Estamos numa época em que toda a gente questiona, de semblante carregado, a qualidade do ensino. Aos estudantes são atribuídas as maiores inépcias de que há memória. Os pobres alunos têm dificuldades em entrar em qualquer círculo intelectual sem que sejam presenteados com os mais vis epítetos. Tudo porquê? Porque a rapaziada hoje em dia não embarca nos conhecimentos que lhe são impingidos. Não há estudante que não tenha lido “1984” e não esteja avisado sobre as perversidades do totalitarismo no ensino. Daí que a postura do aluno seja hoje a de questionar tudo o que lhe é ensinado (uma atitude filosófica, diga-se).
A História que aprendemos nem sempre revela a verdade dos acontecimentos que nos precederam. Disso se apercebem constantemente os estudantes. E por isso se atrevem, após aturada pesquisa e consulta às fontes (mesmo as mais avoengas!), a desmitificar alguns dos dados que tínhamos por adquiridos.
Os exemplos destas correcções históricas abundam nos testes, exames e provas globais. É nesses verdadeiros tratados sobre a nossa ingenuidade que podemos descobrir por exemplo que o pobre “Lavoisier foi guilhotinado por ter inventado o oxigénio”, ou que “os egípcios antigos desenvolveram a arte funerária para que os mortos pudessem viver melhor”. Noutros campos do conhecimento o exercício revisionista é da mesma pertinência. Sabiam, por exemplo, que “o nervo óptico transmite ideias luminosas ao cérebro”, ou que “o vento é uma imensa quantidade de ar”? É todo um novo mundo que se nos abre por mão da rapaziada estudantil!
Mário J. R. Rodrigues é professor de História e está consciente de que é preciso avisar o mundo da necessidade de se fazer uma revisão dos manuais e das enciclopédias. O professor recolheu numa página na Internet (http://pagina.de/historia-em-disparates) várias destas pérolas de verdadeiro conhecimento que os seus alunos lhe foram fornecendo. O que se segue são amostras de como temos vindo a ser enganados ao longo dos séculos. Prepare-se.
Lição para os políticos: “A democracia grega era uma democracia perfeita porque havia um que mandava em tudo”.
Lição para os artistas modernos: “A arte clássica é uma arte com classe”.
Lição para os autarcas, embora alguns não precisem: “Município é um edifício dos presidentes”.
Lição para nacionalistas: “A Batalha de Aljubarrota foi uma batalha entre a França e a Inglaterra, que demorou bastantes anos, onde houve muitos mas muitos mortos”.
Lição para historiadores, amantes de navegação e astronautas: “As condições naturais que favoreceram o início da expansão portuguesa foram os Ventos de Seul para marte”; as técnicas de navegação utilizadas pelos portugueses nos descobrimentos eram “O leme fixo à polpa”, “As belas triangulares para nadar contra o vento”,
Lição para economistas: “Monopólio comercial era um jogo que os agricultores faziam”.
Lição para os humanistas do governo: “O Homem no Renascimento devia ser livre, dizer a sua opinião sobre o governo”, “Devia aprender a ser homem”.
Lição que fez falta para que o 25 de Abril fosse 100 anos antes: “O ultimato inglês esteve na origem do 28 de Maio”.
Lições para monarcas e republicanos (se fosse com D. Duarte ainda tínhamos monarquia): “Com a morte de D. Carlos, como ele não tinha antedescendentes [sic], Portugal recorreu à implantação da República”, “Com a tentativa de implantação da República D. Carlos declarou o regicídio”.
As lições que o mundo islâmico bem sabe: “As causas da instabilidade política verificada durante a 1ª República foram que a mulher devia ter o direito de votar com o homem, passou a vestir-se de forma diferente, passou a conduzir o automóvel, a andar de bicicleta, a frequentar lugares públicos, a poder ir trabalhar”, “Os sinais visíveis que, a partir dos anos vinte, alertavam para a crise que se aproximava [a Grande Depressão dos anos 30], eram a emancipação da mulher”.
Lição para reformar a ONU: a Sociedade Das Nações teve como objectivo “Promover a criação dos E.U.A.”
Lição para reformar o PCP: “José Estaline lançou o New Deal nos EUA”.
Lição para o ministro Pina Moura: “Características da economia estalinista — Enaltecimento do chefe, obediência cega, castigos pesados, etc.”
Lições para a comemoração dos 55 anos do fim da II Guerra Mundial: “Os países que constituíram o eixo Berlim, Roma, Tóquio, foram a Alemanha, Itália e Chapão (sic)”, ou, numa versão ainda por confirmar “Portugal, França, Inglaterra e Espanha” (lá se vai a teoria da nossa neutralidade).
Factos da guerra (lições para quem divide o mundo em bons e maus): “Winston Churchill foi o responsável pela ocupação e reorganização do Japão”, “Harry Truman invadiu a Polónia”, a mando de Winston Churchill que “ordenou a invasão”, “Dwight Eisenhower fundou o campo de concentração de Auschwitz”, “Winston Churchill comandou a contra-ofensiva soviética”, “José Estaline ordenou o lançamento da bomba atómica de Hiroxima” e o mesmo “José Estaline chefiou o desembarque na Normandia”.
Confuso? Nem por isso, se tivermos em conta que a guerra fria foi uma “guerra sem conhecimento entre os países capitalistas”, embora tenha sido “uma guerra em que morre muita gente, sem piedade, utilizando armas etc.”, uma guerra de “pessoas matando a sangue-frio”.
Quem descortinou todas estas falácias tem certamente os nervos ópticos muito desenvolvidos. Depois disto, o melhor será passarmos a ver as lições do Tonecas com outra atenção.
P.S. Estas pérolas foram recolhidas na área metropolitana do Porto, mas podiam tê-lo sido numa escola perto de si, porque o disparate não tem fronteiras.
P.P.S. Se quiser consultar a página referida neste texto, vá a:
http://pagina.de/historia-em-disparates