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edição n.º 12 reportagem [2] fernando gouveia  

editorial

o jeito 1

o jeito 2

falar barato

torre dos coléricos

crónica de viagem 1

crónica de viagem 2

património

entrevista

etnografia

gato das botas

perfil

reportagem 1

reportagem 2

questionário

ensaio 1

ensaio 2

visão dupla

anacrónicas 1

anacrónicas 2

anacrónicas 3

poesia 1

poesia 2

apartado 51

b. d.


Colaboradores neste número: Agapito Laranjeira, Anabela Pinto, Anabela Ribeiro, António Cabral, Carlos “Cazé” Dias, Elza Garcia, Fernando Gouveia, Gil Silva, Jorge Rodrigues, José Ferreira Borges, Luís C. Teixeira, Luís D'Almada, Luís Roque, Luísa Albino, Luísa Costa, Manuel Guimarães, Maria Filomena, Paulo Leitão, Pedro Martins Colaço, Pitchu, Rui Duarte, Troglodýtes Trogloditikós, Vítor Nogueira.

Fernando Gouveia segundo Paulo Araújo
Fernando Gouveia segundo
Paulo Araújo

Ver também, nesta mesma edição, “Lamas de Olo 2000...”, onde se fala do Visões Úteis, da arte de fazer teatro e da política cultural.

Se a montanha não vai a Kafka...


Lamas de Olo, sábado à noite. Na sala da Junta de Freguesia, disposta em duas filas paralelas, está dúzia e meia de bancos de ginásio. A sala está cheia, havendo mesmo gente em pé — coisa para 80 pessoas. Na sua maioria são crianças, comportando-se com um misto de casualidade e solenidade. À excepção de um pequeno grupo — em que me incluo — toda a gente é da aldeia.

Por uma porta lateral surgem dois homens: um, louro e mais alto, levando debaixo do braço o que faz as vezes de um jornal dobrado, traja algo como que um robe castanho arraçado de toga judicial, pijama e meias de lã; o outro, mais baixo e com cabelo castanho "lambido," veste uma camisola justa sem mangas e uns calções ligados às meias por esticadores e, por sua vez, seguros por suspensórios.

Um burburinho percorre a assembleia enquanto os recém-chegados se dirigem para uma estrutura metálica montada ao fundo da sala. Dir-se-ia um beliche, não fossem três pormenores: não tem as dimensões comuns (é praticamente quadrangular), não tem propriamente colchão na "cama" de baixo (só uma tela como as dos trampolins), e a de cima apenas se insinua na "escada" que, por ter sido inutilmente construída em posição horizontal, não faria má figura numa gravura de Escher.

Acocorado na parte de cima, fala o Filho: é um hesitante, que "age" mais para dentro do que para fora, daqueles que antes de viver as situações, de facto, já se martirizou longamente com a perspectiva delas. Deitado em baixo, o Pai lê o jornal, indiferente. (Estarão realmente no mesmo compartimento? E, se estiverem, estarão mais próximos por isso?) Assim os pintou Franz Kafka — que isto cada um escreve sobre o que lhe vai na alma.

Olho os espectadores, tentando ler neles a leitura que fazem do conflito psicológico que se desenrola à sua frente. De que forma comunica este texto com eles? Rever-se-ão de alguma forma nele? Quem é, na sua perspectiva, este Pai que se agiganta, sinistro, até tocar o tecto, perante um Filho fraco e diminuído — o patrão, a Sociedade, o Deus castigador, ou simplesmente o pai de cada um? Talvez um pouco de cada, talvez nada disto, penso enquanto divido a minha atenção entre os actores e a assistência. (Aprende-se muito sobre um texto observando as reacções das gentes.)

Mas... Ei-lo que surge, qual Deus ex (cum?) machina que traz sentido ao Mundo! Avança por entre o público com a autoridade de quem é razão primeira e última das coisas acontecerem. (Eh, afasta aí, Povo, que eu carrego ao ombro o instrumento através do qual se exerce o Santo Direito de Informar!) Sim, porque nenhum espectáculo vale por si, mas tão-só na medida em que dele seja dada notícia; garanta-se esta e todos podem ir para casa, que já cá não fazem falta — nem é preciso que haja espectáculo, basta a notícia dele.

Em questão de meia hora é o Filho condenado pelo Pai: duração apropriada a apresentações a públicos pouco habituados a espectáculos desta natureza; meia hora que tem a vantagem de deixar em todos o desejo de mais — e, enquanto abandonavam a sala, ouvi aqui e ali comentários de resignação: «Pois é, tudo o que é bom acaba...»

Toda a gente se foi — excepto nós e o cameraman (que tenta mostrar aos membros da companhia a heresia em que caem por secundarizar o acto informativo: como podem esquecer como são as (tele)visões úteis?!). Enquanto a cenário é desmontado, chegamos à fala com Pedro Carreira (o "Pai", agora menos opressor); conversa amena, mas prometedora, no final da qual fica combinado um encontro mais longo: segunda-feira em Arnal, então.

 
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fgouveia@periferica.org

'Andarilho', símbolo do EITO FORA

Leia este texto (e muitos outros) também na Secret’Área, o refúgio literário de Fernando Gouveia.

 

transmontano sem preconceitos