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edição n.º 13 estória maria filomena e fernando gouveia
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Colaboradores neste número: Agapito Laranjeira, Anabela Ribeiro, Clara Monteiro, Eugénio Branco, Fernando Gouveia, João Brito, João Estrócio, José Carlos Barros, José F. de Resendes Carreiro, Luís C. Teixeira, Luísa Costa, Manuel Guimarães, Maria Filomena, Paula Pestana, Paula Vieira, Rui Duarte, Rui Ribeiro, Vítor Lamas, Vítor Nogueira.

pergaminho
Fac-símile dum manuscrito da Crónica (atribuído, sob reservas, a Fernão Gomes de Zurrapa)


ilustração de Paulo Araújo
ilustração de Paulo Araújo


Glossário:
acoimaçom = punição.
acontiado = fidalgo que, segundo a quantia dos seus haveres, devia servir o rei com armas e cavalos.
al = mais.
alfétena = guerra.
alimária = animal, besta.
alõgadas = afastadas.
ambrando = dando às ancas.
amolentar-se = comover-se.
asinha = depressa.
atá = até.
autos = feitos, actos.
avondosas facçons = abundantes feitos.
braçeiro = forte de braços.
brida = rédea.
ca = porque.
carriagem = conjunto de carros.
Castelaõ = Castelhano.
catar cobro = pedir mercê.
clara = ilustre.
de feito = de facto, efectivamente.
degredou = decretou.
error = falsidade, malícia.
esbaratar = rasgar.
favoreza = parcialidade.
femeeiro = mulherengo.
mesquinho = pequeno.
miserar = condoer-se.
mundairas = meretrizes.
prasmou = censurou, repreendeu.
trouvar = arranjar.
valdevenos = corruptela de “vale de Vénus”.

Antigas e longas andanças da
Rainha Santa Isabel
por Terras de Aguiar


«Rodrigo Álvares, o primeiro impressor português, nasceu em Vila Real no século XV. Em 1497 estava no Porto a trabalhar para o bispo D. Diogo de Sousa. Não se sabe com quem nem onde aprendeu a arte, e existem apenas duas obras que saíram da sua oficina.»1

Estes são os poucos dados que a História oficial da imprensa portuguesa dá daquele que seria o seu pioneiro, mas descobertas recentes por nós levadas a cabo nos arquivos da Biblioteca Nacional devolvem à luz uma terceira obra com a chancela de Rodrigo Álvares: «Cronica onde se dá fé das antiguas e mui lõgas andanças da Sancta Reyna Dõa Izabela nossa senhor polas Terras de Aguiar e dos graõs e vastos proveitos que de elas houve, devolvidos à verdade per Fernaõ Gomes de Zurrapa».

Trata-se de uma obra sobre as origens de diversas povoações das Terras de Aguiar, tendo circulado em manuscrito desde o tempo da sua redacção (provavelmente no reinado de D. Afonso IV) até 1505, altura em que foi impresso pela primeira vez por Rodrigo Álvares. Um motivo acrescido de interesse é o facto de tudo apontar para a possibilidade do grande Fernão Lopes ter bebido muito do seu estilo.

Seguem-se, a título de intróito da comunicação que faremos, em data a anunciar, nas “Tertúlias ao Rapé”, alguns excertos desta notável obra, com especial destaque para a fundação de Tourencinho.


Prólogo


Grã liçença deu a afeiçom a muitos que tiveram cárrego de ordenar estórias, sendoles mui favoráveis no recontamento de seus autos.*2 [...]

Assi se passou de feito* coas avondosas facçons* da Sancta Reyna Dõa Izabela nossa senhor polas terras que de Aguiar saõ ditas, non já per error* ou favoreza* mas per natural afeiçom e benquerença a taõ alta e clara* senhor qu’El Rey Dõ Deniz nosso senhor houve mereçimento e fertuna de trouvar* per esponsa. [...]

Mui danosa per a çertidom de estes feitos saõ taõ desvairados autores, ca* lendolos o vulgo e achandoles tan minguada verdade, mui asinha* vaõ de crer que todalas cousas que mais se dizem e contam da Sancta Reyna Dõa Izabela nossa senhor saõ aleivosias tamém. Per via de esta usança, vem a fé das reles gentes apoucando-se, com graõ prejoizo per a ordem do Regno e outrossi a compostura da borssa de que Sanpedro tem cárrego. [...] E eis porque açeitei empreitada de devolutar ditos feitos a sua vera espressom.


Como a Sancta Reyna Dõa Izabela nossa senhor foi de se ir a as terras que de Aguiar saõ ditas


Estando Dõa Izabela nossa senhor em desfruito de mereçido assessego em a rial pobra que de Panoias é, pouco tempo passado houvera que seu esponso El Rey Dõ Deniz nosso senhor lhe fizera graças coa doaçom do mui benquisto foral, veno page anunçiar o arrivamento düa3 junta de honrados homens das Terras de Aguiar que d’El Rey nosso senhor sempre fieis se acharam e com notoso afã serviço prestaram. E era que ditos homens vinham per catar cobro* de se achegar a Sancta Reyna nossa senhor a aquelas terras, ca mui sabedores eram de seus meravilhandos feitos, antre os quais avultando aquele que per taõ desusado se lhe adiantava em fama, e era este o de per milagre de Nosso Senhor Jesucristo ter Dõa Izabela demudado rosas em pan,4 cousa esta mui neçessitosa polaquelas terras, ca abastantes eram as outras, e sobrantes atá.* [...]

Amolentou-se* o coraçam da Sancta Reyna de aquelas gentes taõ alõgadas* do rial paço, e presto deu ordenança que todolos que co ela eram ajuntassem seus pretençes em a carriagem* com tençom de partir sem mais detença.

[...]


Como o pobo passante de Vila Chãa honrou a Sancta Reyna Dõa Izabela nossa senhor cüa achega de bois, e da guisa que foi dado nome de Tourançinho a essa pobra


[...] E era o maioral de esta pobra dita da Chãa acontiado* de graõs feitos assi de alfétena* como de alcova, cujos eram cantados per todala comarca e mais além de seu termo, e era cousa de meravilha homem taõ braçeiro* e outrossi femeeiro,* ca raro é topar quem bem cabalgue a dura sela e com igual maestria se afeite a fazerlo na trigueira garupa das mundairas.* E eis porque era dito homem apodado de Touraõ, pois taõ ligeiro era a varrer o campo do imigo qual fero touro, como entendedor nas prazenteiras e esforçadas artes da cobriçom.

Vem ao caso dar notíçia de üa aia, de sua graça Maria da Consolaçom, que em o cortejo da Sancta Reyna seguia. E era esta Maria assaz atreita ás cousas de folgar, tendo sempre seu valdevenos* mui bem labrado, como nem assisado é leixar aqui mençom, donde sendole chegado á conheçença quaõ façanhudo se açertava ser esse Touraõ, ambrando* sem vergonça logo ali fez saber pera quem ouvir quisera que antes que dez almudes passassem polas pás de üa azenha já ela teria probado das dulçuras de um touranço sob a brida* de taõ çelebrado genete, o que a benta Dõa Izabela prasmou* alembrando que mais façilitoso é um reco passar polo buraco de um camelo do que üa mulher adentrar o Regno Debinal coas gâmbias postas de par em par quais portas de Catedral em dia de proçissom do Corpo de Deus de Nosso Senhor Jesucristo. E todolos que ali estavam trouvaram grã çiênçia em aquestas pias palavras, salvo essoutra Maria da Consolaçom, do que resultaria grã justiça e acoimaçom* como adiante se verá.

[...] Estonçe Dõ Anrique5 degredou* que em honra de nossa senhor que em a gloria do Sanctu Cristo se encontra, fosse posta mesa de bodo em uns terrenos que aqueste gentil homem havia fora da pobra, já em o vale dito do meridiaõ ca se acha pera as bandas do meio-dia da mor pobra de aquela comarca, e é esta pobra de seu nome Vila Pouca.

[...] Em findando o bodo, logo ali se demarcou graõ terreiro pera que dous bois cabrons se achegassem em justa, como soe fazer-se em estas partes do regno d’El Rey nosso senhor. [...]

Foi estonçe que o boi que per vençido se achou, deu de correr desabridamente non em desgobernado caminho pero si direito a seu dõo e era ele Dõ Anrique Touraõ, o qual pego desavisado non houve guisa de se botar a coberto, vindo a ser colhido como os moços de Terras de Arriba Tejo teem usança de fazer per gáudio das gentes de lá. Mas sendo que as destas partes acostumbradas non estaõ a quejandas e pouco cristianas maneiras de diverçom, foi que se alevantou grã algazarra, com todalas damas e donzelas a bradar, e dos varons melhor será non dizer cousa per non açicatar os ânimos do Castelaõ* a entrar de roldaõ per essas serranias non se detendo sinon ás portas de Lisbôa.

Já botou a alimária* em direcçom á pobra da Chãa, calmou-se a turba arruidosa dando arranjo nas vestes em descompostura, a menos de Dõ Anrique, que esse non tinha mais roupas pera ajeitar ca a cornamenta do dito boi fôra de as esbaratar* leixandole as bragas em fiapos com todalas vergonças á vista. E per natural pudor logo o maioral tratou de se cobrir coas duas maõs, pero non antes do pobo perçeber com meravilha que um dedo lhe bastara pera igual serviço.

Vai daí a aia Maria da Consolaçom logo se adelantou e como era seu costumbre falou alto e bom som, pero non sem miserar:*

— Será verdade ser Dõ Anrique cousa pasmanda nas lides contra a Moirama, mas mui curtamente abonado anda pera essoutras lides da cama! Em parte algüa fiz achanço de armamento taõ mesquinho,* eu que já gozava o touranço al* non teria que tourançinho!

Em escuitando esto descompôs-se a populaça, desta feita non per arreçeio de qualquer boi cabraõ alançado em desvairo, antes em üa solta mofa per obra daquestas mui açertadas palavras.

E dando-se o caso de serem aqueles terrenos do maioral, como alhures se fez mençom, ligeira foi a ralé, sempre pronta a ingratidons pera com quem bodo lhes fez merçês, a apodarla de Herdade do Tourançinho, e é ainda este o nome da pobra que mais tarde ali se alevantaria.

[...]


Notas:
1 Revista História n.º 23 (III série), de Março de 2000.
2 As palavras ou expressões assinaladas com ‘*’ constam do glossário apresentado na coluna ao lado.
3 Representamos por “ü” a letra “u” acentuada com til, inexistente na moderna grafia do Português.
4 De notar a confusão quanto à natureza da transmutação: não pão em rosas, mas rosas em pão.
5 Nome do maioral de Vila Chã.

 
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'Andarilho', símbolo do EITO FORA

Leia este texto também na Secret’Área, o refúgio literário do Fernando Gouveia.

 

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