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edição n.º 12 questionário ENTREVISTA: gil silva
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Colaboradores neste número: Agapito Laranjeira, Anabela Pinto, Anabela Ribeiro, António Cabral, Carlos “Cazé” Dias, Elza Garcia, Fernando Gouveia, Gil Silva, Jorge Rodrigues, José Ferreira Borges, Luís C. Teixeira, Luís D'Almada, Luís Roque, Luísa Albino, Luísa Costa, Manuel Guimarães, Maria Filomena, Paulo Leitão, Pedro Martins Colaço, Pitchu, Rui Duarte, Troglodýtes Trogloditikós, Vítor Nogueira.

Pires Cabral

«Não haverá progresso de nenhuma ordem se não houver progresso cultural. A cultura é que abre a porta ao resto: ao desenvolvimento, à democracia, à felicidade.» A. M. Pires Cabral em entrevista é questionado sobre estas e outras coisas.

I am
Pires Cabral


"Nasci de facto numa aldeia do concelho de Macedo de Cavaleiros (Chacim), mas as recordações que tenho desse lugar são posteriores, já da pré-adolescência, uma vez que vim com pouco mais de um ano de idade para Macedo de Cavaleiros e aí é que passei a infância. Em Chacim (como em Alvites, terra de meu Pai, no concelho de Mirandela) passei mais tarde algumas férias, que me deram muito do conhecimento da ruralidade trasmontana: as fainas e alfaias da lavoura, os nomes dos pássaros e das ervas, muita literatura popular, etc. Mas a minha infância — aquela que dizem nos molda o carácter e de que conservamos recordações pela vida fora — foi, como digo, passada em Macedo de Cavaleiros. Não é que Macedo de Cavaleiros fosse uma cidade, nessa altura (hoje é). Era uma vilória, pouco mais do que uma aldeia, onde em todo o caso estavam mitigados os traços mais rústicos da ruralidade. Recordações? As de uma infância feliz, despreocupada, num ambiente familiar envolvente, com amigos de bairro, jogos de roda, a igreja por perto mas não demasiado perto, o colégio e seu feroz director, trovoadas em Maio, um braço partido na neve, pesca no rio Azibo, banhos no Ginço, assaltos à fruta, sonhos malucos, namoros precoces... Nada que não fosse de esperar de uma criança da minha idade."

Houve pessoas que lhe despertassem o amor pelas artes ou será esse amor inato?
Não existe amor pela artes — nem amor por coisa nenhuma — que não seja inato. Ou melhor: tem de haver uma matriz que já vem do ventre materno onde encaixam, pela vida fora, os diversos amores que se nos vão proporcionando. Há muito coisa que se adquire no percurso, mas o fundamental (as ferramentas e as disponibilidades) vem já programado nos genes. Quero com isto dizer que acredito que nature pode mais do que nurture, na célebre dicotomia anglófona que define cada homem. Agora, é sempre bom que essa matriz primordial seja acalentada por palavras de estímulo. Mas, tirante um ou outro professor que gostava das minhas redacções escolares, não tive muito disso. Sou um self-made artist.

Ao falar de Coimbra o que lhe ressalta da memória?
O que há-de ressaltar? Correndo embora o risco de parecer convencional, Coimbra evoca em mim tempos de irreverência, de despreocupação e de alguma boémia — mitigadas, em todo o caso. Mas evoca mais: evoca o percurso da minha formação intelectual e cívica. A Faculdade de Letras não me deu, talvez, tanto quanto eu esperava dela; em todo o caso abriu-me alguns horizontes. O convívio e a vida associativa abriram-me os olhos para a política, que mais tarde vim a desprezar por demasiado desavergonhada para o meu gosto. Participei convictamente nas movimentações académicas, sobretudo na greve de 1962, em que andei perto de levar umas coronhadas da prestimosa polícia de choque que dia sim dia não cercava o campus. Não esqueço ainda que foi em Coimbra que vi em letra de forma os meus primeiros poemas. O alumbramento que isso foi! Em suma: ainda hoje gosto de ir a Coimbra recuperar um pouco do que lá vivi.

 
Pires Cabral

Há escritores que lhe sejam agradáveis e tenham de algum modo influenciado a sua escrita?
Há centenas de escritores que me são agradáveis. E, embora isso se processe a nível do subconsciente (quando não do inconsciente), deve haver centenas de escritores que influenciaram (e continuam a influenciar) a minha escrita. Não é coisa que, habitualmente, o próprio tenha facilidade em reconhecer. Mas posso citar algumas influências que reconheço: Shakespeare (tinha de ser, ainda não apareceu mais prodigioso cadinho de paixões e de imagens), Cervantes e Quevedo, um pouco dos trágicos gregos (Eurípides em primeiro lugar, pela sua modernidade). Na literatura portuguesa, alguns poetas: Camões, Gil Vicente, Guerra Junqueiro (este, bem entendido, apenas nas erupções sensacionalistas da adolescência, que em todo o caso foram importantes na sedimentação da minha voz poética), António Nobre, Cesário Verde, Eugénio de Andrade. Também alguns ficcionistas: Camilo Castelo Branco, Miguel Torga e Aquilino Ribeiro. Aqui, tudo gente com ligação directa à terra, como vê... Possivelmente omiti alguns nomes óbvios. Mas o que não posso esquecer de forma alguma — e acredite que não o faço por pose nem por diletantismo, mas o mais sinceramente de que sou capaz — é o quanto devo à assombrosa lírica popular portuguesa.

Como escritor define-se como “um amador com vontade de ser profissional”. Esta frase expressa o que realmente sente?
O que eu queria dizer, com essa espécie de desabafo escrito algures, é que a condição de escritor de horas livres condiciona a qualidade e sobretudo a quantidade do que escrevo, e que preferia poder dedicar-me a tempo inteiro à escrita, se daí pudesse retirar os proventos indispensáveis à sustentação decente de uma família. Coisa que em Portugal, com os índices de analfabetismo que se conhecem e a consequente pequenez das tiragens, é mais do que problemática. De resto não tenho nada contra o amadorismo. Pelo contrário, conheço imensos amadores — em todas as áreas da actividade — que pedem meças aos profissionais, incluindo em matéria de... profissionalismo. Às vezes o amadorismo, no seu esforço para se transcender, dá frutos extraordinários.

Qual a forma de escrita que mais o fascina: a poesia, o teatro, a prosa?
A que estou a fazer em cada momento.

Como vê a arte na sua vida?
Como uma condição sine qua non. A arte que eu faço (ou julgo fazer) e a arte que os outros fazem. Na verdade preciso de ter um contacto permanente e diário com a arte, como alternativa a outras necessidades espirituais. (Em vez de alternativa, há quem diga sucedâneo, com a consequente carga pejorativa. Mas eu encontro na arte o que outros encontram na religião ou no desporto ou seja no que for: uma coisa que me enche a vida de sentido.) Note que eu tomo aqui arte em sentido muito lato: a literatura, o teatro, o cinema, a pintura, a música e tutti quanti. A alternativa à arte é, quando isso se torna necessário, e torna-se muitas vezes, a natureza.

Sei que tem um certo pavor aos “críticos”. Porquê?
Quem lhe disse uma coisa dessas? Pavor, eu? Credo, que exagero. Naturalmente, respeito o papel dos críticos e tenho em consideração os puxões de orelhas que dão: estão no papel deles, e têm ajudado a corrigir muita inépcia. Quando são justos e competentes, claro. E também confesso que às vezes me sinto condicionado por aquilo que pressinto que eles vão dizer sobre o que escrevo. Fraquezas... Ou então a estética da sedução aplicada aos críticos... Mas até nem tenho tido razão de queixa: tirante uma ou outra recensão menos generosa, a minha pasta de recortes da crítica tem um saldo altamente positivo e estimulante.

 
Pires Cabral

“O reconhecimento de uma pessoa, às vezes, não depende só dos seus méritos, dependendo do sítio onde está integrada e até das pessoas com quem bebe uns copos”. Ao fazer esta afirmação está-se a considerar um escritor periférico com menos oportunidades que escritores que habitem em grandes centros urbanos?
Estou muito objectivamente a considerar que vivo na periferia do mundo editorial, com todas as consequências que daí decorrem. Mas que fique claro: vivo onde vivo porque foi esse o lugar que escolhi, e nenhuma vantagem editorial me levaria a viver noutro sítio. Isso não tira que seja verdade o que digo nas entrelinhas: que o ambiente em que se movimenta e as capelanias que frequenta podem ser mais decisivas para a projecção de um escritor do que a qualidade intrínseca daquilo que ele escreve.

Ao receber o prémio Círculo de Leitores, em 1983, pela sua obra “Sancirilo”, viu a sua vida alterada de alguma forma, sentiu-se reconhecido?
As alterações na minha vida resumiram-se talvez a um frigorífico novo. Quanto a sentir-me reconhecido, talvez não. Senti-me, isso sim, estimulado, que é um bocado diferente. Estímulo que ainda perdura.

Pode-se afirmar que Trás-os-Montes é uma dama que o seduz?
Sem dúvida que Trás-os-Montes me seduz, na sua integridade: terra, paisagem, ambiente, clima, gente e cultura. Mas não me considero uma avis rara por isso. Creio que nós, trasmontanos em geral, nascemos com este ónus de nos deixarmos seduzir pela nossa terra. E quanto mais longe estamos dela, mais seduzidos nos sentimos. É ver essas Casas de Trás-os-Montes pela Europa e pelo mundo fora, com os seus rituais (que só podem parecer excessivos a quem nunca viveu na diáspora) de esconjuro da saudade. Não há nada de pecaminoso nisto, nem de vergonhoso, nem de reaccionário. Tentar negá-lo ou metê-lo a ridículo é que é, parece-me, um “p’rà frentex” inconsequente. Naturalmente que me considero um cidadão do mundo, e da Europa, e de Portugal; mas acima de tudo um cidadão de Trás-os-Montes. Sem que esta última condição embarace e muito menos empobreça as anteriores.

Parece existir na literatura transmontana uma identificação com as tradições e o modus vivendi dos transmontanos, uma visão unívoca da sua história. Isto talvez resulte num panorama demasiado unânime. Não será redutora esta espécie de “escola” literária transmontana que tende a perpetuar Camilo Castelo Branco?
Camilo Castelo Branco infelizmente escreveu muito menos sobre Trás-os-Montes do que geralmente se pensa. Mas que grande literatura seria essa, que perpetuasse o maior dos nossos escritores! A realidade não tem muito a ver com as premissas da sua pergunta. Trás-os-Montes não tem uma grande literatura, mas a que tem é suficientemente variada para não corrermos riscos de “um panorama demasiado unânime”. De qualquer forma, não é legítimo pressionar os escritores trasmontanos para que não restituam nas suas obras a sua visão de Trás-os-Montes. Cada qual é livre de escolher os seus temas. O leitor e o crítico podem gostar ou não gostar, achar adequado ou inadequado, torcer ou não torcer o nariz, mas não têm que interferir com a liberdade sagrada do escritor. Além disso, perpetuar Eça de Queirós ou José Saramago ou Lobo Antunes ou seja quem for — será mais legítimo e estimável do que perpetuar Camilo Castelo Branco? Andam por aí umas confusõezitas sobre regionalismo e universalismo que mais tarde ou mais cedo vai ser preciso desfazer.

Quem, na sua opinião, se sente mais identificado com esta visão da região, os que nela vivem ou os que dela têm uma imagem mítica (resultante de memórias próprias ou de estereótipos inculcados)?
Quem vive e labuta em Trás-os-Montes, especialmente na parte rural, raras vezes tem aparelhagem intelectual capaz de reflectir sobre o assunto. Sente o apelo das raízes, mas não reflecte sobre elas. Comporta-se, não se auto-justifica. Isto é: identifica-se sem saber que se identifica. É natural que quem transcendeu (geralmente pela via da escolaridade) a condição do terrunho e sobretudo quem, por essa via, acedeu a outros lugares de viver esteja habilitado a construir uma imagem mítica da terra natal. Que, normalmente, é mais assanhada e ostensiva, por isso mesmo que é, ou pretende ser, doutrinariamente fundamentada. Digamos que essa pessoa, contrariamente àquela que ficou agarrada à terra, se auto-justifica, mais do que se comporta.

 
Pires Cabral

Que possibilidades vê de vingarem nesta terra escritores cujas influências literárias não sejam Camilo ou Torga? Teremos nós transmontanos vontade ou clarividência para aceitar em Trás-os-Montes outro tipo de produção literária?
Na resposta que dei àquela pergunta sobre o escritor periférico já ficou de algum modo respondida também esta pergunta. O problema não é de influências literárias, é de qualidade da escrita, mas também de ambiente literário e de afastamento do mundo editorial. Qualquer escritor transmontano tem dificuldade em vingar, nomeadamente os jovens em inicio de currículo. Mas se de facto tiver qualidade e um pouco de sorte — e independentemente das influências a que responde — acaba por vingar. Quanto à segunda parte da pergunta, cada um que fale por si. Eu, trasmontano assumido, estou perfeitamente aberto a aceitar qualquer produto literário em que reconheça qualidade, faça-me ele lembrar Torga, Camilo ou seja lá quem for. Não tenho preconceitos, parti pris. E você?

A insistência nas especificidades culturais transmontanas, podendo cristalizar o que é transmontano não poderá ter um efeito adverso ao pretendido, ou seja, não poderá sufocar um património humano de criatividade, de imaginação, de descoberta?
As forças por que se rege a cultura dum povo são felizmente superiores a todas as influências deletérias, seja no sentido do ultramontanismo, seja no sentido do “p’rà frentex” (reparo que já usei a palavra duas vezes, mas faço-o deliberadamente para dar uma carga negativa à freima de reformar a todo o custo, em nome de não se gostar do que está). A cultura dum povo tem as suas rotinas e os seus ciclos, mas também a sua dinâmica própria, a sua permeabilidade, o seu potencial de evolução e, como se refere na pergunta, a sua criatividade, a sua imaginação e a sua capacidade de descoberta. Destes materiais intrínsecos é que ela se constrói, e pouco monta que alguém queira à fina força estorvar-lhe o caminho. Não é por andarem por aí uns sujeitos a berrar que antigamente é que era bom e que é preciso conservar tudo como num museu, ou então que é preciso arrasar tudo e construir uma cultura ex novo, não é por isso que a cultura deixará de existir e de se adaptar, olimpicamente indiferente aos que julgam mandar nela.

José Leon Machado considera-o como um dos maiores escritores transmontanos. Que opina sobre isto?
Sendo José Leon Machado um excelente crítico de literatura (além de um notável ficcionista), só posso ficar satisfeito. Mas nunca perdendo de vista os avisos do “Eclesiastes”: vaidade das vaidades, tudo é vaidade... Já vivi o bastante para não correr a foguetes e para ter aprendido que a grande pedra de toque da avaliação da arte não são os críticos: é o tempo. Infelizmente já não estarei cá para confirmar se o tempo valida ou invalida o juízo de José Leon Machado.

Qual a obra em que se sente mais realizado, imortalizado?
Imortalizado? Credo! Nem que eu aspirasse a entrar na Academia Francesa! Durar 70 ou 80 anos já é tão complicado... Vamos deixar essa palavra de parte, concorda? Ainda realizado, vá que não vá. De facto, há obras em que um sujeito pensa que deu o máximo de si, que não podia dar mais do que aquilo — que se realizou, em suma. Pois bem, era capaz de responder que essa obra é a “Crónica da Casa Ardida”, porque foi de todos os meus livros aquele que escrevi com mais paixão e com mais prazer, e suponho que com melhores resultados. Não quero com isto dizer que enjeite qualquer dos outros livros. São todos meus filhos, com seus defeitos e virtudes, não tenho pois remédio senão assumi-los, ampará-los e defendê-los.

 
Pires Cabral

Para além da escrita, que outras formas de arte povoam a sua existência?
Vamos distinguir: sou ao mesmo tempo consumidor e produtor. Enquanto consumidor, estou aberto à fruição de toda a forma de arte genuína, isto é, arte onde não fareje impostura ou mesmo vigarice (que há muito disso em arte, não sei se sabe). Enquanto produtor, sou acima de tudo um escritor, mas em horas desenfadadas gosto de fazer a minha perninha na aguarela e no cartoon. Com resultados mais modestos do que na escrita, creio. Mas, no que toca à aguarela, com um grande ganho de serenidade, e, no que toca ao cartoon, com óbvios benefícios para a desopilação do fígado.

Que papel ocupam a escrita e a pintura na sua vida?
Em primeiro lugar, talvez um papel que quase diria terapêutico, de catarse, respondendo portanto a uma necessidade de expressão e de superação dos fantasmas que me habitam, como habitam qualquer pessoa, ainda que ela não dê por isso. Tudo isto se joga a níveis muito obscuros e portanto é muito difícil de explicar. Em segundo lugar, um papel de traço-de-união, de mediação entre mim e o mundo, entre mim e o outro. Às vezes a arte é a melhor maneira de dizer as coisas, mesmo as coisas banais do dia-a-dia. Resumindo: escrita e pintura são, simultaneamente e cada uma à sua maneira, o meu modo de me exprimir e de comunicar.

Como pensa estar a cultura em Trás-os-Montes e Alto Douro?
Em vias de desenvolvimento, para usar uma fórmula que a certa altura, aí pelos anos 60, se aplicou eufemisticamente a Portugal para não se dizer abertamente que era um país subdesenvolvido. Isto porque nem todos os executivos municipais se capacitaram ainda da importância da cultura. O que, numa abordagem simplista, é fácil de justificar: as populações reclamam em primeiro lugar os confortos físicos mínimos — aquilo que os ingleses designam pragmaticamente por bread and butter: a viação rural, o saneamento, a electrificação, o abastecimento de água, os calcetamentos, os cemitérios, os muros de suporte, etc, etc — e enquanto não virem essas coisas resolvidas (e também os recintos desportivos, a que é sistematicamente dada prioridade sobre os equipamentos culturais), não manifestam grandes exigências culturais. A cultura tem ainda por cima o inconveniente de ser vista por muita gente como uma coisa supérflua e por outros, mais sinistros (os tais que, quando ouvem falar dela, puxam reflexamente da pistola), como uma coisa prejudicial. É preciso mostrar a essa gente que não há nada de mais errado: a cultura não é prejudicial (salvo na óptica dos que prosperam com o obscurantismo e a incultura) nem supérflua. Não haverá progresso de nenhuma ordem se não houver progresso cultural. A cultura é que abre a porta ao resto: ao desenvolvimento, à democracia, à felicidade.

O que tem sido feito para melhorar o nível cultural desta região transmontana?
Aqui e ali vai havendo acção cultural, às vezes desgarrada, voluntarista, nem sempre devidamente alicerçada numa política coerente. Mas vai havendo, e cada vez mais. A acção cultural não costuma dar frutos imediatos, tudo isto é muito lento. Mas há muitos organismos e muitos agentes culturais em campo, individuais e colectivos, de cuja acção alguma coisa tem resultado. É pouco ainda, evidentemente, porque a cultura nunca é demais. Daí que seja fácil dizer-se que a região é uma parvónia. Mas o simples facto de reconhecermos que temos pouco significa já que somos suficientemente cultos para avaliar dessa pouquidão, primeiro passo para exigir mais. Porque a cultura não pode apenas ser oferecida de bandeja. Isso faria de nós consumidores passivos. Ao contrário, temos de ser participativos e exigentes, e a cultura tem de ser reclamada. A cultura é como a vida: temos de fazer por ela.

 
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