Dia 19/04/2000 (quarta-feira)
A alvorada foi às cinco da manhã. Saímos do acampamento no refúgio de Nelter às seis em direcção ao cimo do JBEL TOUBKAL. À mesma hora saiu o João Garcia com um cliente. Depois de uma ascensão em solo nevado, cheia de dureza física, chegamos às dez e quarenta ao cimo.
Não se pode dizer que tinha sido um feito heróico. Para nós montanhistas alcançar o objectivo é apenas parte de todo o prazer que a montanha nos proporciona. O esforço físico, a confraternização com os companheiros, a relação física com a montanha, a paisagem, tudo isto são partes do todo que é ser montanhista. Ainda assim, a ascensão ao JBEL TOUBKAL foi uma conquista pessoal e colectiva, que colmatamos desfraldando a bandeira do Grupo Desportivo e Cultural de Vilarelho.
Estivemos cerca de 45 minutos no cimo do Atlas, a 4.167 metros. Permanecemos este tempo à espera do João Garcia e do companheiro para tirarmos uma foto em conjunto, mas ele nunca mais chegava. Regressámos.
As mulas só chegariam no dia seguinte, pelas 10 horas, para iniciarmos o regresso, por isso tínhamos muito tempo para descansar. Depois de jantar convidei o João Garcia para um chá.
Nessa noite dormimos o sono dos “Conquistadores do Inútil”, como fomos catalogados no passado nós os montanhistas. Dormimos satisfeitos, mesmo sabendo que ainda tínhamos muito para andar. O desafio não é só a subida...
Dia 20/04/2000 (quinta-feira)
Na descida para Imelil, no trajecto de Nelter-Chamharouch, encontramos um grupo de portugueses meus conhecidos, o que comprova que os portugueses estão em todo o lado.
Durante o percurso cruzamo-nos com imensos grupos de jovens a subir. Eu e o Jorge resolvemos experimentar andar de mula. O dono das mulas, um rapaz chamado Ibrahim, ria-se como um perdido e as pessoas por quem passávamos não disfarçavam o gozo que a nossa figura lhes proporcionava, já que eu entendera ser mais confortável ir sentado ao contrário...
Chegados a Imelil fomos profusamente abalroados por marroquinos a quererem vender-nos toda a espécie de produtos tradicionais. Grande confusão.
Depois de colocarmos as mochilas na carrinha, fomos novamente abordados pelo dono do estacionamento para pagarmos as noites que a carrinha tinha passado ali. Procurámos explicar-lhe que já tínhamos pago na segunda-feira. Depois de muito esforço, o velhote cedeu. Venceu a minha imbatível capacidade de diálogo em francês... Depois de nos livrarmos de todos os negociantes, lá saímos de Imelil em direcção a Marraqueche.
Durante este trajecto banhámo-nos num pequeno canal junto à estrada. O Beto e o Zé Maria, sedentos e acalorados, já não queriam sair dali. A dado momento demos conta que a água tinha pequenos bichos. Ameacei-os dizendo que eram sanguessugas. Não me parece que tenham acreditado, mas lá prosseguimos caminho.
Em Asui parámos para ver um desfile de cavalos. Imediatamente apareceram os vendedores. Neste caso, vendedoras. Do seu corpo. 100 dirames...
Em Marraqueche cedemos, finalmente, à tentação de comprar coisas. Depois de andarmos perdidos pelas ruelas, fomos para à confusão duma grande praça. Entrámos na Medina para comprar recordações.
Aqui vende-se tudo. Desde água a produtos tradicionais. Drogas e pequenos espectáculos de entretenimento. Danças, cobras. Um sem numero de negócios. O espectáculo do regateio é a base de qualquer negócio. Para o turista, como nós, é um divertimento, mas para eles é a sua forma vida. Esta cidade é um verdadeiro mostruário da cultura marroquina.
Com esta componente cultural pensávamos ter completado a aventura. Mas a actividade nacional marroquina perseguiu-nos até Ceuta. Quando estávamos na fila com a carrinha à espera do barco, o Beto teve que fazer mais um negócio: três t-shirts por um bombo...
Como conclusão registo que o sentido de colectividade e a união entre os montanhistas foram conseguidos na sua plenitude nesta actividade. Assim são os montanhistas. Unem forças para o grupo conseguir. Não lutam individualmente para alcançar os objectivos.