vai para a página do index da edição
um jornal? uma revista?
edição n.º 13 editorial rui ângelo araújo  

index

editorial

provocações

crónica de viagem

estória

património

torre dos coléricos

low profile

entrevista 1

entrevista 2

falar barato

opinião

visão dupla

anacrónicas

ensaio 1

ensaio 2

ensaio 3

poesia 1

poesia 2

1,2,3 caricatura


Colaboradores neste número: Agapito Laranjeira, Anabela Ribeiro, Clara Monteiro, Eugénio Branco, Fernando Gouveia, João Brito, João Estrócio, José Carlos Barros, José F. de Resendes Carreiro, Luís C. Teixeira, Luísa Costa, Manuel Guimarães, Maria Filomena, Paula Pestana, Paula Vieira, Rui Duarte, Rui Ribeiro, Vítor Lamas, Vítor Nogueira.

capa da edição n.º 13 (junho/julho de 2000) [ilustração de Paulo Araújo]
capa da edição n.º 13
(junho/julho de 2000)
[ilustração de Paulo Araújo]

Caro leitor:


Este número que tem nas mãos dá azar. E não é por ser o décimo terceiro. Aliás, todos os números do Eito fora são um grande azar. Maior ainda que Todos os Nomes do Saramago. Já leu? Pois é, também nós. Esse e outros, para nosso azar.

Terá que convir que nestes dias de mundial e de sol é um azar do caraças termos que nos aturar uns aos outros. Nós a si, porque, imbuídos de missão divina, como sabe, tivemos que perder o nosso rico tempinho a preparar uma edição que não o desiludisse — profunda, extensa, elevada... uma merda chata, enfim. Você a nós, porque, para manter alguma aura da intelectualidade que vai perdendo, se vê na obrigação de transportar estas folhas até locais bem visíveis e, para cúmulo, ainda tem que as ler, ou fingir, pelo menos.

Para manter a ilusão que resistimos ao pimba e à decadência intelectual, nós e você, os iluminados, os escolhidos, obrigamo-nos a esforços enormes para os nossos pequenos cérebros. Rodeamo-nos de grandes livros (que o mais das vezes apenas transportamos), vamos às conferências e às exposições e aos concertos, vemos a RTP2 (com palitos nos olhos) e fazemos gáudio disso (passamos vergonha, normalmente). No carro ouvimos a Antena 2 com o volume no máximo, o que tem, pelo menos, a vantagem de funcionar melhor que a buzina — toda a gente se afasta. No escritório perguntamos, esperançados, à colega da mini-saia se quer saber o que andamos a ler, e ela indigna-se com a nossa falta de respeito e ameaça queixar-se de assédio sexual. Em suma, passamos as passas do Algarve. Ou antes, não as passamos, porque do Algarve nem cheiro, enfiados que estamos no húmus da nossa existência intelectual. (Ah!, como nós gostamos destas frases a transbordar de inutilidades!)

Quando, nós e você, os resistentes, nos juntamos, na rua ou nestas páginas, gostamos de elogiar mutuamente a nossa batalha, a nossa tenacidade. Gostamos de nos sentir como os heróicos resistentes da Segunda Guerra Mundial: contra a ocupação da Grande Besta, resistir, resistir sempre! Só que, dizemos profundos, hoje o Mal não é visível. O que faz de nós clones de D. Quixote. Combatemos moinhos de vento. Mas até isso nos orgulha porque o excesso de leitura faz-nos escolher mal os ídolos. Afinal as grandes bestas somos nós.

Quixotescos, perseguimos a nossa utopia — a despeito das praias do sul ou dos estádios da Holanda. Ridículos.

Quem fará a caridade de nos explicar que o pimba não é o Grande Mal, nem o futebol o Grande Satã? São sim as máximas expressões da nossa animalidade... perdão, humanidade.

Esta trupe que de dois em dois meses conspira para desiludir os leitores faria melhor em inscrever-se num curso de reciclagem para velhinhas solteiras esquecidas do croché. E você, caro leitor, cúmplice desta grande farsa, se fosse homem trocava já este manual de estupidez por um compacto das Lições do Tonecas. Se os tivesse no sítio não lia nem mais uma linha...


ruiaaraujo@periferica.org

P.S. O machismo que domina este editorial é a prova que nem tudo está perdido. Ainda não perdemos de todo a nossa humanidade. Alá é grande, e o papa corre que o leva o diabo...

 
vai para o topo da página  

'Andarilho', símbolo do EITO FORA

 

transmontano sem preconceitos