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edição n.º 13 crónica de viagem carlos chaves  

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Colaboradores neste número: Agapito Laranjeira, Anabela Ribeiro, Clara Monteiro, Eugénio Branco, Fernando Gouveia, João Brito, João Estrócio, José Carlos Barros, José F. de Resendes Carreiro, Luís C. Teixeira, Luísa Costa, Manuel Guimarães, Maria Filomena, Paula Pestana, Paula Vieira, Rui Duarte, Rui Ribeiro, Vítor Lamas, Vítor Nogueira.

apanha dos albericoques
apanha dos albericoques

Na apanha dos albericoques


Pliego é uma pequena vila próxima de Murcia, no Sul de Espanha. O clima quente e seco dessa região, para além de muitas outras coisas, é propício ao cultivo de tomates, limões, uvas, e... albericoques, que é o nome dado aos alperces naquelas paragens. Foi para a “apanha” destes últimos que eu e mais treze pessoas fomos viver cerca de vinte dias para Pliego. Com a intenção de que nos fosse proporcionada uma estadia confortável (ou para estimular o nosso trabalho), foi-nos disponibilizada uma vivenda de turismo rural onde nem mesmo uma boa piscina nos faltava. Para que quase nos convencêssemos que estávamos numa colónia de férias e não num campo de trabalho, deram-nos ainda como complemento um carro semi-novo.

A juntar ao cenário quase idílico que nos reservaram, haveríamos de descobrir o bom ambiente nocturno em Pliego e Mula (que embora o nome possa sugerir outro significado é uma cidade pequena e bonita apenas a cinco quilómetros de distância) e as praias de Maçarron, Cartagena e La Manga del Mar Menor, de que só desfrutamos graças ao carro que nos estava entregue. (Estas mordomias estavam-me especialmente reservadas já que eu tinha sido eleito chefe de equipa, o que também me afastava das tarefas mais ingratas. «Tu no trabajas», ordenava-me o patrão perante a minha desolação...)

Depois de tanto manusear a fruta, o grupo entretinha-se a disputar a simpatia das guapas plieguenses nas noites quentes da “campanha do pêssego”.

Nos primeiros dias, enquanto fazíamos a adaptação ao calor tórrido da região, fui-me apercebendo da disparidade de personalidades que comigo peregrinaram a este destino “turístico”. Uma parte significativa dos trabalhadores nunca se conhecera antes. Para além das diferenças de idades, havia amostras sociais para vários gostos: agricultores e cadastrados, ex-professores e pessoas que assinavam de cruz... Tais diferenças levavam a que o convívio (que às vezes era quase explosivo) de quando em quando produzisse episódios divertidos. Como um de que resultou uma frase repetida até a exaustão, mesmo depois do regresso, e me parece digno de memória. Era hora do almoço e cada grupo se apressava a escolher a melhor sombra debaixo dos albericoqueiros de modo a esquivar-se ao sol abrasador. Eu conversava com o Amadeu, ex-professor de electrotecnia, sobre um artigo do El País cujo tema era a visita do Papa e a revelação do terceiro segredo de Fátima. De repente, oiço dizer a dois pessegueiros de distância:

 

apanha dos albericoques
apanha dos albericoques

— O Papa vai à montanha e ninguém o apanha!

E logo alguém, em tom catedrático, corrigiu:

— O Maomé vai à montanha e o Papa ninguém o apanha!

Como se o absurdo não bastasse, um terceiro acrescenta, realmente admirado da velocidade do “Sumo” Pontífice:

— O Papa corre que o leva o diabo!

Eu comecei por não entender o significado de tal conversação, mas a explicação era simples. O Amadeu tinha por hábito cantarolar uma música do Sérgio Godinho - “O elixir da eterna juventude” -, e, como a maior parte do grupo apenas guarda na memória a poesia de Emanuel e outras de igual teor, acharam um piadão à velocidade cósmica do Papa trota-mundos referida naquela canção. Mas a coisa continuou.

— O Papa, quanto mais velho fica, mais corre! - prosseguiu o Ruço (rubio, para os espanhóis) que de Maomé não conhecia a capacidade atlética nem a data de nascimento. Logo, o Alcides, após haver tragado uma rodela de chouriço espanhol e temperado o vozeirão com uns decilitros do “rouge” da região, concluiu:

— Pois é, o Papa corre nas horas do caralho!

E assim se passava o tempo na quinta La Perala onde, por vezes, a lusa improvisação levava a que se tentasse apanhar pêssegos sentado. Mas como nuestros hermanos nem sempre nos entendem, logo acorriam a avisar: «sentao no, sentao no!». Nas terras del Sur ainda não conseguem pronunciar o “d” quando colocado na ultima sílaba, nem o “s” no fim das palavras. Tal defeito de dicção intrigava os meus comparsas, quando se dirigiam às guapas com o pedido (simples mas indispensável) de «duas cervejas» e elas respondiam com um redutor «do cerveza». Alguma ansiedade só acabava quando viam chegar as duas cervejas e não uma como temiam.

Apesar da barreira linguística, viriam a deixar saudades, as raparigas...

 
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