vai para a página do index da edição
um jornal? uma revista?
edição n.º 12 poesia [2] vítor nogueira [esq sup]
troglodýtes trogloditikós [esq inf]
paulo araújo [dir]
 

editorial

o jeito 1

o jeito 2

falar barato

torre dos coléricos

crónica de viagem 1

crónica de viagem 2

património

entrevista

etnografia

gato das botas

perfil

reportagem 1

reportagem 2

questionário

ensaio 1

ensaio 2

visão dupla

anacrónicas 1

anacrónicas 2

anacrónicas 3

poesia 1

poesia 2

apartado 51

b. d.


Colaboradores neste número: Agapito Laranjeira, Anabela Pinto, Anabela Ribeiro, António Cabral, Carlos “Cazé” Dias, Elza Garcia, Fernando Gouveia, Gil Silva, Jorge Rodrigues, José Ferreira Borges, Luís C. Teixeira, Luís D'Almada, Luís Roque, Luísa Albino, Luísa Costa, Manuel Guimarães, Maria Filomena, Paulo Leitão, Pedro Martins Colaço, Pitchu, Rui Duarte, Troglodýtes Trogloditikós, Vítor Nogueira.

ilustração de Anabela Ribeiro
ilustração de Anabela Ribeiro

Se paras, separas

Se paras, não andas, se-
paras.
Separas o caminho feito do caminho ainda...
Caminho é chão, chão é caminho.
E o chão não se separa (só quem pára).
O chão é uno
e une.
Une o antes e o agora e o depois.
E nada mais há que assim una,
que, além de chão, nada mais há.
Se paras, não andas, se-
paras.
Separas o antes e o agora e o depois.
O chão é uno, já se sabe,
e no chão se espelha tudo o mais.
Se, para parares, se-
paras,
não pares, não separes.
O chão faz-se caminhando.
E tudo é chão, tudo é caminho.
Tudo é antes e agora e depois
e luz e sal e vento
e som e cheiro.
E vida...
E infinito...
Se paras, se-
paras.
Não pares.



Cristal

Com um pouco mais de água
lhe chamariam mar
— de que espada de luz sedento?
Ontem, ceguei um gafanhoto,
na margem verde do fogo.
Hoje, encosto o rosto a um tufo de erva,
com cinco dedos sepultando
a página amarga, ou a pulsação
do campo respirado.
Remexo as fábulas...
E há golpes pagãos
que abrem na rocha bruta

o ardor dos olhos plebeus.

Canção para um dia normal


Vejo a clave do sol entre cabos eléctricos
Onde andorinhas semifusas pousam
Vejo compassos compostos de madeira — postes
Que se multiplicam no horizonte — partitura campestre
Vejo melodias impossíveis de tocar
Composições intestinais de pássaros — em decomposição
Vejo um violoncelo que se masturba
Com a batuta de Igor — o Stravinski
Vejo que o violoncelo não tem alma
(Ou se tem não a consigo ver)
Vejo um sapo que perde as asas que nunca teve
E que coaxa triste porque sabe que, na verdade,
Não se perde o que nunca se teve
Vejo que o sapo sem asas coxeia da perna esquerda
(Embora seja da direita porque a vejo num espelho)
O sapo contou-me que depois de ler a
«Metamortose» de kafka — que se escreve com K
Descobriu que não podia usar sapatos
Porque não tinha dedos para tocar viola
No entanto garantiu-me que nunca usou sapatos
Vejo um papagaio sósia do Super-Homem
E que fala como Zaratustra — ventríloquo exímio
Vejo Vénus sentada de pernas abertas virada para Meca
Vejo Camões disfarçado de homem invisível
Quando este descobriu o caminho equestre
Para a Ilha dos Amores — epopeia erótica que fala
De um sapo sem asas que não usava sapatos
E de uma princesa que, beijando o sapo,
Roubou-lhe as asas e foi viver com um papagaio
Que era amante de uma andorinha semifusa
Por quem se apaixonou um violoncelo
Que se masturbava porque parecia que não tinha alma
Vejo-me a mim próprio vendo-me num espelho
Que não é mais do que uma clave de sol electrificada
Onde se perde o horizonte e onde há um arco-íris
Com apenas sete cores a preto e branco
Vejo sete mulheres nuas em forma de caveira
Vejo um louva-a-deus com complexos de Edipo
Vejo o sexo da minha amada pintado por mim
Numa tela com dois metros e meio por três
Vejo dentro do seu sexo todo o meu amor por ela
Que é ainda maior do que a tela que pintei
Vejo a Terra como se estivesse na Lua
Numa esplanada à beira-mar a ouvir
A «Tarde em ltapoá» de Vinícius — o De Morais
Não vejo, enfim, nada que ainda não tenha visto


pabloarau@periferica.org

 
vai para o topo da página  

'Andarilho', símbolo do EITO FORA

 

transmontano sem preconceitos