Se a lenda é, em última análise, uma simbiose entre a História e a Ficção, então, a pesquisa baseada na tradição oral deve ser uma constante. Sobretudo para quem, literariamente, se entusiasma por este género. Procuram-se sucessos duvidosos e fantásticos, apoiados às vezes em feitos históricos.
A origem do topónimo poderá estar ligada ao Alto de S. Pedro, um monte ligeiramente mais elevado que se confunde com o nosso lugar. Como um gémeo siamês! O outro filho seria, nesta perspectiva, S. Pedrinho. Ou um S. Pedro mais pequenino...
A intervenção humana apenas deixou restos de muros erguidos sobre fragas e montes de pedras soltas a indicar algumas casas primitivas. Marcas que não permitem levantar a hipótese da existência de uma muralha ancestral. Aliás, esta carece de fundamento quer pela ausência de argumentos históricos como pela própria geografia do local. Agreste por natureza!
A sua situação geográfica, integrada na freguesia de Póvoa de Agrações, sugere a ideia de ter sido um local de refúgio e de defesa, primordialmente, durante os tempos da Reconquista Cristã. As inquirições de D. Afonso III fazem alusão a essas "pobras" como importantes baluartes naturais de estratégia militar. De qualquer modo, a vertente etimológica indicando que o termo "póvoa" significa povoação mais pequena, também aqui não perde veracidade.
É possível que anteriormente tenha existido um castro, por vezes "falado" na sintonia popular, a partir do qual assentou S. Pedrinho. Até porque, este poderia ser utilizado pelos naturais perante ataques insistentes de invasores. Todavia, com ou sem formigas, é provável que, durante a romanização, o agrupamento indígena, sediado em S. Pedrinho, fosse obrigado a descer ao vale de Ribeira d'Oura para criar um colectividade agrícola (villae). Neste caso, Vila Verde de Oura. À procura de vinho, azeite e prado(s) Verde(s)... Pela mesma razão existem outros topónimos como Vilarinho, Vilela, Vilarelho, etc. Estas villae primitivas deram mais tarde origem às paroquias rurais.
Interessante é também verificar que este local fica, paradoxalmente, isolado e próximo de duas vias historicamente importantes. A primeira era romana e vinha de Espanha. Admite-se que partia de Lugo (Lucum Augusti) passava por Chaves (Aquae Flaviae), Vila Verde de Oura — a escassos quilómetros de S. Pedrinho —, Campo Mineiro de Jales até à Régua (Durim). A outra era um troço da via medieval, integrada nos Caminhos de Santiago, entre Rabal (Espanha) e o Vale Sul de Vila Pouca de Aguiar. Assim se compreende a existência da freguesia de Santiago em Oura — não muito longe do sítio que estamos a observar — e as capelas de S. Tiago em Vila Meã, perto de Vila Pouca e Eiras, nas proximidades de Chaves.
As condições de acessibilidade são, talvez, as primeiras a afastar a hipótese de ser uma aldeia, na verdadeira acepção do termo. Com espaços comunitários, locais de culto e alma colectiva. Numa breve pesquisa no Arquivo Distrital de Vila Real1 e tendo por base uma barra cronológica situada entre os finais do século XVI e os finais do século XIX, não encontramos baptismos e/ou casamentos com personagens oriundas especificamente de S. Pedrinho. Isto apesar do insubstituível «Diccionario Chorographico de Portugal» (1948) referenciar S. Pedrinho como «lugar da freguesia da Póvoa, concelho e comarca de Chaves».
As narrativas populares, sempre sujeitas a alterações provocadas pela tradição, descrevem S. Pedrinho como uma "aldeia desaparecida do mapa" após uma invasão de formigas. Pragas de machos alados (vulgarmente designados formigas-de-asa...) decidiram formar um nova colónia e propagar a espécie. Procriar. Nunca trabalhar. Sortudos! A natureza biológica diferenciou-os exclusivamente para essa tarefa vital. O local parece, à primeira vista (...de leigo na matéria), propício para instalar a tal comunidade de insectos formigantes. Resistente aos ares quentes do Verão, torna-se inexpugnável às tempestades durante a hibernação. Os curiosos instintos sociais das formigas parece que, mais uma vez, não falharam! Mais. Aqui encontram substância alimentar em abundância: larvas, madeira e gramíneas selvagens. Para mais tarde manjar...
Incomodados, até porque algumas são nocivas, pastores e animais abandonaram paulatinamente o lugar. Mesmo sabendo que a fonte de água existente nesse lugar, nunca secou. O refúgio de guerreiros, pastores e mouros não resistiu à formiga! Relativamente a estes últimos interessa verificar que, não obstante o breve domínio que exerceram na região, sempre foram classificados como bodes expiatórios. Causadores do mal. Profanadores de almas puras. Enfim, hereges na razão e no instinto.
Se tinham santo protector, já em plena consolidação do Cristianismo, levaram-no para Fernandinho (aldeia vizinha). Embora, nesta localidade a padroeira seja outra e o S. Pedro popular também não é festejado por esta comunidade aldeã. De repente, este local torna-se profano. Por isso não estranha, ainda hoje, falar-se, que utilizando o Livro de S. Cipriano, existiam pedras que se abriam para deixar sair os espíritos.
S. Pedrinho requer metodologicamente um conjunto de entrevistas orais, exaustivas e organizadas, para poder estruturar a Lenda. Deste modo, muitas coisas ficaram por dizer. Mesmo assim, ousar uma explicação foi o nosso objectivo. No fundo, foi para isto que se inventaram as lendas. Preenche o imaginário colectivo perante o caos e esvazia as dúvidas no universo dos porquês. Assim se satisfaz o animal humano. Com santos. Lugares. Histórias. De formigas. E outras coisas mais.