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edição n.º 13 património TEXTO: luís c. teixeira
FOTOGRAFIAS: rui ribeiro
 

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Colaboradores neste número: Agapito Laranjeira, Anabela Ribeiro, Clara Monteiro, Eugénio Branco, Fernando Gouveia, João Brito, João Estrócio, José Carlos Barros, José F. de Resendes Carreiro, Luís C. Teixeira, Luísa Costa, Manuel Guimarães, Maria Filomena, Paula Pestana, Paula Vieira, Rui Duarte, Rui Ribeiro, Vítor Lamas, Vítor Nogueira.

fotografia de Rui Ribeiro

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Intimidades


Entre o homem e a pedra... procuramos resíduos de uma realidade singela gerados por uma vivência do quotidiano! Na verdadeira origem etimológica do termo Património, busca-se a herança paterna. Sem restauros nem cosméticos. Porque resumir o património a um espaço, único e maquilhado, significa atrofiar a ideia de universalidade que o conceito contém. Preferir falar daquilo que é belo e bonito pode ser a atitude patrimonialmente correcta, mas não é certamente a única estratégia para chegar à educação patrimonial.

Património também é uma herança uníssona. Isolar uma casa e/ou habitação só para lhe limpar o ventre, demonstra um narcisismo discriminatório. Como olhar para o próprio umbigo... E o resto das irmãs?! Cheias de aranhas já ninguém as quer! Pobres e sujas! Estarão elas condenadas à eterna castidade?

Imaginamos uma proposta para restaurar uma casa, um percurso pedonal ou até uma cadeira de Camilo Castelo Branco. Aprovo quase sem reservas. Mas, e os outros! Os Camilos, Antónios e as Marias de Portugal. Quem os acode? Só sei que uns são filhos de Deus e outros bastardos do próprio Homem. Contudo todos herdaram as metamorfoses de uma memória colectiva. Feita de intimidades com...

Pátios, escadarias e portadas expressam contrastes de luz e sombra. Interiores iluminados. Verdadeiros relógios naturais do ritmo diário. Desperto, logo trabalho! Pelo meio a hora sagrada da refeição. Eternamente agradecidos ao divino pelo pão que sempre deu. Muito ou pouco. Mas suficiente dentro da felicidade possível.

Procuro agora outra realidade, e deparo-me com os parasitas eternamente amantes da pedra velha. Musgos húmidos e renováveis. Madeira raquítica de tanto ser chupada pelas térmitas ávidas de fome. Odores igualmente renováveis da mais velha matéria reciclável. A bosta. Sua excelência, a bosta! Em vez dos gases artificiais da urbanidade...

 

A escolha recai sobre uma só freguesia. Com três lugares. Gouvães da Serra, Povoação e Pinduradouro. Todos nas Terras de Aguiar. Mas podiam ser outros. A escolha é quase aleatória. Lugares simples para o mais comum dos mortais. Basta que sejam eternizadas pela presença do homem. Patrimónios abandonados e preservados que simplesmente existem. Mas sempre reveladores de emoções. «Aqui nasceu o meu pai», disse ele.

Encontramos formas simples de arquitectura conjugando a madeira e a “mui nobre” pedra. Demasiado belas para não serem abordadas! Casas quentes no Inverno gelado. Frescas no Verão tórrido. Mas sempre lar doce lar. Interiores rústicos. Camas de ferro, linhos, arcas, forno, lareira, potes, escano e caldeiras. Sustento dos animais. Em nome do culto da fertilidade! Vinho para aquecer a alma em “chão que não dá uvas”.

Buscamos as entranhas dos canastros ou a prisão das espigas! Vistos por dentro e “in loco” são colunas estereofónicas que gravaram os sons perdidos da desfolhada. Cantares ao desafio. Mas também observadores de olhares cúmplices e beijos fugidios. «Se o meu pai vê ‘mata-me’», disse ela. Sítio inexpugnável para ratos esfomeados. Torna-se símbolo da desratização pura. Decepção! As ratazanas sobreviveram até hoje! Porque se discrimina ou ignora a forma de estar dos outros. Suas intimidades.

Ruralidade não significa isolamento. Nem hoje nem no passado! Como vulgarmente se pensa... Posso provar com um objecto? Nem mais do que uma simples máquina de costura. Accionada por um pedal gigante e com a agulha a funcionar verticalmente. Isaac Singer foi o mecânico de Nova Iorque que concebeu esta maravilha para aliviar o nobre trabalho doméstico. Haja respeito. Senhores!

Portas grandes para entrar o homem. Portelos para não penetrarem os animais. Luminosidades. Hospitalidade transmontana. Mas só quem vier por bem. Como em todas as partes do mundo, terrícola ou celestial.

E falta o contacto directo com Deus. Momentos sublimes da mentalidade cristocêntrica. Tudo gravita em volta dele. Até os santos padroeiros. S. Jorge, St.º António e Madalena. A prostituta. Impura. Paradoxalmente símbolo de um cristianismo puro e primitivo. Protótipo da mulher bíblica. Para esses santos outras tantas capelas. Brancas ou caiadas, mas sempre com marcas sucessivas de restauros e acrescentos. Espaço de introspecção. Para pedir mas também para agradecer. Diálogos com Deus. Íntimos. Promessas de emoção em paredes vazias. «Mas, aqui já não se reza a missa», diz o povo. Não importa! Serve para o mês de Maria. Ou para o funeral do Manel. Ou ainda para desafogar mágoas que poisam no fundo do mar. Salve-se o pecador! Apesar de tudo, surge sempre como um momento, único e individual, da cristandade. Até porque os outros são rotineiros e colectivos: baptismo, comunhão, casamento, etc. Mesmo assim a mãe insiste: «Tens que ir à missa». Nem que seja em Santa Marta. A localidade mais próxima.

Deus ainda permanece. O homem desaparece! Por exemplo, em Gouvães da Serra. Nos finais de oitocentos possuía 236 almas e 47 fogos. Em 1960, o número sobe para 365 habitantes e 77 casas. Nos censos de 1991, as estatísticas tornam-se arrepiantes: 102 indivíduos e 34 alojamentos. Sem comentários!

Do casamento entre o granito velho e a jovem modernidade restam apenas sinais de um divórcio eminente e acelerado. Espreitam, então, as amantes dos homens sós: a belga ou suíça, a alfacinha ou tripeira. Ou mesmo a vila mais próxima. Desde que seja um ponto de fuga da ruralidade. Até um dia em que o êxodo se torne definitivamente urbano.

Não se iludam mentes ambiciosas, profetizou o velho do Restelo. O tempo não perdoa, confirma o pastor do Alvão. Angústias, gritos, paixões, cheiros e fumos existem nos quatro cantos do mundo. Porque a felicidade plena não existe. Apenas sobram alguns raros momentos de êxtase individual. «Intimidades», digo eu.

 
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'Andarilho', símbolo do EITO FORA

 

transmontano sem preconceitos