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Colaboradores neste número:
Agapito Laranjeira, Anabela Ribeiro, Clara Monteiro, Eugénio Branco, Fernando Gouveia,
João Brito, João Estrócio, José Carlos Barros, José F. de Resendes Carreiro,
Luís C. Teixeira, Luísa Costa, Manuel Guimarães, Maria Filomena, Paula Pestana, Paula Vieira,
Rui Duarte, Rui Ribeiro, Vítor Lamas, Vítor Nogueira.
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ilustração de Anabela Ribeiro
a falta que me fazem
Os meus amigos são tão poucos e às vezes
um a um quase me esqueço de lhes dizer
a falta que me fazem como quando por
exemplo numa sexta-feira à noite eu entro no café
e a cerveja nem me sabe nem
o caralho.
A alegria é cada vez mais com a passagem
dos anos essa ave rara que só
numa corrida com os
filhos num bosque de bétulas ou
numa tarde de domingo a desenhar com
eles um satélite ou num passeio à noite
na areia molhada da praia nas marés do
equinócio de forma imprevista verdadeiramente
pode visitar-nos.
Mas esta de que falo só com os meus amigos e
é inominável que dizer dessa paz imensa
dessa felicidade quase sem imagens que é
sentarmo-nos à roda de uma
mesa e nem dizermos nada.
Os meus amigos são tão poucos que é quase um
crime separarmo-nos assim deixarmos que às
vezes um número de telefone um círculo vermelho
a marcador no mapa do acp
uma carta sejam o mais que pode trazer às
nossas vidas essa ilusão de pertencer-nos o
mundo todo de não haver uma mulher uma
estrela uma cidade que não sejam
nossas para sempre.
Os meus amigos são tão poucos tão imensos que
às vezes apetece-me deixar o computador ligado
a meio da tarde meter-me no carro pagar
a portagem da auto-estrada permanentemente em
obras de conservação e procurá-los com
a agenda aberta nos seus nomes acordá-los
antes da alba só para lhes dizer
a falta que me fazem.
José Carlos Barros
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Poema a três mãos
Querias que te escrevesse um poema
Sobre malmequeres.
A noite arde e é tarde demais
Ofereço-te uma aria de Bach
Para que te acompanhe a pele da noite.
(Eu queria a noite como quem julga existir.
Aquela noite que esperamos infinitamente...
Sobrou-me o vácuo
De um vento incerto de quem nunca sabe se amanhece).
Existo na vírgula que separa a tua suposta virgindade
Da nossa certa sombra sobre os nenúfares do charco
Em que naufragamos ao amanhecer das coisas violentas,
Como o cristal que nos aquece a direcção do sonho.
Resfoleguemos sobre a verde erva
Que nos acaricia o ego e a sua negação;
Rebolemos enquanto a ceifa se perde na curva
E Caronte navega em nunca vistas enseadas de crédulos
Postos de chofre;
Percorramos o fio do tempo
Que nos transporta até ao ponto sem retorno
Do prazer eterno,
(Onde arde o crepitar dos olhos de uma fé incrível
Das feras que nos povoam o âmago dos lábios e o hiato do ser),
Enquanto esperamos a definitiva confirmação
Da matéria de que é feita a merda bíblica
Que nunca as nossas entranhas ousaram.
De pura fé, portanto, se alimentam os mais ignóbeis cérebros
Que, como edificando o mal dos pastos humanos, se extasiam lubricamente
Da erva escrita nos seios da virgem
Que sonha com músculos de pedra por edificar indefinidamente,
Estátuas de seres incógnitos,
Trémulos num cadenciar de ancas,
Hesitantes no habitar os medos,
Perplexos, trôpegos, eternamente tropeçando
No calhau de gelo mais próximo.
Vítor Lamas, R. A. Araújo, C. Chaves
Viagem
Saio para uma manhã
Vestida de um veludo intemporal e líquido que me toca as veias e invade carne de penas
A minha liquidez afoga este movimento estranho de sentir uma culpa esverdeada que nublosa esmaga e encanta.
A luz que a chuva filtra não afasta o silêncio que te digo, o caminho escorrega-me da mente e agora lavado espelha a ausência de um vazio branco
O vermelho magnetiza os carros, os meus passos pisam um pouco de estrada que queria morder e rasgar eternamente
Mas é uma manhã que eternamente piso depois de
Pensar a cor das tuas palavras.
Azuis pontuais apanham o que ficou no chão depois de estas caírem de uma boca sem alcançar a outra. Olhamos para elas mas as mãos são dor ao tocar-lhes e nem sequer os olhares nos querem. Queixam-se de tempestades de borboletas. Então quietos presenciamos o silêncio a dar-nos de comer
Apanhei boleia
De uma manhã pensada.
Paula Vieira |
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