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edição n.º 13 poesia [1] vítor nogueira [esq]
eugénio branco [dir]
 

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Colaboradores neste número: Agapito Laranjeira, Anabela Ribeiro, Clara Monteiro, Eugénio Branco, Fernando Gouveia, João Brito, João Estrócio, José Carlos Barros, José F. de Resendes Carreiro, Luís C. Teixeira, Luísa Costa, Manuel Guimarães, Maria Filomena, Paula Pestana, Paula Vieira, Rui Duarte, Rui Ribeiro, Vítor Lamas, Vítor Nogueira.

ilustração de Anabela Ribeiro
ilustração de Anabela Ribeiro

Crer para ver

É curioso, Tomé:
não vejo a confiança entre os homens
e, todavia, creio nela.
Ver para crer?
Por que creio na confiança?
Sei lá por que creio na confiança!
Anda daí, Tomé.
Toma um lugar
neste descapotável que conduzo.
Cabelos ao vento, aí vamos, estrada fora.
No porta-luvas há um pacotilho de se-
mentes (é claro que eu não minto),
talvez por trás desse rolo de papel higiénico.
Dá sempre jeito
um rolo de papel higiénico
— e digo-o sem ironia.
Então? O pacote de sementes? Vê-lo, Tomé?
Ainda não...
Mas acreditas nele, Tomé?
Crês no pacotilho, agora que o refiro,
ou só confias no visível
rolo de papel higiénico?
Ah, sempre encontraste! Ainda bem.
Foi um velho que me deu as se-
mentes (é claro que eu não minto).
Nunca o velho tinha visto,
nunca mais voltei a vê-lo.
Deu-me as sementes,
dizendo para as espalhar
em dias de vento.
Hoje não há vento, bem sei.
É por isso que usamos o descapotável.
"Pode levar, que são sementes de confiança",
disse o velho.
Sementes de confiança?!
Nunca tinha experimentado.
Mas eu acredito, Tomé.
Não me fico pelos rolos de papel higiénico.

Vítor Nogueira

cântico sensualis


o movimento da sensualidade, às vezes, nasce longínquo
quase como uma fera de sentimentos vegetais
vestidos de uma carne crepuscular — ténue
exalando o olor de sete serpentes — sempre virgens

é como se existisse uma estátua-pétala — seda
que nos percorre o deserto marmóreo da pele
descobrindo a perspectiva do olhar-marfim
que nos entra pelo corpo das ideias dentro

transporta-nos um animal-esfíngico primaveril
flutuando primacialmente na aragem completa
que percorre a perplexa floresta de lábios-derme
cavalgando estames-verdes — infinitamente frágeis

é como se fosse uma manhã terrivelmente aquática
de uma imensa claridade de formas — saturadas
que se vertem nas mãos-gladíulo dos amantes
num clarão de uma evidência sibilina — quase tangível...
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outras vezes, a sensualidade nasce abrupta — vertiginosa
acumulando-se na dilatação excessiva dos poros
concentração dionisíaca de fluidos-magma — lava
que nos banham as ideias do corpo-carne — infinitamente carne...

até sentirmos intensamente a respiração das formas-formas
que se erguem em altas torres de marfim vulcânico
expansão violenta da contracção dos músculos-pedra
que nos habitam por dentro dos fonemas nocturnos...

concreção infinitamente lapidar do espaço ventre...
soltando-se no delírio flamejante de orquídeas — abertas
em espasmos-sussurros-rangentes — do olor dos corpos
que se espraiam na proximidade imagética da derme

trepidação descomunal de todas as coisas no mesmo tic
tac continuamente abrasivo de serpentes-dédalo
que volteiam nos lábios-corpo-língua-sexo
expandindo-se pelo infinito da respiração-cor......
...........................................................................
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volúpia-ânsia de beijar as íris da pele...
deglutir-te o odor corporal em poema...

transe de morder-te os lábios da alma...
fugir com ela em aspiral-fonema...

dançar-te a polka da língua-serpe...
por entre o seio dos olhos-ventosa...

ampliar-te o cromatismo da luz inversa...
em respiração de manhã frondosa...

buscar-te as sílabas livro-d`água...
que teces com a mão-animal...

dentar-te o céu da voz selvagem...
dente de elefante em rito tribal...

ouvir os sons estrídulos das tuas formas...
sinfonia calada de orquídeas nuas...

enlaçar-te continuamente em concha perpétua...
ânsias marítimas de navegar durante luas...

caravelas de desejos alados...
percorrem o mar primacial das coisas todas
vagueando por dentro do firmamento da sede
reflectindo a água cristalina dos olhos-boca
lábios de cristais salgados ardem na maresia-vertigem...
abraçando-me a bruma de fonemas-líquidos
que ondeiam no corpo-mar... mar... mar... mar...mar...
.....onde bolino placidamente......
.....com velas de seda-pele.......
.....matinalmente aromática.....
a mimosas silvestres de campos-olhos-verdes....
da uma cor infinitamente concreta — a sonhos
lapidados pelo deslumbre do reflexo momentâneo
que já não podemos ter por dentro — da seda.........

hoje, adentro o meu olhar pelo íntimo da seda perpétua...
volatilizo-me até ao âmago do silêncio compacto...
mordo a quietude do vácuo rigorosamente rectilíneo...
das pedras graníticas que enformam o frontispício diáfano...
da catedral-antro onde se adoram os corpos ébrios...
por entre a seda pura — das mãos-gladíolo dos amantes

na mesma catedral-antro
onde às vezes...
.....não podemos orar...
.....porque deus não permite

 
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eugeniobranco@periferica.org

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