prolongado, persistência, (...). O segundo aspecto fundamental estaria ligado às características do ambiente social, o grau de reconhecimento que se dá ao criador e à criação, à extensão em que a mudança, o novo, o divergente são aceites e valorizados. (...) Finalmente, (...) o uso deliberado de técnicas adequadas, como tempestade de ideias, sinética, listagem de atributos (...) têm efeito altamente positivo no número de ideias criativas expressas por qualquer indivíduo, independentemente de seu grau de criatividade».8
Podemos considerar exactamente estes três aspectos como condições ou requisitos necessários e imprescindíveis ao desenvolvimento do potencial criador.
Para concluir, importará sublinhar dois aspectos fundamentais: o destinatário do projecto de educação/formação artística e os princípios didácticos que o configuram. Será interessante, a este propósito, lembrar Antonia Fernández, a qual refere a etapa da maturidade como um período em que as pessoas «possuem um grande potencial de capacidades para a aprendizagem de novos conceitos e destrezas».9 A autora termina sustentando que cabe aos profissionais de educação adequar todo o trabalho educativo às características próprias do adulto, à cultura e às necessidades reais da população. A favor deste processo jogam, entre outros, «os traços da personalidade adulta que ajudam a manter a motivação intrínseca [tais como]: responsabilidade, urgência, coerência, perseverança, atenção constante...».10
Tratar-se-á, no fundo, de reconhecer no adulto um educando merecedor de atenção e interesse, i. e., um sujeito com capacidades e potencialidades a explorar.
Notas:
1 PERLMUTTER, Marion, HALL, Elizabeth (1992). Adult development and aging. New York: J. Wiley & Sons, p. 14.
2 Cf. PERLMUTTER, Marion, HALL, Elizabeth. Ib., p. 25.
3 Cf. PERLMUTTER, Marion, HALL, Elizabeth. Ib., p. 25.
4 SIMÕES, António (1994). Desenvolvimento intelectual do adulto. In Lima, L. (Ed.). Educação de Adultos. Forum I. Braga: Universidade do Minho, p. 155.
5 Cf. SIMÕES, António. Ib., p. 156.
6 Cf. SIMÕES, António. Ib., p. 159.
7 ALENCAR, Eunice (1991). Como desenvolver o potencial criador. Um guia para a libertação da criatividade em sala de aula. Petrópolis: Vozes, p. 26.
8 Cf. ALENCAR, Eunice. Ib., pp. 26–27.
9 FERNÁNDEZ, Antonia (1997). Una perspectiva psicológica: aprendizaje de personas adultas — enseñanza entre personas adultas. In Martínez, M. (Ed.). Didáctica y educación de personas adultas. Una propuesta para el desarrollo curricular. Málaga: Aljib, p. 196.
10 Cf. FERNÁNDEZ, Antonia. Ib., p. 196.
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