|
index
editorial
provocações
crónica de viagem
estória
património
torre dos coléricos
low profile
entrevista 1
entrevista 2
falar barato
opinião
visão dupla
anacrónicas
ensaio 1
ensaio 2
ensaio 3
poesia 1
poesia 2
1,2,3 caricatura
Colaboradores neste número:
Agapito Laranjeira, Anabela Ribeiro, Clara Monteiro, Eugénio Branco, Fernando Gouveia,
João Brito, João Estrócio, José Carlos Barros, José F. de Resendes Carreiro,
Luís C. Teixeira, Luísa Costa, Manuel Guimarães, Maria Filomena, Paula Pestana, Paula Vieira,
Rui Duarte, Rui Ribeiro, Vítor Lamas, Vítor Nogueira.
|

Rui A. Araújo |

Paulo Araújo |
| segundo Paulo Araújo |
|
António Maria Cardoso
O Indecifrável
Nec mortale sonans
António Maria Cardoso é o director, administrador e editor de
A Voz de Trás-os-Montes,
mas é, antes de mais, um sacerdote. Não só porque enverga o hábito, mas porque, como Antero
de Quental, entende que a “bela, imensa missão do escritor é um sacerdócio, um ofício
público e religioso, de guarda incorruptível das ideias, dos pensamentos, dos costumes, das obras e das palavras”.
Este código de conduta, que nos é oferecido na edição on line de A
Voz de Trás, estará na concepção (salvo seja) que A. M. Cardoso tem do ofício
(religioso) do jornalista, esse escritor do quotidiano.
Palco de sacerdócio, A Voz erige-se em púlpito incorruptível onde se exerce
e garante a guarda (a sete chaves) das ideias, dos pensamentos, dos costumes e afins. Semanalmente, na página
três, a humana trindade que rege o jornal converge num sempre elevado editorial aparentemente para formar a
opinião pública. O ofício do sacerdote da escrita encontra aqui realização plena.
No entanto, e pese embora a elevação dos editoriais, por estigma duma má
formação, não logro atingir o cerne duma “bela, imensa” maioria deles. É certo que me prende
a prosa inspirada, me seduz a retórica profunda, me enleva a cadência das frases de A. M. Cardoso — mas
escapa-me o enredo. Aos meus olhos, a sua escrita reflecte a “exímia dicção” e “retumbante
oratória” de que fala a sua biografia — mas só. Não vejo que o editor tenha uma especial
apetência por anagramas ou que, incorrendo em pecado mortal, tenha sido seduzido pelos apetitosos mistérios
da cabala judaica. O defeito, creio, é mesmo do meu curto entendimento.
Tanto quanto o meu empedernido cérebro me permite, tenho matutado na razão desta
incompatibilidade entre os superiores editoriais de A. M. Cardoso e a minha percepção. A
explicação que encontrei poderá ser apenas uma amostra de incompetência, mas ainda assim arrisco.
Ocorreu-me que, em tempos de boa memória (não minha, claro), a missa era rezada em latim.
Isto, sabendo-se que o latim era grego para o cidadão comum, pareceria uma incongruência se não
fosse a missa a celebração do mistério divino. Ora, um mistério só o é
enquanto se mantiver oculta a chave para o desvendar. Pois bem, parece-me que António Maria Cardoso percebeu
melhor que ninguém o sucesso da igreja católica daqueles tempos. O segredo do êxito está
aí mesmo. No segredo. A fé se não é cega é míope. No dia em que os olhos
alcancem para além da ponta do nariz acaba o mistério divino e o seu culto. Da mesma maneira, no dia em
que os leitores percebam os textos de António Maria Cardoso acaba a adoração que todos nós
temos por ele. O escritor, assim sabido, é, literalmente, o “guarda incorruptível das ideias e dos
pensamentos”. Tão incorruptível que, por mais que escreva, nunca levanta a ponta do véu! É
de homem! Escrevamos e sejamos retumbantes — mas sem eloquência! Ah, Cardoso!
Fiquei bastante mais descansado depois desta explicação que, se me não elucidou
sobre os dizeres do director de A Voz de Trás, me confortou a alma. No meu íntimo soaram os
axiomas basilares da existência: “Os mistérios de Deus (e, por extensão, dos seus representantes)
são insondáveis. Lembra-te ó homem que és pó e ao pó hás-de voltar.
Porque quererás tu, insignificante, saber de que fala Cardoso?”.
P.S. Para fim de reflexão, em jeito de posfácio introspectivo, buscava um
adjectivo para usar quando necessitasse de me referir ao editorialista de A Voz de Trás de Trás-os-Montes.
Já em desespero, fui agraciado pela Minerva. Não a tipografia, mas sim a Deusa do Conhecimento (perdoe-se-me
a heresia do recurso ao paganismo, mas também Camões o fez largamente e até o papa...). Travestida
de dupla maravilhosa (o par Nuno e Dalma Botelho), a Deusa revelou-se-me em toda a sua vastidão nas
próprias páginas de A Voz. Mais experientes do que eu na observação de seu director,
Nuno e Dalma forneceram-me o adjectivo que titula este texto. O indecifrável Cardoso! |
|