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edição n.º 13 ensaio [1] vítor nogueira  

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Colaboradores neste número: Agapito Laranjeira, Anabela Ribeiro, Clara Monteiro, Eugénio Branco, Fernando Gouveia, João Brito, João Estrócio, José Carlos Barros, José F. de Resendes Carreiro, Luís C. Teixeira, Luísa Costa, Manuel Guimarães, Maria Filomena, Paula Pestana, Paula Vieira, Rui Duarte, Rui Ribeiro, Vítor Lamas, Vítor Nogueira.

Esvaziadas que vão ficando as ideologias tradicionais, torna-se também necessário redefinir o papel dos políticos e dos intelectuais, longe dos grandes projectos ideológicos, mas perto da multiplicidade de pontos de vista e dos anseios dos menos poderosos, contribuindo para aprofundar este instrumento a que temos chamado democracia.

Por uma ecologia que não se transforme em eco-ideologia


Escreveu Viriato Soromenho-Marques que os cidadãos deviam legitimamente poder esperar do Estado abertura face às iniciativas e aos pontos de vista da sociedade civil, «integrando e potenciando a energia de autodefesa cívica relacionada com as lutas pela qualidade de vida e protecção do ambiente»1.

De facto, o equilíbrio ambiental é demasiadamente importante para que a sua defesa possa ser delegada. É pelo facto de a ecologia ser um assunto muito sério que não se deve entregar a ninguém o respectivo monopólio, nem mesmo às organizações ecologistas. É aos cidadãos, a todos e a cada um, que compete inseri-la na sua vivência quotidiana.

A partir do momento em que defendemos a pluralidade e, com ela, a tolerância, torna-se também impossível falar de ecologia no singular. E as ecologias mais radicais tanto podem usar temas tradicionais da extrema-direita como motivos progressistas da extrema-esquerda. Em Novembro de 1933, pouco depois de Hitler ter chegado ao poder, o regime nazi aprovou uma imponente lei sobre protecção dos animais. A natureza selvagem havia sido definida como património cultural da Alemanha e o amor pela natureza apresentava-se, aos olhos do nacional-socialismo, enraizado no mais profundo da própria germanidade. Infelizmente, da ideia de preservar a natureza (à primeira vista, simpática) à ideia de preservar os “povos naturais” foi um passo muito curto, traduzido nos horrores do holocausto. Hoje, por outro lado, a faceta mais radical da chamada ecologia profunda é a que suporta uma espécie de milícia mais ou menos regular, a Earth First2. Estes “eco-guerreiros”, como também são conhecidos, acreditam que as suas práticas agressivas são eticamente sustentáveis, desde que se dirijam apenas contra a propriedade e nunca contra as pessoas. Diversas acções de sabotagem contra grandes interesses instalados têm sido desencadeadas pela Earth First, aproveitando também a grande cobertura mediática que lhes é proporcionada pelo interesse dos meios de comunicação social.

Em teoria, qualquer ecologia radical é mais eficaz do que um modelo moderado, no sentido em que, uma vez posta em prática, preservaria melhor a natureza. Mas o problema de uma ética ambiental desse tipo reside justamente na possibilidade de ser posta em prática, no âmbito de uma sociedade que, apesar de tudo, não prescinda da democracia.

A resistência aos monopólios, não só de tipo económico, é uma postura acertada no contexto de uma sociedade que se pretende plural e no quadro de um regime democrático que, com todas as suas imperfeições, oferece a possibilidade de mudanças sem violência.

Claro está que a questão não é simples: para que as mudanças se façam é preciso o desejo da maioria; e, em grande parte das situações, até os meios de comunicação social tendem para a homogeneização da realidade, favorecendo muitas vezes a leitura própria do discurso dominante. Em certo sentido, «a sociedade não é composta de homens, mas sim de comunicações»3. É por isso que não desvalorizo integralmente o potencial mediático das acções desencadeadas por organizações ecologistas radicais. Às vezes fazem falta as pedradas no charco. Pela maneira fácil como penetram nos meios de comunicação social, as acções de diversos movimentos tornam a ecologia radical, que os inspira, bem aceite em consideráveis fatias da opinião pública.

No entanto, é com as regras do jogo da nossa herança moderna (as que temos, enfim, disponíveis), é com a democracia, que podemos reivindicar de forma crescente uma certa qualidade de vida. Numa altura em que as ideologias tradicionais se vão esbatendo, creio que a crítica interna, no seio da democracia imperfeita com a qual vivemos, é a única que continua a ser conciliável com o melhor da exigência democrática. Libertos das linhas partidárias dogmáticas, os indivíduos têm o caminho livre à sua frente. Mas é também por isso que a ecologia não pode romper radicalmente com a nossa herança moderna, nem muito menos pretender ocupar o lugar deixado vago pelas ideologias tradicionais, tornando-se uma força política de corpo inteiro (não obstante seja isso mesmo o que ambicionam os chamados partidos Verdes). A ecologia não pode, neste sentido, procurar transformar-se numa eco-ideologia. Como escreveu Luc Ferry, a ecologia, «embora sendo partilhada pela imensa maioria, não tem por si só vocação para o poder. Política, a ecologia não será democrática; democrática, terá de renunciar às miragens da grande política»4. Dizendo de outro modo, para usar palavras de Nunes Correia, «não se deve converter a ecologia na sede da política. Deve levar-se a ecologia à política, de modo a que esta se torne a sede de uma práxis ecológica»5. É que a mais importante dimensão da política não é algo que esteja exclusivamente relacionado com o Estado e com o governo, mas sim uma actividade e uma reflexão quotidianas de cada cidadão.

Esvaziadas que vão ficando as ideologias tradicionais, torna-se também necessário redefinir o papel dos políticos e dos intelectuais, longe dos grandes projectos ideológicos, mas perto da multiplicidade de pontos de vista e dos anseios dos menos poderosos, contribuindo para aprofundar este instrumento a que temos chamado democracia.


Notas:
1 V. Soromenho-Marques, «O problema da decisão em política do ambiente», Revista Crítica de Ciências Sociais, n.º 36, Centro de Estudos Sociais, Coimbra, 1993, p. 34.
2 Cf., por exemplo, J. Baird Callicott, «The search for an environmental ethic», Matters of life and death: new introductory essays in moral philosophy, ed. T. Regan, McGraw-Hill, Nova Iorque, 1993, p. 330.
3 J. L. Pintos, «Sentido y posibilidad», Jesús Ibáñez: teoria y práctica, ed. F. Álvarez-Uría, Ediciones Endymion, Madrid, 1997, p. 154.
4 L. Ferry, A nova ordem ecológica: a árvore, o animal e o homem (Le nouvel ordre écologique, 1992), Edições Asa, Porto, 1993, p. 202.
5 F. Nunes Correia, Ecologia e ideologia, ed. J. Rebelo, Livros e Leituras, Lisboa, 1999, p. 76.

 
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