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apartado 51


Colaboradores neste número: Carlos Teixeira, Carvalhinha Rebocho, Dora Sarmento Mota, Duarte Alegre, Elza Garcia, Eugénio Branco, Fernando Gouveia, José Ferreira Borges, Luís C. Teixeira, Manuel Guimarães, Maria Costa, Maria Filomena, Rui Duarte, Rui Ribeiro, Troglodýtes Trogloditikós, Vicente de Sousa e Vítor Nogueira.

fotografia de Paulo Araújo
fotografia de Paulo Araújo

Giralua


Um certo dia o inesperado aconteceu. Nasceu-lhe o luar na cabeça!

Nada havia que tanto o fascinasse como o luar. Gostava de ver o sol nascer e a vida despertar ao toque da sua gloriosa chamada; gostava do calor da sesta, que a todos apaziguava, adormecia e retirava do mundo de trabalhos e canseiras — quando só ele permanecia acordado, vendo a terra dolorida arfar serenamente; gostava do pôr-do-sol; dos homens negros de suor e pó, do chiar agudo dos carros com a colheita do dia, regressando a casa — passarinhos em busca da quietação do ninho. De Inverno, gostava de ver o sol brilhar sobre a neve, de saber os homens confiados dormindo no sossego das longas noites. Mas as noites... as noites de luar... tudo envolvido de uma luz etérea. A Lua... alta, redonda, sorridente... de esplendoroso olhar enamorado... A Lua era o seu encanto, a sua vida!

O menino nascera em Agosto. Numa dessas noites estivais de Lua Cheia, com um não-sei-quê de extraordinário brilho que D. Ester, a velha, e de velha sábia, parteira, ao entrar no quarto viu um manto de luz, de uma brancura densa e imaculada, irrompendo pela janela e afectuosamente envolver a parturiente.

Nasceu um rapaz — o primogénito de uma mãe solteira. Para todos mais um pobre coitado que veio para sofrer. Só a velha D. Ester, com a sabedoria de quem conhece os mistérios da vida e está próximo dos da morte, vaticinou:

— Este menino há-de ser a luz dos que andam nas trevas.

Creio que o terá dito no seu íntimo. Quem estava presente, fosse pela azáfama da ocasião, fosse porque efectivamente a velha não o tenha dito, jura não ter ouvido tais palavras. Excepto a mãe, que com elas encheu seu coração.

A verdade é que o menino lá ficou com sua mãe. De cabelo louro e luminoso, magro, alto e branco como um pavio de vela. Dormia num berço tosco de ripas colocado, durante o dia, do lado esquerdo da estreita cama da mãe. Sim, durante o dia. Porque, em certas noites, a mãe acordava para lhe dar o peito e encontrava o berço em locais diferentes. Inicialmente sobressaltou-se, até porque o menino passava essas noites acordado e num recolhido e extremado silêncio. Intrigada e inquieta, a pobre mãe pôs-se a estudar os movimentos do berço. Rápido percebeu que, durante as noites de luar, este se movia de modo a acompanhar a doce luz que penetrava pela janela e que o seu menino ficava, toda a santa noite, num êxtase contemplativo. Na noite que chegou a tal conhecimento, aceitou no mais íntimo do seu coração o mistério. Aproximou-se de seu filho, olhou-o embevecida, tomou-o nos braços fofos e ergueu-o à gloriosa luz. Fez-se luz no seu espírito: o seu filho era como um girassol, só que se movimentava em busca da Lua. Emocionada, balbuciou docemente:

— Meu pequenino Giralua!

A semelhante nome, o menino estremeceu de alegria e desfez-se num sorriso luminoso.


Alguns anos passaram. Giralua — o nome ficou desde essa noite baptismal — foi crescendo, sempre magro, alto e branco. Quando a idade lhe permitiu, nas noites de luar, deixava o berço, aproximava-se da janela, subia a uma cadeira, estrategicamente colocada, e, olhando a Lua, ali ficava toda a noite.

Aos seis anos entrava para a escola primária. Sabia apenas escrever o seu nome, Giralua. Escrevia-o numa letra redondinha com a cabeça loura levemente inclinada, com o rosto iluminado e o olhar de êxtase misterioso. A professora até gostou da criança. Mas embirrou com aquele nome. Não é nome de gente! Nem sequer existe! Queria a toda a força que o menino aprendesse a escrever Serafim dos Santos. Nem as ameaças, nem os castigos, nem as reguadas demoveram a inquebrável vontade de Giralua. Exausta, a professora desistiu e, até ela, trocou o nome de Serafim, de que tanto gostava — vá lá saber-se porquê — por Giralua. Os problemas escolares não estavam, todavia, definitivamente resolvidos. Cedo a professora descobriu que o menino, por vezes, inventava palavras, quer aglutinando dois termos, quer suprimindo sílabas a outras; por exemplo, em vez de brilhar dizia briluar, ou no lugar de luminoso dizia luaminoso ou luamimoso. E, mesmo depois de aprender a ler (única coisa que aprendeu com extraordinária rapidez), trocava palavras, inventava outras, dava sentidos novos às frases, construía textos diferentes e acabava por decorar os textos por ele recriados. Vendo que também não conseguia, por si, resolver mais este problema, a professora chamou à escola a mãe de Giralua. Convencida das boas intenções da senhora professora, esta revelou-lhe a forma misteriosa como o seu filho passava as noites de luar. A professora foi rápida na conclusão — neurastenia de causa lunar — e contundente no veredicto — proibição total de estar em contacto com a Lua e de receber a luz do luar. A mãe ainda quis acrescentar alguns mas... As razões da professora e um trágico prognóstico acabaram por a persuadir.

À noite, Giralua tinha a sua janela totalmente tapada com tábuas de soalho. Tentou despregá-las, aplicou todas as suas débeis forças, mas não conseguiu. Pressentia o luar do lado de fora. Fez nova tentativa. Inglória. Encolheu-se a um canto e aí passou a noite. Essa e todas as noites de luar do lado de fora.

 

fotografia de Paulo Araújo
fotografia de Paulo Araújo

Giralua começou a definhar. Dia e noite. Cada vez mais escanzelado. Então nas noites de luar, enroscado em si, enfiando-se entre as paredes, como que desaparecia. Certa noite, sua mãe teve dificuldade em encontrá-lo; necessitou de percorrer às apalpadas todo o quarto para o descobrir enrodilhado a um canto. Com medo que o filho perecesse ou desaparecesse, a mãe despregou as tábuas. Preferia um filho inventor de palavras e significados, que um quarto escuro e vazio.

À saudosa luz do luar, Giralua renasceu.

O magro Giralua, maternalmente liberto, aventurou-se, tempos depois, a sair do quarto. O naco de Lua de que se alimentara era-lhe agora quinhão insuficiente. Devo, pois, corrigir-me: não foi por mero e infantil fascínio de aventura que Giralua saiu mais suave que os murmúrios da noite. Foi a urgência de satisfazer a mais funda necessidade humana.

Saiu. Abriu os braços e o peito. Embebedou-se de luar. Estendeu os olhos ao Pico da Luz, o ponto mais alto da serra. Maquinalmente, lançou pés ao caminho, lento mas seguro. Atravessou a aldeia. Para além das últimas casas eram as Lameiras da Candeira. Depois começava a encosta, a subida lenta. Para lá do Passadouro era quase a pique. Foi preciso escalar os derradeiros penhascos.

— Cansado, mas cheguei!

No cimo, prodígio da natureza, havia um vetusto carvalho. Não era alto. Mas sempre é estar mais perto! Subiu, por isso, ao carvalho. Acomodou-se entre duas finas galhas, perto do cimo da árvore. Conseguiu sentar-se comodamente, virado para a luminosa lua. A início, bebeu-a com olhos extasiados. Depois baixou-os momentaneamente para o vale da incompreensão e fechou-os. Solenemente, inclinou a cabeça e ficou sentindo o doce beijo lunar penetrá-lo. Assim esteve longas horas naquela noite, e em todas as noites de luar que se seguiram. Saía sempre pela porta, ao nascer do luar, e entrava, com o último lampejo, pela janela.

Os homens que saíam à noite para tralhar a água nos lameiros, ou para outras actividades não menos proveitosas, notaram aquela figura semi-sonâmbula que ao perfil da noite se enguiezava e que por eles passava sem os notar, sem o menor gesto, deixando-os petrificados. Além do mais, dada a posição em que permanecia durante longas horas, Giralua estava-se tornando corcovado e, caso mais estranho, calvo.

Os habitantes de Vale Trevoso começaram a inquietar-se com tal comportamento. Desataram-se histórias de encantamento, de lobisomens, de dança de bruxas nas encruzilhadas. Toda a espécie de fenómenos diabólicos de que há memória em lendas e tradições da meia-noite, em noites de Lua Cheia.

Um certo dia, inesperadamente, Giralua, completamente calvo, adoeceu. Ao fim da tarde começou a sentir a cabeça leve. Sentia-a latejar, ou, segundo ele, luajar. A mãe apenas se apercebeu de um brilho mais intenso aureolando-lhe a cabeça branca de neve. O menino não tinha febre. A terna mãe fez-lhe um chá e deitou-o amorosamente. A noite caiu tenebrosa. Do lado nascente devia aparecer o Quarto Crescente. Mas não apareceu em toda a noite, embora esta estivesse limpa de nuvens.

Há nove dias, está Giralua acamado. Durante nove dias, os homens esperaram em vão. Há nove dias, a Lua não aparece no céu deserto de Vale Trevoso. Durante nove dias, a inquietação foi crescendo entre os habitantes da aldeia. Nesta noite do décimo segundo dia do mês de Dezembro, deve dar-se o plenilúnio. D. Ester, a parteira, percebe que tinha chegado a Hora. Cobre um xaile quente, e dirigi-se a casa de Giralua. A velha parteira entra no quarto, pega no menino ao colo, cobre-o com o xaile e sai para a noite densa, em direcção ao Pico da Luz.

A anciã, frágil e cansada, vai subindo lentamente, sustendo nos braços o débil e emérito menino, que já uma vez ajudara a nascer. Mantendo quente contra si o corpo de Giralua, chega finalmente ao Pico. Ajuda a criança a subir ao carvalho e a sentar-se no sítio costumado. Senta-se encostada ao pé da árvore e, crente, espera.

Pelas três horas, a cabeça de Giralua começa a luarizar. Uma leve e curva linha de luar a nascer surge, vai engrossando, engrossando e, em pouco tempo, a cabeça do menino é Lua Cheia enchendo de luz Vale Trevoso. A velha desce guiada pela nova luz, louvando a Deus porque se havia cumprido a Hora. O luar que acabara de nascer na cabeça de Giralua toma todo o corpo encurvado. O Menino-Lua levemente se desprende da árvore, em júbilo sobe ao alto céu, com generosidade ilumina o mundo e segue o seu eterno caminho.

 
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