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um jornal? uma revista? |
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edição n.º 12 |
perfil |
TEXTO:
rui ângelo araújo e carlos chaves
FOTOGRAFIAS:
pedro martins colaço |
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editorial
o jeito 1
o jeito 2
falar barato
torre dos coléricos
crónica de viagem 1
crónica de viagem 2
património
entrevista
etnografia
gato das botas
perfil
reportagem 1
reportagem 2
questionário
ensaio 1
ensaio 2
visão dupla
anacrónicas 1
anacrónicas 2
anacrónicas 3
poesia 1
poesia 2
apartado 51
b. d.
Colaboradores neste número:
Agapito Laranjeira, Anabela Pinto, Anabela Ribeiro, António Cabral,
Carlos “Cazé” Dias, Elza Garcia, Fernando Gouveia, Gil Silva, Jorge Rodrigues, José Ferreira Borges,
Luís C. Teixeira, Luís D'Almada, Luís Roque, Luísa Albino, Luísa Costa,
Manuel Guimarães, Maria Filomena, Paulo Leitão, Pedro Martins Colaço, Pitchu, Rui Duarte,
Troglodýtes Trogloditikós, Vítor Nogueira.
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Eurico o músico e Eurico o pintor são apenas
maneiras redutoras de dizer “o Eurico”, porque a música e a pintura, não sendo artes menores,
são nele pormenores de heterodoxia, a grande arte de ser diferente. Poderia ser uma personagem de José
Cardoso Pires.
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Eurico Gama
Eurico Gama poderia ser uma personagem de José Cardoso Pires — se não fosse um vilarrealense sobrevivo àquele escritor. No jeito de vestir e no ar genuinamente boémio de Eurico adivinham-se os mesmos trejeitos que entusiasmavam a escrita despida do autor de "Alexandra Alfa".
Eurico o músico e Eurico o pintor são apenas maneiras redutoras de dizer "o Eurico", porque a música e a pintura, não sendo artes menores, são nele pormenores da heterodoxia, a grande arte de ser diferente. Este vilarrealense de ar algo excêntrico, figura esguia, bigode e cabelos eriçados, depois de ter sido músico (tal como consta no passaporte que muito usou) e de ter organizado o Festival Internacional de Jazz de Vila Real no mítico Verão Quente de 75, é hoje um pintor com quadros espalhados pelas paredes de muito boa gente de Vila Real, mas não só. Porque a mudança é nele uma constante, de há uns tempos a esta parte abandonou a fase puramente abstracta e passou a uma fase mais figurativa. Mais comercial...
Primeiros passos
Frequentou o liceu em Vila Real até ao 2º ano e depois foi para a Angola ter com o pai. Foi lá que começou a experimentar o desenho e a pintura. Num concurso de desenho entre alunos do liceu ganhou o primeiro prémio ex-aequo com outro colega. Depois foi perdendo um pouco a capacidade de desenhar e começando a apaixonar-se pela pintura. Pintava intuitivamente, tipo máquina fotográfica. As primeiras pinturas tinham já as características cromáticas que manteve até hoje: cores muito vivas, vermelhos, verdes, amarelos, azuis. Fugia sempre das cores sombrias. Talvez influências do clima, mas já também uma forma de ver as coisas, vê-las naturalmente assim, duma forma optimista. «Como todas as pessoas, sobretudo os artistas, também me dá de vez em quando a depressão. Mas regra geral procuro ser optimista, ainda que seja um bocado céptico sobre tudo isto...»
Angola era para ele um território aberto. Embora a política fosse uma coisa proibida, em Angola era falada. Nos meios que frequentava havia um racismo um bocado selectivo. «Um preto podia entrar num cinema de brancos, mas não o fazia; podia entrar nas boates, mas não entrava. Primeiro, porque não tinham poder económico, e depois porque não se sentiam bem.» A descriminação exercia-se com subtileza requintada: «Uma vez um casal entrou no cinema com uma criada preta. Naquela altura havia idade mínima para entrar. O porteiro exigiu à criada o bilhete de identidade. Ora, naquela altura eram raros os pretos que tinham BI...» Não entrou.
Quando regressou a Portugal, com 18, 19 anos, a pintura desapareceu (quase) por completo. Estava-se em plenos anos 60: sex, drugs, and rock'n'roll. Eurico dedicou-se à música (com as drogas nunca se deu muito bem, mas sempre gostou muito de mulheres...). Nessa altura, em Vila Real, o meio era «assim um bocado tacanho». Tinha a ver com a muita repressão. «Era terrível. Uma pessoa não podia dar um passo, não podia fazer nada... Era um meio muito fechado, extremamente conservador. Muito pobre. Ainda hoje é um bocadinho. As pessoas ainda reparam muito nas coisas, embora já não seja como antigamente.
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Os conjuntos
Esteve ligado a vários conjuntos, entre os quais um «com uma certa notoriedade», o "Rangers". A coroa de glória dos "Rangers" foi um concurso que ganharam para ir tocar no casino da Póvoa do Varzim. O repertório deles era rockeiro (Beatles, Rolling Stones...), mas se iam para um baile de estudantes misturavam, «tocávamos aquelas modinhas todas, tangos, passodobles... o pimba da altura». Eurico tocava teclas, «fui dos primeiros em Portugal a ter um órgão electrónico», embora tivesse começado na música a tocar gaita de beiços. «Devo ter tido à volta de uma centena delas». Quando fez a quarta classe e admissão ao liceu a avó deu-lhe um acordeão. «Sempre tive uma intuição musical muito forte, talvez até maior do que a da pintura». Em Luanda ainda chegou a frequentar a academia de música, mas embirrava com a música escrita.
OS "Rangers" aldrabavam um bocado, mas tinham uma sonoridade «muito aceitável». O material é que era fraco, tudo muito rudimentar. Os amplificadores avariavam, começavam a fumegar, as válvulas ardiam... Depois de terem andado pela Póvoa do Varzim tinham convites de todos os sítios. «Uma vez recebemos um convite de Figueira Castelo Rodrigo. A primeira pergunta que todos fizemos foi: onde é que fica isso?» Foram à praça de táxis perguntar — não sabiam. Foram ao Turismo. «Que ficava ali para o pé de Espanha, mas não sabiam bem». Não desanimaram e meteram-se todos num carro de praça: os cinco músicos, o técnico de som, o empresário, algum material e o motorista dentro, mais material na mala e as colunas em cima. «Era o primeiro baile que havia em Figueira de castelo Rodrigo, estava gente como eu nunca vi. Não se podia dançar sequer». Tocaram até às 4 da manhã. A essa hora já só estavam a tocar três. Um estava a dormir, outro estava bêbado...
Já muito rodado nas digressões pela província e arredores, Eurico, que se dedicava em exclusividade à música, descobre o jazz «a sério». Era difícil deitar-se antes das seis da manhã, «passava a noite na vadiagem», por isso iniciava a noite ouvindo no carro a Rádio Luxemburgo, que apanhava depois das onze, meia-noite. Interessa-se de tal maneira pelo jazz que começou a estudar, a comprar livros e discos em Lisboa... «Comecei a estudar aquilo de uma forma científica». O interesse era tão grande que importava discos da América. «É claro que os discos quando chegavam aqui a Portugal eram sempre abertos para verem se aquilo não era subversivo. A certa altura os gajos deixaram de os abrir — passaram mesmo a ficar com eles». Chegou a ter 800 LP's. «Julgo que devia estar entre os 10 maiores coleccionadores de Portugal».
«Normalmente (isto não pode ser escrito), eu acabava os bailes bêbado. Às 4, 5 da manhã também já estava tudo bêbado, as raparigas já tinham ido embora, só ficavam os rapazes... Tudo bêbado. De modo que eu tocava depois o que me apetecia». Acabava os bailes com um improviso de jazz. Pegava num tema e improvisava longamente sobre ele...
De tanto "viver" o jazz, uma ideia começou a ganhar forma na sua cabeça: fazer um festival de jazz... em Vila Real. «A primeira vez que falei nisso ninguém me tomou a sério: "Está maluco. Está bêbado", diziam».
Aquilo não lhe saía da cabeça, era uma verdadeira paixão. No rés-do-chão da sua casa junto à Avenida fez uma boite. Decorou-a, pintou nas paredes «umas coisas psicadélicas, pop art e tal», pôs lá um gira-discos, umas almofadas, umas luzes vermelhas... Levava para lá o pessoal todo para lhes «ensinar jazz». Documentava-me, tinha enciclopédias, assinava revistas...
Entretanto já tinha surgido o inevitável espectro do serviço militar. «Arranjei para lá um estratagema... Disse-lhes que era meio maluco, esquizofrénico, não dava para aquilo, era um mau elemento...» Lá convenceu um médico, ou ele deixou-se convencer. «Ter ficado isento foi de facto uma coisa muito boa, porque senão tinham-me obrigado a fugir, ir embora, como foram milhares deles».
Nessa altura o conjunto já tinha acabado, o pessoal estava na tropa e um tinha morrido de acidente no Marão. Restava o Eurico. «Não havia ninguém para tocar e portanto eu não estava aí a fazer nada. Tinha uma consciência política muito forte e era difícil ter alguém com quem conversar. Desconfiava-se do vizinho... Eu tinha um grande ódio à situação política. Não poder exprimir-me era uma coisa que não me entrava na cabeça. Um gajo não poder dizer nada!... De modo que um dia qualquer fiz uma mala, meti-me num avião e fui embora. Fui para Paris.»
Antes disso tinha-se casado. E divorciado. Ao fim de 24 horas. «Foi o terceiro divórcio mais rápido do país.» O casamento de Eurico foi fugaz, mas já havia substituta, «eu sempre gostei muito de mulheres». Foi com ela que foi encontrar-se em Paris. Nessa altura a sua fonte de rendimento eram os pais. A mãe dava umas explicações de francês. Foi com ela que aprendeu a falar francês. «Sempre gostei da língua francesa. Por qualquer motivo obscuro...» O pai ainda estava em Angola.
Daquela ex-colónia portuguesa ficaram-lhe as exóticas histórias do pai e o gosto por viajar. Aproveitando o início das hostilidades e as desculpas que isso proporcionava, fazia as viagens que lhe dava no goto. «Eles estavam a carregar os aviões e nós pedíamos: "Ó sr. sargento, o meu pai está no Lobito, gostava de ir lá vê-lo mas não tenho dinheiro para a viagem..." Lá íamos. Chegávamos ao Lobito, ou outro sitio, dávamos uma volta e regressávamos ao aeroporto. "Ó sr. sargento tenho a minha mãe doente, chegou agora da Metrópole..." Corria-se Angola inteira assim.»
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Paris é uma festa
Vai então para Paris em 1972/73. «Aquilo era um mundo». No passaporte constava a sua profissão: músico. A primeira impressão que teve de Paris foi "engraçada": «andei 45 minutos e não conseguia sair do aeroporto de Orly. Eu bem seguia as indicações de "sortie" mas entrava num corredor que dava para uma coisa que ainda dava para uma outra... Como o aeroporto é todo espelhado, eu via a rua, as pessoas, os carros, mas não conseguia sair dali. A certa altura agarrei numa hospedeira e disse-lhe: "Tem que vir comigo e dizer-me como é que se sai desta coisa!" E ela lá veio».
Encontrou lá portugueses. Pessoal que tinha saído da tropa, anti-colonialistas ferrenhos, anti-salazaristas... «Tudo assim muito chateado. Havia uma certa mágoa, havia revolta, estavam separados dos pais, dos amigos... Num país que, apesar de acolher razoavelmente bem os portugueses, era um país onde as pessoas, saídas aqui deste buraco, tinham muita dificuldade em se situar.»
Com a profissão estampada no passaporte, o seu destino seria inevitavelmente os clubes e as discotecas de jazz, que frequentaria todas as noites. Começou a contactar com músicos. Muitos deles nem sabiam onde ficava Portugal. «Eu tinha muita vontade de saber tocar jazz. Punha-me ao pé dos pianistas a vê-los tocar. A certa altura já tinha lá uns compinchas. Não falávamos muito, mas àquelas horas já era difícil falar porque já estava tudo muito bêbado. Conheci aquele terreno muito bem.»
Ainda arranjou um ou outro emprego, mas não se aguentava lá com o sono. Continuava a aumentar a sua colecção de discos e chegou a comprar discos ao quilo. «Havia discos que após um ano não vendiam e os gajos punham-nos na montra: "ao quilo, 5 francos". Eu, apesar de espantado, só pensava quantos LP's teria um quilo...».
Frequentou também os piores antros de Paris. «Lugares tenebrosos, onde parava pessoal mesmo do piorio, putas... Nesses sítios encontravam-se velhotes que lá tocavam à noite os seus pianos, os seus trompetes... Tinham tido a sua época há 30, 40 anos. E agora estavam para ali esquecidos, já ninguém se lembrava deles. Aprendiam-se muitas coisas com eles, embora não gostassem de ensinar. Eram gajos interessantes, sempre bêbados, já assim completamente decadentes. Estavam à espera de morrer por ali. Lá tocavam, lá se emborrachavam, recebiam dinheiro para pagar o quarto e era a vida deles».
A partir de determinada altura já viajava frequentemente entre Portugal e França e começou a alargar o raio de acção. «Um dia ia a passar numa rua e vi um papel que dizia: "Ida e volta a Londres,100 francos". Pensei: isto é de graça. O melhor é a gente ir até Londres... Lá também há um jazz e tal...» Uma viagem curiosa. Eurico, paradoxalmente, tinha medo de andar de avião. «Eu só entrava no avião já bêbado. Quando fui tomar o autocarro reparei que não íamos para Orly. Fomos para um aeroporto da segunda Grande Guerra a 30 quilómetros.... Quando cheguei lá e vi um avião a hélices, velho, pensei, ai meu Deus, eu morro aqui!...» Devia ter desconfiado. Lá foi para Londres, mas não gostou muito do clima. «Paris, é uma cidade mais alegre».
Em Inglaterra conheceu um algarvio que era especialista em roubar bifes nos supermercados, entre outras "tarefas". Numa ocasião, Eurico ia com o algarvio e viu, numa montra, umas calças de veludo, cor violeta, porreiras. Ficou apaixonado, mas olhou para o preço e o coração partiu-se-lhe. «Gostas das calças?», diz o algarvio, «espera aí que eu vou-tas buscar». Entrou lá dentro e saiu com três pares de calças vestidas...
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O Festival de jazz
Quando Eurico voltou a Vila Real começou a procurar apoios para o festival de jazz. «O jazz na altura, com o advento da democracia, já não era aquele bicho-papão, mas ainda era um bicho de sete cabeças.» Toda a gente lhe perguntava: «O que é isso de jazz? Não é uma música de pretos?... E vêm muitos pretos?...». Conseguiu vários apoios das instituições vilarrealenses e em Junho de 1975 lá fez o 1º Festival Internacional de Jazz de Vila Real. A designação de internacional manteve-se à custa dum um saxofonista estrangeiro que tocava numas das bandas, já que a atracção principal falhou.
Mas naquele pavilhão gimnodesportivo, local onde se realizou o festival, não cabia nem uma agulha. Estava completamente cheio. Veio gente de Espanha, do Algarve. Muita gente.
O festival realizava-se Sábado e Domingo. Na Sexta-feira, «esta cidade estupefacta começa a ver chegar uns gajos com uns grandes cabelos, de rabo-de-cavalo, todos sujos, de mochilas, tendas, todos com o seu haxixe (em 75 estávamos no país mais livre do mundo).» Os vilarrealenses começam a ficar aterrorizados. Havia pessoas que telefonavam: «Quem é esta fauna? Estamos desgraçados, temos que fechar as portas.» Ele lá dizia que não havia problema nenhum...
O Rao Kyao era a grande vedeta do jazz em Portugal e esteve no festival. Curiosamente, esteve também o Rui Reininho com o Jorge Lima Barreto. «O Lima Barreto tocava um sintetizador que já na altura era programado, e o Rui Reininho tocava guitarra "traficada". (Eu nunca entendi porque lhe chamava guitarra "traficada")... Toda a gente percebeu que eles não sabiam pura e simplesmente tocar. Como nunca souberam...» Eurico é «amicíssimo» dos dois...
Animado com o primeiro festival, Eurico fez o segundo. Neste 2º queria dar-lhe um carácter mais internacional. Foi a França contactar agências que intermediavam contratos com músicos. «Eu na altura tive o cuidado de trazer aí gajos, que não eram grandes vedetas (porque nem havia dinheiro para isso), mas eram nomes importantes no jazz. Vieram aí estrangeiros jeitosos. O segundo festival é que foi verdadeiramente internacional».
Mas, o "verão quente" já havia passado, e surgiu a vontade de boicotar a realização do segundo festival. O país estava politicamente mais organizado. «Havia boicotes desde a direita à esquerda. Fizeram-me aí a vida negra. Havia um gajo que não me podia ver, tinha-me um tal ódio (não sei porquê, nunca lhe tinha feito mal nenhum)... Ele tinha uma certa influência no desporto e conseguiu marcar um jogo de andebol, que não podia ser adiado, para o dia principal do festival, o Domingo.» A velha guarda vilarrealense, que em 74/75 tinha ficado na retranca, assustada, em 76 já deitava as garras de fora. Não lhes era muito simpática a ideia de voltar a ver gente de mochila e visual "impróprio" a acampar na Avenida. Este segundo festival «não deu prejuízo quase milagrosamente, porque o pessoal no Sábado ainda compareceu, mas no Domingo apareceu pouca gente».
O jogo de andebol realizou-se. «Eu ainda falei com o Governador Civil da altura, mas ele era fraquito, embora fosse do PS — o PS na altura ainda era de esquerda, não era a merda que é hoje».
Passados uns anos, Eurico encontrou, num concerto no Porto, um dos grupos que tinham estado no 2º festival, o Free Jazz Workshop de Lyon. «Eu estava nas primeiras filas. Eles chegaram e disseram que já uma vez tinham tocado em Portugal no festival de Jazz Internacional de Vila Real. Depois até lhes fui agradecer aos camarins aquela menção». Um dos tipos disse-lhe: «Eu lembro-me bem. Houve um jogo de andebol a meio, até foi porreiro, sentamo-nos na bancada ficamos também a ver. Não jogavam mal...».
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Regresso à pintura
Nos anos seguintes continuava a receber contactos, cartas, telefonemas a perguntar quando era o próximo festival. Eurico estava desiludido. «Esta gente não merece estas merdas, é gente obtusa, quadrada... Eu quero ver um festival de jazz vou à Suíça, vou a Haia, vou onde me apetecer, não estou para aturar esta mediocridade...» Não se realizou mais nenhum festival. Na opinião de Eurico, Vila Real poderia ter-se desenvolvido um pouco à custa do festival, tal como Montreux.
Acabado o festival vem-lhe novamente a mania de pintar. Continuava a ir a Paris, à Holanda, a Inglaterra... Já se tinha separado, já tinha casado com outra (fê-lo várias vezes)... Ia e vinha, tocava esporadicamente nos conjuntos. Nessa altura conheceu em Paris um tipo que tinha pertencido ao partido comunista português desde muito cedo e que tinha fugido (era distribuidor do "Avante", que também se vendia em Paris). Esse tipo trabalhava numa galeria de pintura. Eurico começou a frequentar essa galeria e depois outras. «Nas vernissages era tudo pessoal bem vestido. Eles viam-nos assim mais mal vestidos, sobretudo eu que andava sempre abandalhado (sempre detestei vestir-me bem), mas a gente entrava, comia e bebia, fingia que apreciava os quadros...»
Começou então a fazer uns desenhos, uns guaches e um dia até os expôs naquela galeria. «Quer dizer, não era assim uma exposição... Tinha-os lá assim num sítio qualquer, as pessoas entravam, viam... É claro, passavam pelas minhas obras e nem ligavam...» Aquilo animou-o um bocado. Comprou uns livros, e começou a ir para «o grande santuário parisiense da pintura que é Montmartre, onde há aqueles pintores de rua, os ateliers...» Os pintores são como os músicos, param nos bares. No seu ambiente, Eurico acaba por conhecer alguns pintores. «Uns que não pintavam nada, outros que estavam ali para justificar aos pais a mensalidade e faziam que pintavam...» Lá foi aprendendo aqui e além, vendo como é que os tipos faziam. «Podia chegar aí e dizer que estive com os grandes mestres, mas não. Os grandes mestres vivem e trabalham em grandes apartamentos, os outros é que vivem lá naqueles atelieres, sítios que têm uma mesa, um divã e um fogareiro para fazer o café... Mas encontravam-se pessoas com algum talento...» Os pintores de Montmartre quando estavam «muito tesos» vendiam o cavalete, mas com Eurico não faziam negócio. O seu modo de pintar é muito peculiar. «Pinto em cima de uma mesa. Nunca me habituei muito ao cavalete. »
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Regressou a Vila Real, mas não ficou por cá muito tempo. Em Vila Real não havia uma galeria de pintura e nem se falava de pintura. Nem sequer havia sítio para expor. Depois de se casar (de novo) com uma conterrânea que era professora no Porto, mudou-se para a "Invicta". Durante os dezassete anos que ficou no Porto foi vivendo da pintura e de alguns trabalhos esporádicos. E separou-se.
Agora vive novamente em Vila Real há dois anos e meio. Continua a fazer da pintura o seu modo de viver, por isso vai expondo um pouco por todo o país. Entre exposições dá asas à sua vertente ecológica e de amigo dos animais. Para além de militar numa associação, Eurico vai fazendo campanhas de sensibilização na vizinhança. Àqueles mais renitentes em tratarem os animais com o respeito e a dignidade que eles merecem, Eurico lembra as chamas do Inferno... O que, numa região de tão forte pendor religioso, tem os seus resultados. Tal como ir à missa, se não for pela vontade de fazer o bem, que seja pelo medo do Inferno. Nada mau para um ateu...
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transmontano sem
preconceitos |
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