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edição n.º 13 anacrónicas manuel guimarães
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Colaboradores neste número: Agapito Laranjeira, Anabela Ribeiro, Clara Monteiro, Eugénio Branco, Fernando Gouveia, João Brito, João Estrócio, José Carlos Barros, José F. de Resendes Carreiro, Luís C. Teixeira, Luísa Costa, Manuel Guimarães, Maria Filomena, Paula Pestana, Rui Duarte, Vítor Lamas, Vítor Nogueira.

Hoje


Hoje é sábado e amanhã é domingo, e eu passo a semana à espera do sábado, mesmo sabendo que depois é domingo, os outros dias não contam, estão perdidos algures, entre imperativos categóricos, espasmos fatais como o destino, mexe-te que são horas, os minutos contados, as forças a desaparecer, quando é que me ri?, foi há séculos, e ri de quê?, conversa, mexe-te que os minutos não param, o tempo não para, já passaram anos, hoje é sábado e amanhã é domingo, e se houvesse inspiração, escrevia uns versos como o Vinicius, umas ideias bestiais, mas não, tenho que ir buscar o carro, chegar a tempo da campainha, dar uns berro valentes logo às oito e meia, a ver se a coisa começa! comer sem apetite, voltar para uma reunião, pagar as contas, correr para ganhar dinheiro para pagar as contas! e tudo gira à volta disso, dinheiro para as dividas, aspirar um bocado o pó, nem há disposição para desenferrujar os dedos, nem escrever nada que se veja, não há tempo, não há vontade, o corpo vai adormecendo num copo de whisky, mas nem assim adormece, foi para isto que nascemos, foi, pelos vistos foi.

Hoje é sábado, amanhã é domingo, é incontornável!, era bom que fosse possível mudá-lo, mas, por ora, não será fácil!, na enjoada divisão dos dias vê-se, claramente, o incómodo desfilar do tempo vicioso, diz o filósofo!, mas de pouco lhe serve!, o sábado avança, imperturbável e grave, enquanto a névoa lembra um barco perdido no crepúsculo.

Hoje


Ora, hoje é sábado e amanhã é domingo coisa óbvia. E a cada sábado, sábado vem e a cada domingo, também. E assim passo os meus dias que são estes dois. Os outros estão espartilhados entre horários tão frios que nem os sinto. Passam por mim e eu por eles e nem um aceno de reconhecimento, olá terça-feira, olá quinta feira, não há olás não há nada, há uma correria infernal, levanta, trabalha em pé, come em pé, corre, entra, sai, um sorrizinho de circunstância para aqui, outro para ali, não há tempo, não há tempo, vem aí o autocarro e a gente tem que se despachar. A gente despacha-se a semana toda. E despacha tudo - serviço, casa, filhos. Vive-se um tempo de despachar. Como tudo chateia, a gente despacha-se. Dia e noite, faz vistos mentais numa lista que trazemos na cabeça - compras no supermercado, já está, um visto; a reunião com o chefe, já está, um visto; fui buscar o Bruninho à escola, já está, outro visto; destinei o almoço, óptimo, outro visto; paguei a luz, a água, o telefone, o seguro do carro, comprei a salamandra para a sala, os cortinados para o quarto da filha, telefonei ao picheleiro por causa da torneira que pingava, visto, visto, visto, já vi a telenovela, visto, vou dormir, visto. Tudo despachado. Na cama a gente também se despacha. Vá, despacha-te que estou cheia de sono. E quando ele se despacha, surge do negrume da noite outra lista para despachar no dia seguinte. Que elas são como cobras imorredoiras estas listas quotidianas.

Chega! Não, não foi para isto. Que nascemos.

Foi para: acordar quando o corpo acorda. Assim, de mansinho. Um raio de sol nas cortinas. Uma suave luz que vem de fora. O ralhar dos pássaros na árvore que dá na janela. Cheirar a terra. Respirar o ar bom. Sentir o céu sobre a cabeça. Sentir o céu. Molhar os pés, molhar o rosto no orvalho, molhar as mãos nas tuas. Comer laranjas todo o ano. Correr sobre a relva húmida. E trabalhar criando. Criar. Uma ovelha. Regar urzes. Pentear as ervas. Subir a colina. Amanhar os ângulos. Cortar, mondar. Encher o cesto de perfumes. Atirar pétalas às ondas quando alguém morre. Chorar. Nunca morrer. E mais do que tudo amar. Naturalmente. Devagar. Como o rio que corre da infância.

 
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