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edição n.º 13 1, 2, 3, caricatura TEXTO: rui ângelo araújo
CARTOON: paulo araújo
 

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Colaboradores neste número: Agapito Laranjeira, Anabela Ribeiro, Clara Monteiro, Eugénio Branco, Fernando Gouveia, João Brito, João Estrócio, José Carlos Barros, José F. de Resendes Carreiro, Luís C. Teixeira, Luísa Costa, Manuel Guimarães, Maria Filomena, Paula Pestana, Paula Vieira, Rui Duarte, Rui Ribeiro, Vítor Lamas, Vítor Nogueira.

caricatura


Rui Ângelo Araújo segundo Paulo Araújo
Rui A. Araújo
Paulo Araújo segundo Paulo Araújo
Paulo Araújo
segundo Paulo Araújo

António Maria Cardoso
O Indecifrável
Nec mortale sonans


António Maria Cardoso é o director, administrador e editor de A Voz de Trás-os-Montes, mas é, antes de mais, um sacerdote. Não só porque enverga o hábito, mas porque, como Antero de Quental, entende que a “bela, imensa missão do escritor é um sacerdócio, um ofício público e religioso, de guarda incorruptível das ideias, dos pensamentos, dos costumes, das obras e das palavras”.

Este código de conduta, que nos é oferecido na edição on line de A Voz de Trás, estará na concepção (salvo seja) que A. M. Cardoso tem do ofício (religioso) do jornalista, esse escritor do quotidiano.

Palco de sacerdócio, A Voz erige-se em púlpito incorruptível onde se exerce e garante a guarda (a sete chaves) das ideias, dos pensamentos, dos costumes e afins. Semanalmente, na página três, a humana trindade que rege o jornal converge num sempre elevado editorial aparentemente para formar a opinião pública. O ofício do sacerdote da escrita encontra aqui realização plena.

No entanto, e pese embora a elevação dos editoriais, por estigma duma má formação, não logro atingir o cerne duma “bela, imensa” maioria deles. É certo que me prende a prosa inspirada, me seduz a retórica profunda, me enleva a cadência das frases de A. M. Cardoso — mas escapa-me o enredo. Aos meus olhos, a sua escrita reflecte a “exímia dicção” e “retumbante oratória” de que fala a sua biografia — mas só. Não vejo que o editor tenha uma especial apetência por anagramas ou que, incorrendo em pecado mortal, tenha sido seduzido pelos apetitosos mistérios da cabala judaica. O defeito, creio, é mesmo do meu curto entendimento.

Tanto quanto o meu empedernido cérebro me permite, tenho matutado na razão desta incompatibilidade entre os superiores editoriais de A. M. Cardoso e a minha percepção. A explicação que encontrei poderá ser apenas uma amostra de incompetência, mas ainda assim arrisco.

Ocorreu-me que, em tempos de boa memória (não minha, claro), a missa era rezada em latim. Isto, sabendo-se que o latim era grego para o cidadão comum, pareceria uma incongruência se não fosse a missa a celebração do mistério divino. Ora, um mistério só o é enquanto se mantiver oculta a chave para o desvendar. Pois bem, parece-me que António Maria Cardoso percebeu melhor que ninguém o sucesso da igreja católica daqueles tempos. O segredo do êxito está aí mesmo. No segredo. A fé se não é cega é míope. No dia em que os olhos alcancem para além da ponta do nariz acaba o mistério divino e o seu culto. Da mesma maneira, no dia em que os leitores percebam os textos de António Maria Cardoso acaba a adoração que todos nós temos por ele. O escritor, assim sabido, é, literalmente, o “guarda incorruptível das ideias e dos pensamentos”. Tão incorruptível que, por mais que escreva, nunca levanta a ponta do véu! É de homem! Escrevamos e sejamos retumbantes — mas sem eloquência! Ah, Cardoso!

Fiquei bastante mais descansado depois desta explicação que, se me não elucidou sobre os dizeres do director de A Voz de Trás, me confortou a alma. No meu íntimo soaram os axiomas basilares da existência: “Os mistérios de Deus (e, por extensão, dos seus representantes) são insondáveis. Lembra-te ó homem que és pó e ao pó hás-de voltar. Porque quererás tu, insignificante, saber de que fala Cardoso?”.

P.S. Para fim de reflexão, em jeito de posfácio introspectivo, buscava um adjectivo para usar quando necessitasse de me referir ao editorialista de A Voz de Trás de Trás-os-Montes. Já em desespero, fui agraciado pela Minerva. Não a tipografia, mas sim a Deusa do Conhecimento (perdoe-se-me a heresia do recurso ao paganismo, mas também Camões o fez largamente e até o papa...). Travestida de dupla maravilhosa (o par Nuno e Dalma Botelho), a Deusa revelou-se-me em toda a sua vastidão nas próprias páginas de A Voz. Mais experientes do que eu na observação de seu director, Nuno e Dalma forneceram-me o adjectivo que titula este texto. O indecifrável Cardoso!

 
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ruiaaraujo@periferica.org
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