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Colaboradores neste número: Carlos Teixeira, Carvalhinha Rebocho, Dora Sarmento Mota, Duarte Alegre, Elza Garcia, Eugénio Branco, Fernando Gouveia, José Ferreira Borges, Luís C. Teixeira, Manuel Guimarães, Maria Costa, Maria Filomena, Rui Duarte, Rui Ribeiro, Troglodýtes Trogloditikós, Vicente de Sousa e Vítor Nogueira.

Em Marraqueche
Em Marraqueche

letras árabes

Colocar Vilarelho no Atlas
(diário de um montanhista)


Dia 16/04/2000 (domingo)

Saímos, os quatro, numa manhã chuvosa em direcção ao sul. De Portugal. O Jorge Machado, o Zé Maria, o Alberto Machado e eu, éramos os componentes desta equipa.

Até à fronteira de Vila Verde de Ficalho, Alentejo fora, houve uma introdução à política agrária nacional (culturas ervenses, vacas aleitantes, ovinos, caprinos e afins), de especial uso para o Zé Maria que pouco sabia desse assunto e dos subsídios agrários. Na travessia de Espanha o Zé pôde aperceber-se que, pelas terras de “nuestros hermanos”, os subsídios abundam... Em Algeciras adquirimos os bilhetes do barco que nos levaria, a nós e à carrinha, para o continente africano.

Em Ceuta enchemos o depósito e dirigimo-nos para a fronteira de Marrocos. Aí deparamo-nos com um marroquino que nos indicou onde cambiar dinheiro. O mesmo sujeito, mais tarde, quis vender-nos os boletins de entrada (que eram de graça) e algumas substâncias menos próprias para um grupo de montanhistas como o nosso. Expedientes marroquinos...

Na fronteira reinava a anarquia. A confusão burocrática era enorme. Depois de vários “preliminares”, fomos informados que o seguro da carrinha não era válido para este país. Grande confusão. Despendido algum tempo (e dinheiro), lá entrámos em Marrocos.

 

Com as mulas já carregadas
Com as mulas já carregadas


Dia 17/04/2000 (segunda-feira)

A jornada continuou por estradas marroquinas. À entrada da auto-estrada surge-nos um taxista fora de mão. Grande espanto e grande susto, mesmo que nos tivessem avisados que por terras africanas tudo poderia acontecer.

Nas proximidades de Rabat, nas vias periféricas desta cidade, onde os limites de velocidade variavam entre 20, 40 e 60 km/hora, fomos mandados parar por dois polícias. Perguntou-nos, um deles, se não tínhamos excedido os limites de velocidade. Que não, disse o Beto. O polícia insistiu e perguntou se a seis quilómetros atrás tínhamos ou não excedido a velocidade permitida. De novo negámos, vínhamos a respeitar os limites. O homem não se desfez e, manifestando intenção de nos autuar, perguntou se queríamos recibo. Entreolhamo-nos com grande espanto. Ninguém percebia nada do que se passava. O outro polícia perguntou se trazíamos muito ou pouco dinheiro. Cheirando-nos a esturro, procurámos convencê-los que éramos uns tesos. «Si vous n’avez pas beaucoup d’argent, vous pouvez partir.» Lá fomos.

Chegámos à grande babilónia que é Marraqueche. Nesta cidade o trânsito é absolutamente anárquico. Eu ia a conduzir e tinha que olhar freneticamente para todos os espelhos. A confusão era feita de bicicletas, carroças, motas, carros e pessoas desorientadas. O movimento sem sentido parecia gerado por um grande pânico que se tivesse apoderado da cidade. A verdade é que nos divertíamos com tudo isto.

Depois de uma pequena confusão com as estradas, saímos de Marraqueche e encontrámos a nossa trajectória com o Atlas no horizonte. A estrada era agora de terra batida durante algum tempo.

Chegámos a Imelil, por volta das 11 horas, não tendo dormido nada nestes dias de viagem. Tivemos que pagar 30 dirames para estacionar a carrinha. Decidimos alugar duas mulas até ao refugio de Nelter. As mulas custavam 200 dirames, 40 no início e 160 no final.

A marcha para o refúgio de Nelter foi bastante penosa, mesmo com as mulas a transportar parte do equipamento. Finalmente pudemos descansar. Às 18:30h estávamos os quatro dentro da tenda Alaska a dormir que nem uns lordes.


Dia 18/04/2000 (terça-feira)

Eu e o Zé Maria madrugámos, mas os outros dois preguiçaram até por volta das 10:30 horas. Este dia era para descansar e para aclimatização.

Quando descansávamos em cima de uma pedra, apareceu-nos o João Garcia, o português que perdeu os dedos no Evereste. Ele estava com um grupo que iam tentar a subida ao ponto mais alto de Marrocos. Para um amante da montanha é um acaso interessante encontrar alguém com o percurso do João, e ainda mais sendo português.

Este dia foi de uma pacatez extrema. Pouco havia para fazer a não ser descansar, comer e ver outros montanhistas a subir ao JBEL TOUBKAL (4.167m), o nosso objectivo. À noite, quando já tudo dormia, acordo com o Zé Maria a sonhar em francês. Pergunto-me que negócios escuros estaria a realizar com os marroquinos. No meio de sonhos atribulados, resolve acordar-nos a todos às 23:30h para nos prepararmos para a ascensão. Pensámos, em gozo, se ele não estaria a delirar com o mal de montanha...

 

No cimo do Jbel Toubkal
No cimo do Jbel Toubkal


Dia 19/04/2000 (quarta-feira)

A alvorada foi às cinco da manhã. Saímos do acampamento no refúgio de Nelter às seis em direcção ao cimo do JBEL TOUBKAL. À mesma hora saiu o João Garcia com um cliente. Depois de uma ascensão em solo nevado, cheia de dureza física, chegamos às dez e quarenta ao cimo.

Não se pode dizer que tinha sido um feito heróico. Para nós montanhistas alcançar o objectivo é apenas parte de todo o prazer que a montanha nos proporciona. O esforço físico, a confraternização com os companheiros, a relação física com a montanha, a paisagem, tudo isto são partes do todo que é ser montanhista. Ainda assim, a ascensão ao JBEL TOUBKAL foi uma conquista pessoal e colectiva, que colmatamos desfraldando a bandeira do Grupo Desportivo e Cultural de Vilarelho.

Estivemos cerca de 45 minutos no cimo do Atlas, a 4.167 metros. Permanecemos este tempo à espera do João Garcia e do companheiro para tirarmos uma foto em conjunto, mas ele nunca mais chegava. Regressámos.

As mulas só chegariam no dia seguinte, pelas 10 horas, para iniciarmos o regresso, por isso tínhamos muito tempo para descansar. Depois de jantar convidei o João Garcia para um chá.

Nessa noite dormimos o sono dos “Conquistadores do Inútil”, como fomos catalogados no passado nós os montanhistas. Dormimos satisfeitos, mesmo sabendo que ainda tínhamos muito para andar. O desafio não é só a subida...


Dia 20/04/2000 (quinta-feira)

Na descida para Imelil, no trajecto de Nelter-Chamharouch, encontramos um grupo de portugueses meus conhecidos, o que comprova que os portugueses estão em todo o lado.

Durante o percurso cruzamo-nos com imensos grupos de jovens a subir. Eu e o Jorge resolvemos experimentar andar de mula. O dono das mulas, um rapaz chamado Ibrahim, ria-se como um perdido e as pessoas por quem passávamos não disfarçavam o gozo que a nossa figura lhes proporcionava, já que eu entendera ser mais confortável ir sentado ao contrário...

Chegados a Imelil fomos profusamente abalroados por marroquinos a quererem vender-nos toda a espécie de produtos tradicionais. Grande confusão.

Depois de colocarmos as mochilas na carrinha, fomos novamente abordados pelo dono do estacionamento para pagarmos as noites que a carrinha tinha passado ali. Procurámos explicar-lhe que já tínhamos pago na segunda-feira. Depois de muito esforço, o velhote cedeu. Venceu a minha imbatível capacidade de diálogo em francês... Depois de nos livrarmos de todos os negociantes, lá saímos de Imelil em direcção a Marraqueche.

Durante este trajecto banhámo-nos num pequeno canal junto à estrada. O Beto e o Zé Maria, sedentos e acalorados, já não queriam sair dali. A dado momento demos conta que a água tinha pequenos bichos. Ameacei-os dizendo que eram sanguessugas. Não me parece que tenham acreditado, mas lá prosseguimos caminho.

Em Asui parámos para ver um desfile de cavalos. Imediatamente apareceram os vendedores. Neste caso, vendedoras. Do seu corpo. 100 dirames...

Em Marraqueche cedemos, finalmente, à tentação de comprar coisas. Depois de andarmos perdidos pelas ruelas, fomos para à confusão duma grande praça. Entrámos na Medina para comprar recordações.

Aqui vende-se tudo. Desde água a produtos tradicionais. Drogas e pequenos espectáculos de entretenimento. Danças, cobras. Um sem numero de negócios. O espectáculo do regateio é a base de qualquer negócio. Para o turista, como nós, é um divertimento, mas para eles é a sua forma vida. Esta cidade é um verdadeiro mostruário da cultura marroquina.

Com esta componente cultural pensávamos ter completado a aventura. Mas a actividade nacional marroquina perseguiu-nos até Ceuta. Quando estávamos na fila com a carrinha à espera do barco, o Beto teve que fazer mais um negócio: três t-shirts por um bombo...

Como conclusão registo que o sentido de colectividade e a união entre os montanhistas foram conseguidos na sua plenitude nesta actividade. Assim são os montanhistas. Unem forças para o grupo conseguir. Não lutam individualmente para alcançar os objectivos.

 
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'Andarilho', símbolo do EITO FORA

 

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