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apartado 51
Colaboradores neste número:
Carlos Teixeira, Carvalhinha Rebocho, Dora Sarmento Mota, Duarte Alegre, Elza Garcia, Eugénio Branco,
Fernando Gouveia, José Ferreira Borges, Luís C. Teixeira, Manuel Guimarães, Maria Costa, Maria Filomena,
Rui Duarte, Rui Ribeiro, Troglodýtes Trogloditikós, Vicente de Sousa e Vítor Nogueira.
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«Qual Invencível Hulk, qual Super-Homem sem criptonite,
o transmontano rasga as vestes da aculturação quando as circunstâncias apelam ao grito — sempre nativo — da
indignação.»
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O transmontano aculturado
(a propósito do tema de capa do último Eito Fora)
O transmontano aculturado não se distingue, à vista grossa, dos demais cidadãos que galgam as ruas das metrópoles do litoral. Respira o mesmo smog, pára nas mesmas montras, pragueja contra os mesmos fiscais de trânsito, conversa sobre o mesmo estado do tempo. De uma perspectiva exterior, o transmontano aculturado está efectivamente aculturado.
Mas o transmontano é sempre transmontano, por muito alcatrão de A4 e IP4 que exista entre si e a sua leira natal. Porque o transmontano não se mede pela vista grossa com que se observa o cidadão comum — fareja-se pelos sinais interiores de apego às origens.
Mesmo assim, a sua aculturação é tão bem encenada, tão bem disfarçada que é preciso estudá-lo durante longos meses para se vislumbrar a identidade que o verniz urbano e o cheiro à maresia com petróleo cobriu. E é preciso, sobretudo, enfurecer o transmontano. O transmontano enfurecido é o mesmo no Porto ou para lá do Marão.
Qual Invencível Hulk, qual Super-Homem sem criptonite, o transmontano rasga as vestes da aculturação quando as circunstâncias apelam ao grito — sempre nativo — da indignação. E a alma sai-lhe aos chorrilhos da boca, em insultos que caem na incompreensão do visado, mas que soam ameaçadores, potentes, cavernosos, cósmicos. Em suma, transmontanos.
O feio não é feio, não é careca, não é rapado, nem é fricalhaço: é “nabuco”. O gordo não é gordo, não é batoque, não é pipo, nem é monte de banhas: é “tego”. O lorpa não é lorpa, nem é lento, nem é morcão, nem é pastelão: é “mocotó”, “burgesso”, “matarroano”. E por aí fora, até a turba de palavras com ressonâncias de eco montanhoso se esgotar na boca lupina do filho das serranias. O transmontano enfurecido cresce de repente aos nossos olhos. Colossal.
Mas não só. É preciso conhecer o transmontano aculturado no aconchego do seu lar. Não há casa de transmontano sem fumeiro. Mesmo que esteja a fazer dieta para o fígado, mesmo que a barriga mostre a prosperidade migrante, o conceito de despensa não dispensa o fumeiro. Parece mal, é socialmente incorrecto — nem que a sociedade a que foi buscar o hábito more a 300 quilómetros — não ter fumeiro em casa. Imperdoável. Uma falha de etiqueta. Um vazio na casa.
Porque o transmontano aculturado é um perdigueiro de signos da terra chã, tojosa e virgem de impurezas e transversão de valores. E é com eles que adorna os cantos do ninho, mesmo que o tenha construído em torres de andares, em urbanizações de betão, em condomínios fechados sem janelas para a vastidão pedregosa. O transmontano cria assim o seu templo às raízes, o seu solo sagrado em pleno território estrangeiro.
Em cenários de debate, públicos ou privados, também é fácil encontrar o transmontano: é aquele que tem sempre razão. É, pelo menos aquele que pensa que tem sempre razão. O transmontano aculturado é casmurro, desconfia, impõe-se, teima. Tem um quê de feminino, neste ponto: quando a argumentação esmorece, dá a volta e orienta o discurso para o norte magnético da sua razão. Em desespero de causa, recorre à esgrima do exemplo: “Em Trás-os-Montes, ...” |
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