Por uma vez, vamos falar a sério.
Já o temos feito. Com o psiquiatra, em dias de crise. Com o confessor, em horas de pânico. Com o
barman, habitualmente. Desta vez vamos fazê-lo com o leitor.
Diz-se por aí que o Eito não dá nas vistas. Consultámos vários
oftalmologistas e verificámos ser esta uma verdade indesmentível: o índice de escoriações
oculares não aumentou.
Mas outras verdades se impõem. O Eito Fora tem patrocinadores. (É verdade! Não estamos
aqui para enganar ninguém.)
A nossa secção financeira (o Carlos) teve recentemente a proposta de um grande investimento:
dois anos de publicidade de página inteira e uma viagem ao Irão para as cúpulas. De início
desconfiámos do destino da viagem — tememos que o investidor fosse um qualquer ayatollah, versão portuga,
a querer ver-se livre de nós. (Há-os!) Mas o homem argumentou com decência acerca da democracia, da
liberdade de expressão, patati, patatá... Levou-nos na conversa.
O tipo queria fazer caridade e viu nas nossas olheiras de whisky as grandes fomes da Somália. Por mais
que disséssemos que era um pecado investir em gente da nossa laia; por mais que lhe provássemos que haviam outros
em lista de espera para publicitar; por mais que lhe confessássemos estarmos meses atrasados na colecta das publicidades
(logo a sua caridade ia ter problemas de timing), o homem não se desfez. Era uma devoção publicitar
no Eito Fora.
No idílio que nos era proposto haviam contrapartidas. “Coisa de somenos para a envergadura do Eito”,
garantiu-nos o benfazejo. O senhor queria uma página do Eito como quem quer uma vela em Fátima. Mas queria mais.
Queria que a SIC soubesse da esmola. Verdade (de novo)! A proposta só teria validade se a SIC fosse informada da pureza
do seu coração!
Pensámos escorraçá-lo para o “Ponto de Encontro”, mas os nossos amigos já
conjugavam o verbo ir: “Irão?” Perante a destreza verbal dos que nos rodeiam, ensaiamos uma espécie de
rendição. Com sinceridade, falamos-lhe do quanto era preciso desafinar-se para que a SIC desse
atenção. Que desafinássemos, disse.
O caso estava bicudo. Porquê a SIC, meu Deus? Se fosse O Independente até nos
esgadanhávamos para que a dádiva saísse naquelas páginas sagradas. Nem mesmo nos
importávamos que o MEC fosse sincero (estamos habituados a depressões). Mas não. O pobre Eito, o
ilegível Eito, que, para mal dos nossos patrocinadores, apenas tinha sido beliscado pel’A Capital, arranhado
pelo 1ª Página, trincado pel’O Comércio do Porto e ameaçado pelo Acontece, via-se
agora na necessidade de seduzir a Rainha do Share. Que macacadas poderíamos fazer para que o Rangel se apercebesse que
o Eito era objecto de beneficência?
Após muitas voltas, encontramos a solução perfeita — na concorrência.
Caros leitores: quando virem o papel usado na casa de banho do Big Brother, não se ofendam.
Cedemos por uma boa causa.