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editorial
o jeito 1
o jeito 2
falar barato
torre dos coléricos
crónica de viagem 1
crónica de viagem 2
património
entrevista
etnografia
gato das botas
perfil
reportagem 1
reportagem 2
questionário
ensaio 1
ensaio 2
visão dupla
anacrónicas 1
anacrónicas 2
anacrónicas 3
poesia 1
poesia 2
apartado 51
b. d.
Colaboradores neste número:
Agapito Laranjeira, Anabela Pinto, Anabela Ribeiro, António Cabral,
Carlos “Cazé” Dias, Elza Garcia, Fernando Gouveia, Gil Silva, Jorge Rodrigues, José Ferreira Borges,
Luís C. Teixeira, Luís D'Almada, Luís Roque, Luísa Albino, Luísa Costa,
Manuel Guimarães, Maria Filomena, Paulo Leitão, Pedro Martins Colaço, Pitchu, Rui Duarte,
Troglodýtes Trogloditikós, Vítor Nogueira.
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ilustração de Rui A. Araújo
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A comunicação da “Virgem Dolorosa”
Nas minhas lides de viajante “profissional”, fui recentemente encarregado de transportar
umas pessoas a Madrid, mais propriamente a “El Escorial”. A possibilidade de visitar um lugar de que tantas vezes me
haviam falado como um destino obrigatório em Espanha aumentou o meu interesse na viagem.
Saímos às 5 da manhã, e a horas do “desayuno” foi-me dito o motivo da viagem:
assistir à celebração dum Terço num lugar chamado “Prado Nuevo”, onde, no primeiro
Sábado de cada mês, é transmitida, através de uma vidente, uma comunicação de
nossa Senhora, ou do filho — o próprio Jesus Cristo. (Eram pessoas de fé, as minhas contratantes.)
Chegámos a meio de uma manhã clara de Sol. A luminosidade permitia uma visão
ampla e apetecível da vila que sobe desde o vale até ao sopé da montanha. Ao longe avistavam-se
outros montes onde a neve teimava em resistir ao sol da Primavera. Via-se ainda, recortada no horizonte, uma
aglomeração de casas que anunciava a grande metrópole. “El Escorial” é bonito; cresceu
entre árvores variadas e jardins limpos e arrumados, tornando difícil distinguir onde acaba a vila e
começa a floresta que cobre a montanha até ao meio. Como a visita tinha um objectivo bem definido, tentei
saber onde era “Prado Nuevo”. Não foi difícil. É realmente um prado, com várias
árvores (talvez negrilhos), vedado com uma rede metálica. Entrámos para ver o local, enquanto a
organização ultimava os preparativos para a cerimonia. Embora não houvesse ainda muita gente, as
pessoas que iam chegando rumavam a uma árvore onde estava pendurada uma imagem da Virgem Dolorosa. Aquela
árvore, soube-o depois, foi escolhida entre as outras por Nossa Senhora para aparecer à vidente. Sem
perda de tempo, os peregrinos manifestavam o seu amor àquele tronco sagrado. Genuflectindo uns, outros mantendo
a verticalidade, todos abraçavam a árvore, apalpando-a sentidamente e beijando-lhe as cascas com os
lábios sôfregos do contacto divino.
Converti-me à contemplação!... mas do “Vale de los Caídos”, lugar onde
consegui levar o grupo enquanto esperávamos pela hora do milagre. A cruz gigantesca e a Basílica tornam
imperdível uma visita a este parque, que conta com outros motivos de interesse como a paisagem, a solenidade da
História espanhola e a natureza que ali se manifesta autoritária.
De volta ao “Prado Nuevo”, as senhoras concordaram que tinham sido bem gastas as 700 pesetas do
bilhete no “Vale de Los Caídos”, e aproveitaram para lembrar o quanto Franco, cujo túmulo tinham visitado,
contribuíra para a causa cristã lutando contra os comunistas — esses verdadeiros inimigos de Deus,
assassinos cruéis, encarnações do demo nas mais variadas personagens históricas, entre as
quais o próprio Hitler. Perante tão graves acusações, e tentando ser persuasivo, eu
próprio me disse comunista sem, no entanto me considerar tão malévolo e hediondo. Foi em
vão o meu esforço, pois, para elas, eu não só não podia ser comunista como nem
imaginava o que era o comunismo. Foram com a minha cara, está visto.
Já no “parque das aparições”, revelaram-me uma grande preocupação
que as impedia de assistir à cerimonia de consciência tranquila: queriam contribuir para a compra do
terreno e construção da capela. Alguém nos indicou uma “tienda” do outro lado da estrada.
— Como vamos saber qual é? — perguntaram as minhas acompanhantes, apontando as várias
tendas de vendedores ambulantes que se encontravam, religiosamente, naquelas paragens. Apercebendo-me da
determinação e necessidade que tinham em desfazer-se do dinheiro, encontrei-lhes o lugar indicado pela
administração, e registei como se sentiram aliviadas depois de, à vez, terem introduzido algumas
notas na caixa improvisada para (santo) receptáculo. Senti-me cúmplice de um roubo.
Após terem ouvido a comunicação da Virgem (pelos altifalantes, visto que, por
motivos misteriosos, mas certamente divinos, a vidente não esteve presente), iniciámos o regresso. As
generosas senhoras, censuraram-me por não ter assistido ao milagre, nem tão pouco ter rezado uma simples
oração. Justifiquei-me dizendo-lhes honestamente que, embora acreditasse em Cristo, achava aquilo uma
grande imposturice.
— Isso é um espinho que crava no coração de Nossa Senhora — disseram. Seguiu-se
outra tentativa para me provarem a veracidade do evento e me desviarem dos caminhos do mal. Desisti de argumentar
perante uma fé tão sólida e grande e dei comigo a pensar nos caminhos que seguiram, ao longo dos
tempos, alguns credos religiosos, e como ainda é cultivada a ignorância em prol da força da
religião e do seu domínio espiritual sobre pessoas boas e simples, que não terão toda a
culpa de se deixarem guiar para ódios infundados e militâncias tão desnecessárias quanto
desajustadas destes tempos primeiros do terceiro milénio. Apesar de tudo gostei da viagem, mesmo sem ter
chegado a visitar o museu. |
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