no início era o zumbido...
zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz
naquela casa, a existência fluía em suave éden e o pântano aguardava.
soubera-se do big brother porque alguém lhe vira o olho, mas na ágora portuguesa o convívio era o dogma.
alguém tangia como cítara a guitarra de pechisbeque. esfregando os dentes, a loura diva entoava o pimba ao ritmo de incontida flatulência. pum pum trac trac pum
os voos rasantes já irritavam as meninas, mas estas disfarçavam a animosidade massajando os ombros hercúleos do parceiro. orgásticos, eles brandiam alva dentadura trajando íntimas vestes femininas. lingerie em moda, que naquela casa nada entra, excepto sponsors autorizados.
o insecto, faminto, hesitava. via-lhes o sangue palpitar e não lhe caíam bem aqueles falsos pudores. oh, pudera mais a libido que a pudicícia e o sangue jorraria!... enquanto assim pensava aliviava a alma, desolada, zumbindo em crescendo
zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz
o insecto, não sendo mosca, tinha, ainda assim, a capacidade de observar em simultâneo cada lugar esconso daquele antro. e sentia, tanto quanto o seu insipiente sistema nervoso lhe permitia, o pântano avançar. notou que lhe fora concedido ver claramente quão húmidos e lascivos podem ser os sonhos no mais denso breu.
dada a inexistência de horizonte naquelas janelas, a aurora não mais trazia sob o seu manto que os últimos odores da noite de folia — acumulados na peúga do lado. a tensão do divertimento fazia-se notar, havia já quem sangrasse das gengivas.
o zumbido tornou-se extravagante, desagrilhoado.
zzzzzzzzeeeeheeehláááá!!!zzzzuuuummmmm...iiiiiihhlálaááá!!!...
na casa, o assunto elevava-se. não era intenção da rapariga que o coito fosse interrompido, mas o calendário impôs-se-lhe e os espasmos cessaram antes de terem começado. no entanto, houve penetração, porque o voraz insecto submeteu a razão ao ferrão. e o pobre humano, que tinha sido despeitado e se... lastimava, acusou a picadela soltando grandes ais.
e o insecto zumbia, já com prazer.
zzzzzzzAAAAHHH!!!!ZZZZZZZZZAAAAAAAAAHHHH!!!!!!
não havia lugar na casa onde a melga, o grande insecto voyeurista, não zumbisse inquisidora.
na ausência de repelente, os humanos disputavam com selvajaria o único lugar onde o diálogo era a arma: o confessionário. ali o grande oráculo meneava a longa cabeleira dourada ao sabor de não se sabe que ventos.
o oráculo sorria feliz. a melga zumbiu-lhe entre dentes num olhar breve e raiado: zzzzzrrrrr
viu os humanos estrebuchar no pântano imundo. via-os deslizar pelas paredes e tombar ruidosamente no charco de fezes. armou o ferrão de um rol de pragas e esteve tentada...
entediada, agarrou o comando... fez zapping.
Zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzap