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um jornal? uma revista? |
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edição n.º 13 |
provocações |
TEXTO:
rui araújo
ILUSTRAÇÕES:
paulo araújo |
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index
editorial
provocações
crónica de viagem
estória
património
torre dos coléricos
low profile
entrevista 1
entrevista 2
falar barato
opinião
visão dupla
anacrónicas
ensaio 1
ensaio 2
ensaio 3
poesia 1
poesia 2
1,2,3 caricatura
Colaboradores neste número:
Agapito Laranjeira, Anabela Ribeiro, Clara Monteiro, Eugénio Branco, Fernando Gouveia,
João Brito, João Estrócio, José Carlos Barros, José F. de Resendes Carreiro,
Luís C. Teixeira, Luísa Costa, Manuel Guimarães, Maria Filomena, Paula Pestana, Paula Vieira,
Rui Duarte, Rui Ribeiro, Vítor Lamas, Vítor Nogueira.
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ilustração de Paulo Araújo
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O TRANSMONTANO
Subsídios para um conhecimento aprofundado do dito
OS MITOS
O transmontano é pobre — mas mítico. Dele dizem-se maravilhas. Mas será que todos
sabem do que se fala quando se fala de transmontanos?
A sua estrutura óssea, dizem, é de “antes quebrar do que torcer”. A leitura
deste aforismo deve ser feita à luz da fértil mitologia transmontana. Só assim se alcança o
seu verdadeiro significado e se evitam confusões com outras resistências (ou teimosias) mais terrestres
(ou equestres). Elevando a conversa para o nível do mito, teremos então que “ao transmontano
ninguém o verga”.
Aonde isto se verifica com maior propriedade é no âmbito cultural. Orgulhoso da sua
identidade, o transmontano resiste com ferocidade a qualquer tentativa de aculturação. Se lhe vêm
com hábitos culturais que não os seus — uma ida ao teatro, o respeito pelo código da estrada, a
observação da natureza, a leitura de um livro... -, toma o freio nos dentes e resiste como mula desavinda
ao dono abusador. A coices, evita os malefícios da literatura. À simples menção de
Shakespeare, invoca o soldado Milhões e adopta a táctica do quadrado. Orgulhoso do seu
carácter enrijecido pelo xisto e pelo granito, responde à pungência de um drama com sonoras
gargalhadas. De Lobo Antunes ignora os escritos — mas teme-lhe o nome; tendo-o à vista reage gritando passa
fora!, enquanto se recolhe com o rebanho, numa manobra táctica apreciável. Temendo a influência
da poesia na sua mítica maneira de ser, o transmontano contra-ataca com um bem lavrado molho de quadras
repentinas. A versalhada é a sua piéce de resistance.
(Temendo os excessos de uma cultura demasiado hermética, o transmontano concede, porém,
alguma abertura a outras culturas. Alguma anuência ao francês, por exemplo, insinua-se visivelmente,
não na literatura, mas nos telhados das casas. Não há maison tipicamente transmontana que
não ostente o seu “mirante”, na bela tradição alpina.)
O indomável transmontano tem como lema “água mole em pedra dura tanto bate
até que fura”. Fiel a este princípio como um cão ao dono, o nosso conterrâneo adopta
perante a vida uma forma de luta conhecida como “resistência passiva”. Como as águias que em
tempos por cá andaram, o transmontano usa de uma visão aguda para identificar os problemas que o assolam.
Logo, em nome da tradição, aguarda pacientemente que alguém tome as iniciativas que ele
antevê necessárias...
Tendo de si próprio uma visão mítica, o transmontano assume-se fiel defensor das
tradições. Tradição é, por exemplo, pedir a Deus a sorte grande na lotaria — e
não jogar. Tradição é o mítico comunitarismo desta província, traduzido na
fórmula: “se o vizinho o pode fazer, porque o hei-de fazer eu?“. Irredutível perante os
desafios do futuro, o transmontano tem uma palavra de ordem: cumpra-se a tradição!
O transmontano, se houvesse que compará-lo na pureza da raça, seria com o puro-sangue
lusitano — e na resistência à mudança, com o não menos lusitano jerico. O irredutível,
o indomável, o invergável transmontano é o equivalente terrunho do gaulês
Obélix. A crer no mito, dir-se-ia que em pequeno caiu num caldeirão de... viagra. (É
fodido, o transmontano...) |
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ilustração de Paulo Araújo
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OS CLICHÉS
Vítima de tudo e todos (excepto de si mesmo), o transmontano vive um calvário. Como um
Cristo agonizante, o seu reino não é deste mundo. Onde ele se erige em todo o seu esplendor é no
lugar-comum, no reino do cliché. Atarefado a mitificar-se, o transmontano não tem tempo
para se pensar — define-se pelo que sói dizer-se. Um chavão é o máximo que lhe sai. O discurso
oficial e geral é o estribilho. De um verso só.
“Ninguém tem nada a ensinar ao transmontano“, ouve-se ecoando pelas serranias. Este
adágio é o verdadeiro manifesto da cultura transmontana. Mais um a somar às centenas que fazem
válido o ditado: “P´ra cá do Marão clichés até mais não“.
Não fosse a paisagem, dir-se-ia que Torga se tinha enganado de adjectivo.
Resistente, à leitura, o transmontano não travou conhecimento com a etimologia. Aquilo
que ele louva como as máximas do seu comportamento deveria lamentar como a dimensão da sua
incongruência.
Mestre no lugar-comum, exercita o dom a toda a hora. As palavras, de tão gastas, saem-lhe como
salmos de um qualquer biblion ortodoxo. Perante as adversidades da vida (as 24 horas do dia), apela à
entidade divina com o refrão: “Ó Todo-Poderoso, concede-nos apoios“. Perante a ausência
de chuva, o transmontano brada como um Khaddafi invertido: “não precisamos de água, precisamos de
apoios". Ante o deserto cultural, brame: "não queremos teatro, queremos apoios". Confrontado com urgência
da iniciativa, clama, imperativo: "só com apoios!" A imaginação esgota-se-lhe na tentativa de
descobrir a melhor maneira de soletrar: a-poi-os.
Fiel a esta estranha lógica, o transmontano não tem uma opinião — tem um
slogan. Se se lhe pede um argumento responde com uma lengalenga. A premência de uma ideia confunde-a com
a “emergência de uma panaceia“ (e logo estende a mão à caridade).
Não se estranhe, portanto, que o hino regional seja a ladainha e as carpideiras as musas.
A RELIGIÃO
Como qualquer região do terceiro-mundo, também Trás-os-Montes tem o seu
ópio. O pimba. Mais do que um desígnio regional, o pimba é a religião
oficial. Apostado em manter a sua identidade — mítica — o transmontano mantém uma actividade
frenética cujas nuances visam tão-só a prossecução do ideal religioso que o
define. Vejamos. O indígena, magnanimamente, incentiva o seu clube; tradicionalmente, estima o seu rancho;
habitualmente, vai à festa da aldeia (onde, flatulento, estoura os seus foguetes); rotineiramente, lamenta
a sua sorte; e, religiosamente... contrata o seu conjunto pimba.
Contrários a uma visão laica do Estado, as instituições e os poderes
públicos regionais planeiam as suas agendas culturais “no sentido de promover a cultura da
região“. Por isso contratam para o momento alto da coisa... o Emanuel.
Associações empresariais, comissões de festas, associações de
bairro, câmaras municipais, todos partilham dum mesmo ideal: "pelo pimba nos salvaremos".
Muitas outras facetas haverá que analisar, mas, convenhamos, dissecados os mitos,
dispensados os clichés, ficamos nas mãos com algo indefinido, inodoro, incolor, insosso — o transmontano.
O outro de que se fala, já se sabe, é um mito...
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ruiaaraujo@periferica.org
pabloarau@periferica.org

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transmontano sem
preconceitos |
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