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apartado 51
Colaboradores neste número:
Carlos Teixeira, Carvalhinha Rebocho, Dora Sarmento Mota, Duarte Alegre, Elza Garcia, Eugénio Branco,
Fernando Gouveia, José Ferreira Borges, Luís C. Teixeira, Manuel Guimarães, Maria Costa, Maria Filomena,
Rui Duarte, Rui Ribeiro, Troglodýtes Trogloditikós, Vicente de Sousa e Vítor Nogueira.
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A ecologia
entre a modernidade e a pós-modernidade
O uso das expressões "modernidade" e "pós-modernidade" é frequentemente motivo de polémica, sobretudo tendo em consideração as múltiplas cargas semânticas que tais substantivos adquiriram. Por essa razão, parece-me antes de mais importante sublinhar o sentido em que utilizo estes nomes.
Em primeiro lugar, obviamente a modernidade não coincide com a Idade Moderna, na divisão escolástica que a faz começar com a descoberta da América e terminar com a Revolução Francesa. A modernidade é um espírito, uma postura, um conjunto de valores que perpassa sobretudo as idades Moderna e Contemporânea. Desse conjunto de valores interessam principalmente a este texto (por razões opostas) o ideal de progresso indefinido e o pluralismo.
Por seu turno, a pós-modernidade constitui uma postura crítica face às lógicas de desenvolvimento modernas, às noções de progresso e de superação, ao próprio modo como tem evoluído o pensamento ocidental. O pós-moderno, para usar palavras de Gianni Vattimo, «caracteriza-se não só como novidade em relação ao moderno, mas também como dissolução da categoria do novo (...), mais do que se apresenta como um estádio diverso, mais avançado ou mais atrasado, não importa, da própria história».1
Entre o preto e o branco (e no que se relaciona com a ecologia), há uma zona de cinzentos onde gosto de me posicionar, que passa pelo assumir da crise ambiental a que conduziram alguns ideais da modernidade (a começar pelo ideal de progresso como fim absoluto), sem deixar cair o que de melhor o mundo moderno nos trouxe (a começar pelo pluralismo). O que a partir daqui me interessa tem que ver com o modo como podemos relacionar as preocupações de carácter ecológico de cidadãos conscientes com a herança que o pensamento ocidental transporta desde a Idade Moderna. Dois caminhos ganham forma, neste contexto:
Por um lado, surge a possibilidade de reabilitar o melhor da modernidade, em geral (e a democracia, em particular), acelerando um conjunto de reformas que possa expurgar os múltiplos grãos de areia que entretanto se acomodaram nesta engrenagem, sobretudo porque as exigências e as aspirações que atravessam a vida dos cidadãos dos tempos que correm estão cada vez mais longe das conjunturas históricas que impulsionaram as ideologias tradicionais. Ora, são estas mesmas ideologias que continuam a servir de base, em teoria, à quase totalidade dos partidos políticos. Aprofundar a democracia, aproximando-a dos cidadãos, é nesta matéria a árdua tarefa que se depara. Acelerar o estabelecimento de novos consensos que tenham por base cidadãos cada vez mais esclarecidos e empenhados é, lato sensu, a única via disponível para os que, numa luta que é também contra o tempo, desejam inverter o caminho tomado por essa gigantesca bola de neve a que chamamos crise ambiental, sem renunciarem aos princípios democráticos.
A outra via, para muitos a alternativa, define-se principalmente pela desconfiança nas virtudes práticas do consenso e pela defesa do estabelecimento da inevitável dissensão, ou ruptura radical. Aqueles que a defendem fazem-no não tanto porque rejeitem à partida os princípios democráticos que a modernidade nos legou, mas porque se convenceram de que o tal tempo disponível não é já suficiente para o estabelecimento de um consenso que eficazmente defenda o planeta da crise que o ameaça. Salvar a Terra é mais importante do que salvar a democracia. Convencidas de já não ser possível preservar as duas, as ecologias mais radicais pisam frequentemente o risco que define a fronteira dos processos democráticos.
Esboçados esses dois caminhos, o que quero defender é justamente a possibilidade de aprofundar e acelerar consensos que abranjam a protecção do ambiente, resistindo às tentações em que caíram as ecologias mais radicais. Numa altura em que as sociedades democráticas evidenciam um preocupante desgaste traduzido na apatia dos seus cidadãos perante o governo da coisa pública, em que os eleitores se revêem cada vez menos nos eleitos, em que muitas decisões que interessam às pessoas são tomadas por instituições internacionais situadas fora do alcance de um directo controlo democrático, como o FMI ou o Banco Mundial; numa altura em que, simultaneamente, a crise ambiental que nos afecta assume proporções verdadeiramente ameaçadoras e a defesa do meio ambiente só pode conseguir-se à custa do empenho dos cidadãos; parece-me legítimo admitir uma relação directa entre a defesa do ambiente e o aprofundamento da democracia. O contributo da ecologia para estimular a democracia não deve, nestes termos, ser menosprezado. Democracia e ecologia podem constituir dois aspectos de um processo de defesa comum, até porque, empenhando-se e participando os cidadãos na defesa do ambiente, também se inverte o desinteresse crescente pela coisa pública (ambiente incluído) que vai caracterizando as actuais sociedades democráticas. A maneira como o cidadão anónimo tem vindo, em múltiplos casos, a tomar publicamente posição perante os problemas ambientais que deterioram a sua qualidade de vida parece-me, apesar de tudo, uma esperança.
v.nogueira@periferica.org
Nota:
1 G. Vattimo, O fim da modernidade: niilismo e hermenêutica na cultura pós-moderna (La fine della modernità: nichilismo ed ermeneutica nella cultura post-moderna, 1985), Editorial Presença, Lisboa, 1987, p. 10.
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