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anacrónica [2] rui ângelo araújo e carlos chaves  

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apartado 51


Colaboradores neste número: Carlos Teixeira, Carvalhinha Rebocho, Dora Sarmento Mota, Duarte Alegre, Elza Garcia, Eugénio Branco, Fernando Gouveia, José Ferreira Borges, Luís C. Teixeira, Manuel Guimarães, Maria Costa, Maria Filomena, Rui Duarte, Rui Ribeiro, Troglodýtes Trogloditikós, Vicente de Sousa e Vítor Nogueira.

ilustração de Vicente de Sousa
ilustração de Vicente de Sousa

A Grande Melga
(cenas de uma casa portuguesa)


no início era o zumbido...

zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz


naquela casa, a existência fluía em suave éden e o pântano aguardava.

soubera-se do big brother porque alguém lhe vira o olho, mas na ágora portuguesa o convívio era o dogma.

alguém tangia como cítara a guitarra de pechisbeque. esfregando os dentes, a loura diva entoava o pimba ao ritmo de incontida flatulência. pum pum trac trac pum


os voos rasantes já irritavam as meninas, mas estas disfarçavam a animosidade massajando os ombros hercúleos do parceiro. orgásticos, eles brandiam alva dentadura trajando íntimas vestes femininas. lingerie em moda, que naquela casa nada entra, excepto sponsors autorizados.


o insecto, faminto, hesitava. via-lhes o sangue palpitar e não lhe caíam bem aqueles falsos pudores. oh, pudera mais a libido que a pudicícia e o sangue jorraria!... enquanto assim pensava aliviava a alma, desolada, zumbindo em crescendo

zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz


o insecto, não sendo mosca, tinha, ainda assim, a capacidade de observar em simultâneo cada lugar esconso daquele antro. e sentia, tanto quanto o seu insipiente sistema nervoso lhe permitia, o pântano avançar. notou que lhe fora concedido ver claramente quão húmidos e lascivos podem ser os sonhos no mais denso breu.


dada a inexistência de horizonte naquelas janelas, a aurora não mais trazia sob o seu manto que os últimos odores da noite de folia — acumulados na peúga do lado. a tensão do divertimento fazia-se notar, havia já quem sangrasse das gengivas.


o zumbido tornou-se extravagante, desagrilhoado.

zzzzzzzzeeeeheeehláááá!!!zzzzuuuummmmm...iiiiiihhlálaááá!!!...


na casa, o assunto elevava-se. não era intenção da rapariga que o coito fosse interrompido, mas o calendário impôs-se-lhe e os espasmos cessaram antes de terem começado. no entanto, houve penetração, porque o voraz insecto submeteu a razão ao ferrão. e o pobre humano, que tinha sido despeitado e se... lastimava, acusou a picadela soltando grandes ais.


e o insecto zumbia, já com prazer.

zzzzzzzAAAAHHH!!!!ZZZZZZZZZAAAAAAAAAHHHH!!!!!!


não havia lugar na casa onde a melga, o grande insecto voyeurista, não zumbisse inquisidora.


na ausência de repelente, os humanos disputavam com selvajaria o único lugar onde o diálogo era a arma: o confessionário. ali o grande oráculo meneava a longa cabeleira dourada ao sabor de não se sabe que ventos.


o oráculo sorria feliz. a melga zumbiu-lhe entre dentes num olhar breve e raiado: zzzzzrrrrr

viu os humanos estrebuchar no pântano imundo. via-os deslizar pelas paredes e tombar ruidosamente no charco de fezes. armou o ferrão de um rol de pragas e esteve tentada...


entediada, agarrou o comando... fez zapping.

Zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzap

 
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'Andarilho', símbolo do EITO FORA

 

transmontano sem preconceitos