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editorial
o jeito 1
o jeito 2
falar barato
torre dos coléricos
crónica de viagem 1
crónica de viagem 2
património
entrevista
etnografia
gato das botas
perfil
reportagem 1
reportagem 2
questionário
ensaio 1
ensaio 2
visão dupla
anacrónicas 1
anacrónicas 2
anacrónicas 3
poesia 1
poesia 2
apartado 51
b. d.
Colaboradores neste número:
Agapito Laranjeira, Anabela Pinto, Anabela Ribeiro, António Cabral,
Carlos “Cazé” Dias, Elza Garcia, Fernando Gouveia, Gil Silva, Jorge Rodrigues, José Ferreira Borges,
Luís C. Teixeira, Luís D'Almada, Luís Roque, Luísa Albino, Luísa Costa,
Manuel Guimarães, Maria Filomena, Paulo Leitão, Pedro Martins Colaço, Pitchu, Rui Duarte,
Troglodýtes Trogloditikós, Vítor Nogueira.
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fotografia de Luísa Albino
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Janela para o outro lado
A ver pelas sombras, até podia ser o mastro duplo de uma caravela, à espera
de se afastar da ruína do cais, se de cais se tratasse. O barro acimentado constitui uma argamassa teimosa nos
buracos da estrutura. Por cima, o céu. No centro, uma janela para o outro lado de mim. E a sombra de uma viga
parece querer abri-la, como se lá estivesse.
Do outro lado, a água. Pensamentos aquáticos, atlântida encontrada por trás
da argamassa. E, daqui, todos os raciocínios líquidos são legítimos. Talvez passe um
barco, uma galera, um galeão. Mas o que eu queria mesmo, era um rabelo carregado de pipas.
Na parede, a sombra da proa, virada para as nuvens. Mas o mastro não voa, e a janela
aproxima-se perigosamente da água. E afinal, o cimento é que navega. É a terra que flutua,
solitária, o último pedaço de terra ainda com ervas, que resiste à catástrofe
aquática, do outro lado da janela.
guimaraes@portugalmail.pt
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