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| um jornal? uma revista? | |||
| edição n.º 12 | reportagem [2] | fernando gouveia | |
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reportagem 2
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Ver também, nesta mesma edição, “Lamas de Olo 2000...”,
onde se fala do Visões Úteis, da arte de
fazer teatro e da política cultural. |
Se a montanha não vai a Kafka...
Lamas de Olo, sábado à noite. Na sala da Junta de Freguesia, disposta em duas filas paralelas, está dúzia e meia de bancos de ginásio. A sala está cheia, havendo mesmo gente em pé — coisa para 80 pessoas. Na sua maioria são crianças, comportando-se com um misto de casualidade e solenidade. À excepção de um pequeno grupo — em que me incluo — toda a gente é da aldeia.
Por uma porta lateral surgem dois homens: um, louro e mais alto, levando debaixo do braço o que faz as vezes de um jornal dobrado, traja algo como que um robe castanho arraçado de toga judicial, pijama e meias de lã; o outro, mais baixo e com cabelo castanho "lambido," veste uma camisola justa sem mangas e uns calções ligados às meias por esticadores e, por sua vez, seguros por suspensórios.
Um burburinho percorre a assembleia enquanto os recém-chegados se dirigem para uma estrutura metálica montada ao fundo da sala. Dir-se-ia um beliche, não fossem três pormenores: não tem as dimensões comuns (é praticamente quadrangular), não tem propriamente colchão na "cama" de baixo (só uma tela como as dos trampolins), e a de cima apenas se insinua na "escada" que, por ter sido inutilmente construída em posição horizontal, não faria má figura numa gravura de Escher.
Acocorado na parte de cima, fala o Filho: é um hesitante, que "age" mais para dentro do que para fora, daqueles que antes de viver as situações, de facto, já se martirizou longamente com a perspectiva delas. Deitado em baixo, o Pai lê o jornal, indiferente. (Estarão realmente no mesmo compartimento? E, se estiverem, estarão mais próximos por isso?) Assim os pintou Franz Kafka — que isto cada um escreve sobre o que lhe vai na alma.
Olho os espectadores, tentando ler neles a leitura que fazem do conflito psicológico que se desenrola à sua frente. De que forma comunica este texto com eles? Rever-se-ão de alguma forma nele? Quem é, na sua perspectiva, este Pai que se agiganta, sinistro, até tocar o tecto, perante um Filho fraco e diminuído — o patrão, a Sociedade, o Deus castigador, ou simplesmente o pai de cada um? Talvez um pouco de cada, talvez nada disto, penso enquanto divido a minha atenção entre os actores e a assistência. (Aprende-se muito sobre um texto observando as reacções das gentes.)
Mas... Ei-lo que surge, qual Deus ex (cum?) machina que traz sentido ao Mundo! Avança por entre o público com a autoridade de quem é razão primeira e última das coisas acontecerem. (Eh, afasta aí, Povo, que eu carrego ao ombro o instrumento através do qual se exerce o Santo Direito de Informar!) Sim, porque nenhum espectáculo vale por si, mas tão-só na medida em que dele seja dada notícia; garanta-se esta e todos podem ir para casa, que já cá não fazem falta — nem é preciso que haja espectáculo, basta a notícia dele.
Em questão de meia hora é o Filho condenado pelo Pai: duração apropriada a apresentações a públicos pouco habituados a espectáculos desta natureza; meia hora que tem a vantagem de deixar em todos o desejo de mais — e, enquanto abandonavam a sala, ouvi aqui e ali comentários de resignação: «Pois é, tudo o que é bom acaba...»
Toda a gente se foi — excepto nós e o cameraman (que tenta mostrar aos membros da companhia a heresia em que caem por secundarizar o acto informativo: como podem esquecer como são as (tele)visões úteis?!). Enquanto a cenário é desmontado, chegamos à fala com Pedro Carreira (o "Pai", agora menos opressor); conversa amena, mas prometedora, no final da qual fica combinado um encontro mais longo: segunda-feira em Arnal, então.
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Leia este texto (e muitos outros) também na
Secret’Área, o refúgio
literário de Fernando Gouveia. |
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transmontano sem preconceitos |
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