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um jornal? uma revista? |
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edição n.º 13 |
low profile |
TEXTO:
rui a. araújo (c/ vítor nogueira)
FOTOGRAFIAS e CARICATURA:
paulo araújo |
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index
editorial
provocações
crónica de viagem
estória
património
torre dos coléricos
low profile
entrevista 1
entrevista 2
falar barato
opinião
visão dupla
anacrónicas
ensaio 1
ensaio 2
ensaio 3
poesia 1
poesia 2
1,2,3 caricatura
Colaboradores neste número:
Agapito Laranjeira, Anabela Ribeiro, Clara Monteiro, Eugénio Branco, Fernando Gouveia,
João Brito, João Estrócio, José Carlos Barros, José F. de Resendes Carreiro,
Luís C. Teixeira, Luísa Costa, Manuel Guimarães, Maria Filomena, Paula Pestana, Paula Vieira,
Rui Duarte, Rui Ribeiro, Vítor Lamas, Vítor Nogueira.
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As artes ou a cultura (seja lá o que isso for) não vivem só de produtores — embora
às vezes pareça. Do outro lado da moeda em que se transaccionam as obras está o público.
Na penumbra das salas enlevado em melodias alheias; em anónimas cadeiras perante a representação
de mundos vários; em páginas numeradas tropeçando em vírgulas ou na ausência delas;
em telas de ângulos agudos seguindo o rasto da pincelada... O bom público é omnipresente (tal como
o “grande público” é omniausente). Usufruindo, desfrutando, ajuizando. Erigindo-se numa das
razões de ser da arte.
Costuma dizer-se, nestes tempos de negócio, que para cada obra ou estilo há um
público-alvo (em certos casos, o que há é mesmo um público-alvar). Para lá
das generalizações, dos grupos-tipo, existe o indivíduo, assim como o autor existe para
além da obra (embora esta lhe possa sobreviver).
A mesma curiosidade que nos leva a vasculhar a vida dos criadores, levou-nos desta vez a meter o
nariz (salvo seja) no âmago do público. Mais do que saber gostos e tendências em forma de
alíneas de inquérito, quisemos saber de que massa é feita um bom público. A impossibilidade
de reunir em tão pouco espaço um universo tão vasto levou-nos a passar do caso geral para o
particular. Frederico Amaral Neves é um caso particular de “consumidor” de arte. A espaços elevando-se
à categoria de protagonista (quando encabeça a lista do PCP para as autárquicas, por exemplo),
mantém na maior parte do tempo o low profile de quem está do lado de cá da obra. Este é
o esboço do carácter de um público no sentido mais estrito do termo. Sigamos-lhe as pistas. |
Frederico Amaral Neves
Do outro lado da obra
o lado do público
A FORMAÇÃO
Nas origens dos gostos, dos prazeres, dos hábitos, pode estar uma casa e a vivência que
ela proporciona. A “Quinta Amarela” junto a Vila Real, para onde Frederico, nascido em Lisboa, foi “transferido” em
criança, tinha tudo para inspirar o bom “consumidor” de arte: a biblioteca dos antepassados, os quadros da
mãe, os discos do pai, uns hectares de dimensão telúrica e, de permeio, o Cabril, clepsidra
medindo os tempos que passam. O perfeito ar bucólico do local era sublimado pelo som das óperas que
encantavam o pequeno Frederico e que ele trauteava, fascinado com a música como mais tarde seria fascinado pela
«coisa global» que é a ópera.
Hoje a Quinta tem tudo isso e ainda, parece-me, alguns fantasmas, convocáveis em noites como
a que Frederico nos emprestou. Podia fazer-lhes já o rol, mas deixemo-los repousar até ao fim do texto,
para que o perfil siga o seu rumo e Frederico Amaral possa ter um passado.
Herdou do pai o gosto pela leitura e pela música. Devidamente iniciado nesta coisa de conviver
com a arte e prestes a demandar Coimbra, os pais, que já o tinham levado em “digressão” pela Europa,
entenderam que o rapaz precisava de uma temporária mudança de ares para abrir os horizontes da mente.
Tanto ruralismo bucólico poderia atrofiar-lhe o desenvolvimento intelectual. (É sabido que a cultura
da mente não difere da cultura da terra. Por isso o bom “consumidor” tem que ser preparado tal como se apronta
a terra para receber as sementes que darão a boa colheita.)
Destinaram-no a uma escola em Londres. Quando o avião aterrou, à sua espera, para o
atravessar para a futura residência, estava o que parecia um chofer, mas, no nevoeiro londrino, bem poderia ser
Caronte. Foi transportado pelas ruas da cidade até à porta de uma casa. Numa janela do primeiro andar
havia um cartaz que dizia: for sale. O nevoeiro, o chofer, a hora tardia, a casa, o cartaz... Às
três da manhã, a coisa começava a ter ares de conto de Edgar Allen Poe. O chofer, de lanterna na
mão, tocou várias vezes numa campainha que não se ouvia. Finalmente acendeu-se uma luz e apareceu
uma mulher. Conduziu-o ao andar de cima e, enquanto subiam as escadas, ele pôde reparar que senhora por baixo do
balandrau não trazia mais nada vestido. (A coisa prometia). Chegado ao quarto, detectou a falta de chave na
porta e, temeroso, deu conta do facto à anfitriã, que logo se pôs a procurá-la debaixo da
cama em posição pouco recomendável. Definitivamente, dali donde estava, perspectivava um bom
horizonte para a sua estadia em Londres.
O conhecimento do mundo faz parte de um público exigente. No Portugal orgulhosamente só
daquela época (66) o contacto com a evolução das coisas era restrito, mas na capital
britânica o pensamento não estava congelado. «Ao fim de uma semana descobri que aprendia muito mais
cá fora do que na Escola.» Ainda se aguentou por lá uns meses até os pais descobrirem que o seu
estudo estava a ser demasiado heterodoxo.
Entretanto foi abrindo os olhos para o que se passava no mundo. Assistiu pela primeira vez a
manifestações, comprou o seu primeiro Livro Vermelho de Mao, iniciou o aprofundamento duma
consciência política e social. Desejoso de se manter a par dos tempos, comprou um fato hippie
«fabuloso, com os seus guizos e as suas correntes», que lhe custou uma fortuna. Conservou-o até aos dias de hoje.
Pôde verificar nessa altura a possibilidade (e o gosto) das revoluções. Quando se
dizia “está acontecer” não era mentira. O “happenning” não era só a festa. (Ter-se-á
iniciado aqui no espírito e na literatura da beat generation que o acompanharão o resto da vida.
Creio mesmo que anos mais tarde viveria intensamente como um beat, com as suas alienações e os
seus excessos.) Estranhamente o seu fascínio pelos hippies de S. Francisco e as suas mensagens de “paz
e amor” não o impediu de simpatizar com os alemães apologistas da revolução armada.
Diz-se mesmo filho de ambos.
Quando regressou a Portugal, no seu fato novo e de cabelos crescidos, o pai, que o foi buscar ao
aeroporto, não o reconheceu. O rapaz estava a tomar o seu rumo.
Foi para Coimbra frequentar Medicina. Como a maioria dos estudantes, participou na crise
académica de 69. Teve uma intervenção «um bocadinho acima do normal». Entre outras coisas,
distribuiu o primeiro comunicado da crise académica. Ofereceu-se para o fazer. Nesses tempos de
exaltação, de revolução, não havia grande tempo para a arte “convencional”.
Convencional porque há outras. A arte da sublevação não deve ser desprezada. E, em 69, em
Coimbra, fez-se arte. Aí, Frederico não foi “consumidor” — foi produtor.
No final desse ano intenso o pai é avisado que o menino se está a portar mal. «Ou saio
de Coimbra ou vou dentro». Teve que fazer um ano «sabático». Foi para Lisboa, para Agronomia, em 1970. Era o
ano das grandes reuniões inter-associações. É um ano de grande contestação
académica também. Estudava-se a crise académica de Coimbra e ele, como outros vindos daquela
cidade, era uma cobaia a dissecar. «Se a ideia era afastar-me, aconteceu exactamente o contrário». Nesse tempo
já tinha alguns contactos com o Partido Comunista, embora só viesse a entrar para o partido em 1976.
O ano de 1970 é também um ano de novidade em Lisboa. Paralelamente (ou nem por isso) às
movimentações políticas, frequentou empenhadamente as boîtes («onde se dançava
junto, mas não muito, apesar de tudo»). Foi boémio, como não podia deixar de ser.
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Chega o 25 de Abril e Frederico, regressado a Coimbra, extasia-se (na época, como agora no
relato). Os dias da revolução de Abril passou-os sem saber como. Durante anos tinha uma “branca” sobre
esses dias. Recentemente soube das suas movimentações por fotografias que lhe foram mostradas por um
amigo da Imagoteca Municipal de Coimbra. Estava em todas.
(Se o objectivo deste perfil fosse o percurso político de Frederico Neves, não chegavam
todas as páginas que o leitor tem nas mãos. O activo militante do PCP, empolga-se verdadeiramente com a
crise académica, o 25 de Abril, a política no seu sentido ideológico e revolucionário.)
Após este período (que Frederico insiste que não se pode passar em alto) e
após a licenciatura, os três anos de internato em Lamego e o regresso a Coimbra, o doutor vai para
Almeida fazer o serviço “médicos à periferia”. «Almeida é um sítio mágico» e
passou a ser um dos seus locais de culto. Já militante do PCP, faz-se candidato à Câmara de
Almeida nas segundas eleições autárquicas. Depois vem a Madeira, a especialização
em oftalmologia e Castelo Branco. Na cidade beirã, acalmadas as excitações revolucionárias,
dedica alguma da sua atenção à arte “convencional”. Alia-se ao projecto de um grande amigo e com
ele funda e coordena uma galeria de pintura. «Era uma coisa de doidos tentar vender arte há 15 anos na Beira
Interior». Na realidade o objectivo não era vender arte, mas a militância pela arte. Tentavam vender
apenas para que a galeria pudesse subsistir, porque, de resto, ela «não dava lucro, dava gozo.» Há o
episódio do tipo endinheirado que entra, eles a medir-lhe a bolsa com o olhar e o homem a observar tudo menos
os quadros. O tecto, as paredes, as portas, as esquinas, tudo lhe merecia atenção — excepto as telas.
«Isto está bom, bons acabamentos», diz a figura. Era o empreiteiro que fez o prédio...
Em 1991 é colocado no hospital de Lamego e regressa a Vila Real. |
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OS PRAZERES
O seu percurso de “consumidor” de artes iniciou-se pela música, entrou pela literatura (a que
lhe cativa mais o interesse) e continuou pela pintura, a mais recente paixão. Espectador das artes, Frederico
é também consumidor no sentido comercial do termo. Compra livros compulsivamente (lê tudo o que
compra) e nos últimos anos dedicou-se também a adquirir pintura. Ainda arranja espaço
(literalmente) e vontade para continuar o espírito de coleccionador que já os pais tinham. Regularmente
faz investidas a antiquários e bibliotecários. Também regularmente vai pelo país (e
não só) em busca dos seus prazeres: a música (é apanhado pelo jazz), o teatro, e essa
síntese magnífica das artes que é a ópera. «Faço-o porque é importante para mim.»
Hoje já só lê o que quer, já só vê o cinema que quer,
já não vê nada que o chateie. Pensa só nas coisas que lhe dão gozo.
O prazer do teatro leva-o a assistir inclusive aos ensaios da Filandorra. «Vou aos ensaios porque
gosto de ver como é que as coisas são trabalhadas.» É o melhor “cliente” daquela companhia, mas
não deixa de ser crítico em relação ao teatro que se faz na região.
A IDEOLOGIA E A RELIGIÃO
Entre outras coisas, anda a ler uma coisa chamada “A minha fé” dum filósofo
francês. «A religião para mim é uma coisa muito importante.» Por isso procura estudá-la.
É comunista mas também católico (a perplexidade fica só do lado de quem o ouve, porque
para ele é natural). Sendo, acima de tudo, crítico da hierarquia, tem da Igreja, no entanto, uma
visão importante naquilo que ela tem de potencial de intervenção.
Logo a seguir ao 25 de Abril coube-lhe participar na troika que haveria de elucidar o Concelho
Presbiteriano do Norte, reunido em Vila Pouca de Aguiar, sobre o programa do partido a que aderiria, o PCP. Com
Sérgio Moutinho (diplomata que mais tarde morreria assassinado na Turquia) e o aguiarense Zeca Vicente,
lá confrontou a hierarquia (que estava ao lado do regime) com o catolicismo progressista. Embora com pouco
à-vontade, entraram na teologia, no humanismo cristão, no Concílio Vaticano II... Não
consta que tenha servido de alguma coisa, digo eu.
A ideologia está-lhe nos ossos. Não a destrinça da arte, por exemplo. Não
admira, portanto, que os neo-realistas tenham a sua simpatia, especialmente na literatura. Carlos Oliveira é,
para si, um exemplo acabado de autor genial. |
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A POLÍTICA
No entanto, as opções ideológicas não interferem na sua forma de fruir a
arte e a cultura. Vivendo numa cidade de cor laranja no que se refere ao poder autárquico, não deixa de
ser dos mais activos participantes nas iniciativas culturais que por lá se vão fazendo. «Integro as
iniciativas da câmara naturalmente. Sou um gajo da cidade, que vivo na cidade...» É quase um “garoto da
bila”, como alguém diz a meu lado. Questionado sobre o facto de os partidos costumarem virar as costas às
iniciativas uns dos outros, diz: «Não tenho essa visão da política. Não tenho eu, nem tem
o meu partido.»
Quando se candidatou à câmara de Vila Real, nas últimas eleições,
Frederico Neves tinha dois itens na sua campanha que eram basilares: o ambiente e a cultura. «Dois handicaps do
poder local.» E agora? «Se me perguntarem se já houve alguma resposta nesse sentido, eu digo que sim. Já
se avançou alguma coisa.» No entanto, se ele tivesse ganho as eleições seria diferente. «Na parte
cultural já teria avançado mais. Poderia não haver estruturas, mas com certeza que a sensibilidade
para as coisas da cultura seria diferente.» Realça esta certeza dizendo que «a experiência
autárquica dos comunistas em termos culturais é riquíssima.» «Quando o novo teatro estiver a
funcionar com certeza que vai ter que mudar muita coisa», insiste.
REGIONALIDADES
Gostou do livro do Caseiro Marques («o do Minério»).
Não gostou do último livro de poesia do Pires Cabral.
Não pensa ler Alexandre Parafita.
Não tem o impulso de ir ler um livro só porque é de Trás-os-Montes.
De Torga nunca gostou muito, embora ache que a sua obra é importante.
A MÁXIMA DA NOITE (A PROPÓSITO DE TORGA...)
«Parte-se do princípio de que um gajo é tolerante quando aceita o erro. Mas isto
é errado. Isto não é o significado da tolerância. É-se tolerante ao compreender e ao
aceitar que o homem é capaz de errar. Não ao aceitar o erro em si.» |
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A POESIA
A eternidade das obras faz-se à custa de “consumidores” como o Frederico. Nele as obras
revivem, não só porque as lê e relê, mas porque as entroniza verdadeiramente. Frederico
“milita” na arte e especialmente na poesia. Se houvesse que tirar conclusões deste exercício
(inútil) que se vem fazendo, dir-se-ia que um bom público nasce com a “militância”.
Depois de termos passado pelo seu percurso de vida à procura das razões das coisas,
chegaria o momento de desfilarem os fantasmas. Sentado na secretária do seu pequeno gabinete da Quinta Amarela,
Frederico vai acumulando livros em cima da mesa. Não num gesto de vaidade de quem exibe nomes. Ao sabor daquilo
que lhe apetece ler(-nos?) no momento, as obras vão saltando das prateleiras. Almada Negreiros e Alexandre
O'Neill, António Nobre e Carlos Oliveira, a geração beat e os orientais... Um carrossel
literário em espiral ascendente (passe o mau gosto da metáfora).
Frederico não tem uma voz marcante nem uma dicção trabalhada (não é
um “produtor”, já o dissemos). Mas a sua leitura (e os momentos em que dispensa os livros, assaltado por um
poema urgente), tem a capacidade de nos mobilizar, pelo que tem de intenso, de sincero. O olhar, o sorriso, os esgares,
as variações fonéticas, a expressividade, não são tiques profissionais. É a
poesia a viver nele (ou ele a viver na poesia).
It´s happening, poderia ser a definição da noite em que Frederico aceitou
compartilhar connosco as suas paixões. Pode não ter “acontecido” material para um perfil ortodoxo — mas
certamente aconteceu poesia. Pelo menos para nós... |
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transmontano sem
preconceitos |
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