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edição n.º 13 ensaio [2] josé f. de resendes carreiro  

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Colaboradores neste número: Agapito Laranjeira, Anabela Ribeiro, Clara Monteiro, Eugénio Branco, Fernando Gouveia, João Brito, João Estrócio, José Carlos Barros, José F. de Resendes Carreiro, Luís C. Teixeira, Luísa Costa, Manuel Guimarães, Maria Filomena, Paula Pestana, Paula Vieira, Rui Duarte, Rui Ribeiro, Vítor Lamas, Vítor Nogueira.

Nesse processo terapêutico é necessário aprender a linguagem do silêncio, um silêncio positivo, isto é, que dê ao outro a capacidade de se exprimir à sua maneira, não atacando com receitas "pré-fabricadas industrialmente" às quais só falta aplicação.

Reflexões a propósito de uma conferência
A psicoterapia como um percurso / De refúgio seguro a base segura


Sou professor de Educação Moral e Religiosa Católica, profissão que encaro como vocacionada para a ajuda ao Outro, como uma primeira ajuda a muitas crianças e adolescentes, mesmo jovens, provenientes de ambientes familiares pouco favoráveis a nível de relações humanas de afectividade, de parcas condições económicas, motivadas, muitas vezes, por uma situação de desemprego forçado..., muitos são filhos de pais entrados na idade que, apesar do esforço por vezes mostrado em debater as situações de conflito com os filhos, não conseguem solucionar as coisas, porém, buscam uma ajuda (refiro-me as educandos).

Como dizia a certa altura Antoine de Saint-Exupéry na sua obra “O Principezinho”:

«(...) A raposa calou-se e olhou por muito tempo para o principezinho.

— Cativa-me, por favor, disse ela.

— Tenho muito gosto, respondeu o principezinho, mas falta-me tempo. Preciso de descobrir amigos e conhecer muitas coisas.

— Só se conhecem as coisas que se cativam, disse a raposa. Os homens já não têm tempo para tomar conhecimento de nada. (...) Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.»1

Não será benéfico repensarmos a nossa prática?

Na conferência a que me refiro em subtítulo, cedo se deixou transparecer o seguinte leitmotiv: A pessoa que se dirige às consultas de psicoterapia vai em busca de uma relação de vinculação, isto é, busca um tipo de relação terapêutica com uma figura em particular — o psicoterapeuta.

Neste tipo de relação depreende-se a necessidade de uma relação segura assente na estabilidade e na continuidade, apesar de eventuais "percalços' que eventualmente possam ocorrer (o apaixonar-se, por exemplo), pois é uma relação afectiva, necessariamente. Por isso uma relação mais cuidadosa poderá tomar-se mais vantajosa para o tratamento.

O tratamento pode visar uma ajuda educativa que consiste em dotar os indivíduos de capacidades para mudar, para reformar as suas relações de vinculação, flexibilizando-as.

Às vezes ponho-me a pensar no facto de poderem existir muitas pessoas, meus conhecidos ou amigos e familiares, que recorrem a esse tipo de terapias em virtude de eu não lhes ter, em dado momento da relação, obsequiado com um sorriso meu, com um gesto de atenção, com um simples olhar meigo e temo. Digo isto em virtude de cada momento de qualquer relação ser irrepetível no espaço e no tempo e, às vezes, os pequenos gestos poderem funcionar como lenitivo na dor.

Como já referi anteriormente, tenho tido muitos alunos, provenientes de ambientes familiares degradados, difíceis, que buscam algo que os possam preencher, que lhes dê ânimo e o afecto que, tantas vezes, não encontram... e por vezes um sorriso pode modificar muito a maneira de pensar e sentir. Não quero com isto afirmar que não haja pessoas para as quais o que estou a referir não se enquadra... estão numa fase de necessidade profunda de ajuda especializada. Mas, se calhar, tudo começou na ausência de um gesto, na sensação de abandono por parte de quem se amava e nada, ou muito pouco, se fez para destruir esse pensamento.

Será essa uma possível, eventual, causa para possíveis atitudes comportamentais ditas de indisciplinadas?


A psicoterapia como um sistema interactivo

A psicoterapia é vista como uma conversação, como construção, como o encontrar de novas formas de relação. Ela faz-se num contexto relacional obedecendo a regras, (confidencialidade, evitar ir a casa dos clientes...), a técnicas... mas essencialmente depende do investimento pessoal do terapeuta e do cliente. Qualquer técnica resulta improdutiva se não houver uma boa dose de querer, de garra.

As pessoas que recorrem a esse tipo de terapia encontram-se numa situação de extrema vulnerabilidade, pelo que é fundamental que qualquer abordagem tenha de ser feita com o máximo cuidado e delicadeza. Os possíveis assuntos a explorar poderão acarretar muito sofrimento tanto para quem os diz como para quem os houve. O psicoterapeuta também é humano e como tal poder-se-á sentir perturbado com a similitude de experiências que eventualmente viveu e isso poderá funcionar como factor de ruptura dessa relação, que se pretendia terapêutica. E suponho que isso poderá acarretar consequências negativas para o cliente bem como para o terapeuta, uma vez que nesse sistema interactivo se articulam dois papeis distintos mas complementares, um em busca de atenção e cuidados e outro que está disponível e presta cuidados.

As relações que se formam são da responsabilidade dos dois intervenientes, visto que os dois são co-autores do processo em curso e sofrem o impacto do que se pensa e se diz. Daí o terapeuta dever fazer uma construção sobre si próprio, tentando descobrir o modo como influencia o outro.

Muitos autores referem que o papel do terapeuta deverá pautar-se pela neutralidade. Mas, se calhar, ela não existe. Pessoalmente, não sei se deverá existir em todo o processo de terapia essa neutralidade. Isso porque o cliente precisa de sentir-se amado e não se pode amar sem se estar envolvido e o envolvimento não admite neutralidade. Ou então seria tudo menos amar. E amando que se olha para dentro e essa introspecção permite, ou pode permitir, uma mudança qualitativa e ela só acontece no amor.

Só podemos ajudar os outros quando olhamos para nós e por nós, pois assim é mais fácil arranjarmos tempo para quem precisa de nós, para quem nos pede que olhemos juntos na mesma direcção — a solução dos problemas.

Nesse processo terapêutico é necessário aprender a linguagem do silêncio, um silêncio positivo, isto é, que dê ao outro a capacidade de se exprimir à sua maneira, não atacando com receitas "pré-fabricadas industrialmente" às quais só falta aplicação.

O papel do terapeuta é visto como de co-autor de mudança enquanto figura de vinculação, como figura de vinculação na reserva. E ele deve saber quando deve finalizar a relação, evitando-se dependências indesejáveis e problemáticas.

A psicoterapia é encarada como relação de ajuda, como profissão de desgaste, como contexto de complexificação em paralelo com outras profissões de ajuda.

Somos, formamo-nos e transformamo-nos com as relações.

O homem é, por natureza, um ser relacional e é nessa relacionalidade que toma consciência da sua existência. No campo educacional o professor, esse mago da relação, deveria consciencializar-se disso — os alunos são pessoas e como tal sujeitos. E com eles pode crescer. Mais e melhor. Para isso necessita agir por vocação e não por necessidade, necessita de agir por amor e não por razões de subsistência. Caso contrário, todo o processo será abortado.


Nota:
1 SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. (s.d.) O Principezinho, Lisboa: Editorial Aster, Lisboa, 6ª Edição, págs. 69 e 72.

 
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