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edição n.º 12 património luís c. teixeira  

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poesia 2

apartado 51

b. d.


Colaboradores neste número: Agapito Laranjeira, Anabela Pinto, Anabela Ribeiro, António Cabral, Carlos “Cazé” Dias, Elza Garcia, Fernando Gouveia, Gil Silva, Jorge Rodrigues, José Ferreira Borges, Luís C. Teixeira, Luís D'Almada, Luís Roque, Luísa Albino, Luísa Costa, Manuel Guimarães, Maria Filomena, Paulo Leitão, Pedro Martins Colaço, Pitchu, Rui Duarte, Troglodýtes Trogloditikós, Vítor Nogueira.

texto marginal (sinopse, apresentação, citação, etc.) — eventualmente aparece antes da imagem; pode também haver mais do que uma imagem, ou nenhuma.

S. Pedrinho e as formigas


S. Pedrinho tipifica aquele filho da mãe-natureza que permanece incógnito e resistente à perda definitiva da virgindade. Quase intocável perante o assédio do homem, assume a condição de varão que se preza. As múltiplas fragas graníticas, ou os testículos petrificados ali poisados, representam a força do homem mas também a sua defesa perante o inimigo. O diabo. A mulher. O diabo da mulher. As bruxas. Mouros. Lobos e formigas!

As árvores amputadas são o único sinal de profanação, mas suficiente para solicitar a intervenção divina. Onde param os deuses?

Algures, entre as fraldas da serra Padrela e a Ribeira d'Oura, ergue-se o dito cujo S. Pedrinho. Lugar, por excelência, ainda desconhecido dos pseudonaturalistas urbanos, sempre prontos a "atacar" a natureza. Depois, paradoxalmente, está servido por caminhos e outros carreiros agrestes e confusos. Factores que dificultam a elaboração de um Road Book. Ainda bem!

Deste modo, S. Pedrinho torna-se num daqueles lugares que só nos agrada pela simplicidade que patenteia. Recanto único de Trás-os-Montes? Não! Caso contrário, cairíamos em slogans exageradamente repetitivos e de um regionalismo preconceituoso.

Se pensa visitar S. Pedrinho... não o faça! Ficaria desiludido. Morros de pedras. Megálitos. Mas se insiste então conheça algumas singularidades que gravitam à volta do Santo (?). Estórias da história e oralidades pervertidas. Ditos ancestrais e realidades ficcionadas. Necessariamente explicações inacabadas.

Enfim, buscamos um sujeito — o imaginário colectivo — a parir um objecto feminino — a LENDA. Sim, essa figura literária de corpo andrógino, estruturada de imaginação feminina e historicismo masculino.

 


Se a lenda é, em última análise, uma simbiose entre a História e a Ficção, então, a pesquisa baseada na tradição oral deve ser uma constante. Sobretudo para quem, literariamente, se entusiasma por este género. Procuram-se sucessos duvidosos e fantásticos, apoiados às vezes em feitos históricos.

A origem do topónimo poderá estar ligada ao Alto de S. Pedro, um monte ligeiramente mais elevado que se confunde com o nosso lugar. Como um gémeo siamês! O outro filho seria, nesta perspectiva, S. Pedrinho. Ou um S. Pedro mais pequenino...

A intervenção humana apenas deixou restos de muros erguidos sobre fragas e montes de pedras soltas a indicar algumas casas primitivas. Marcas que não permitem levantar a hipótese da existência de uma muralha ancestral. Aliás, esta carece de fundamento quer pela ausência de argumentos históricos como pela própria geografia do local. Agreste por natureza!

A sua situação geográfica, integrada na freguesia de Póvoa de Agrações, sugere a ideia de ter sido um local de refúgio e de defesa, primordialmente, durante os tempos da Reconquista Cristã. As inquirições de D. Afonso III fazem alusão a essas "pobras" como importantes baluartes naturais de estratégia militar. De qualquer modo, a vertente etimológica indicando que o termo "póvoa" significa povoação mais pequena, também aqui não perde veracidade.

É possível que anteriormente tenha existido um castro, por vezes "falado" na sintonia popular, a partir do qual assentou S. Pedrinho. Até porque, este poderia ser utilizado pelos naturais perante ataques insistentes de invasores. Todavia, com ou sem formigas, é provável que, durante a romanização, o agrupamento indígena, sediado em S. Pedrinho, fosse obrigado a descer ao vale de Ribeira d'Oura para criar um colectividade agrícola (villae). Neste caso, Vila Verde de Oura. À procura de vinho, azeite e prado(s) Verde(s)... Pela mesma razão existem outros topónimos como Vilarinho, Vilela, Vilarelho, etc. Estas villae primitivas deram mais tarde origem às paroquias rurais.

Interessante é também verificar que este local fica, paradoxalmente, isolado e próximo de duas vias historicamente importantes. A primeira era romana e vinha de Espanha. Admite-se que partia de Lugo (Lucum Augusti) passava por Chaves (Aquae Flaviae), Vila Verde de Oura — a escassos quilómetros de S. Pedrinho —, Campo Mineiro de Jales até à Régua (Durim). A outra era um troço da via medieval, integrada nos Caminhos de Santiago, entre Rabal (Espanha) e o Vale Sul de Vila Pouca de Aguiar. Assim se compreende a existência da freguesia de Santiago em Oura — não muito longe do sítio que estamos a observar — e as capelas de S. Tiago em Vila Meã, perto de Vila Pouca e Eiras, nas proximidades de Chaves.

As condições de acessibilidade são, talvez, as primeiras a afastar a hipótese de ser uma aldeia, na verdadeira acepção do termo. Com espaços comunitários, locais de culto e alma colectiva. Numa breve pesquisa no Arquivo Distrital de Vila Real1 e tendo por base uma barra cronológica situada entre os finais do século XVI e os finais do século XIX, não encontramos baptismos e/ou casamentos com personagens oriundas especificamente de S. Pedrinho. Isto apesar do insubstituível «Diccionario Chorographico de Portugal» (1948) referenciar S. Pedrinho como «lugar da freguesia da Póvoa, concelho e comarca de Chaves».

As narrativas populares, sempre sujeitas a alterações provocadas pela tradição, descrevem S. Pedrinho como uma "aldeia desaparecida do mapa" após uma invasão de formigas. Pragas de machos alados (vulgarmente designados formigas-de-asa...) decidiram formar um nova colónia e propagar a espécie. Procriar. Nunca trabalhar. Sortudos! A natureza biológica diferenciou-os exclusivamente para essa tarefa vital. O local parece, à primeira vista (...de leigo na matéria), propício para instalar a tal comunidade de insectos formigantes. Resistente aos ares quentes do Verão, torna-se inexpugnável às tempestades durante a hibernação. Os curiosos instintos sociais das formigas parece que, mais uma vez, não falharam! Mais. Aqui encontram substância alimentar em abundância: larvas, madeira e gramíneas selvagens. Para mais tarde manjar...

Incomodados, até porque algumas são nocivas, pastores e animais abandonaram paulatinamente o lugar. Mesmo sabendo que a fonte de água existente nesse lugar, nunca secou. O refúgio de guerreiros, pastores e mouros não resistiu à formiga! Relativamente a estes últimos interessa verificar que, não obstante o breve domínio que exerceram na região, sempre foram classificados como bodes expiatórios. Causadores do mal. Profanadores de almas puras. Enfim, hereges na razão e no instinto.

Se tinham santo protector, já em plena consolidação do Cristianismo, levaram-no para Fernandinho (aldeia vizinha). Embora, nesta localidade a padroeira seja outra e o S. Pedro popular também não é festejado por esta comunidade aldeã. De repente, este local torna-se profano. Por isso não estranha, ainda hoje, falar-se, que utilizando o Livro de S. Cipriano, existiam pedras que se abriam para deixar sair os espíritos.

S. Pedrinho requer metodologicamente um conjunto de entrevistas orais, exaustivas e organizadas, para poder estruturar a Lenda. Deste modo, muitas coisas ficaram por dizer. Mesmo assim, ousar uma explicação foi o nosso objectivo. No fundo, foi para isto que se inventaram as lendas. Preenche o imaginário colectivo perante o caos e esvazia as dúvidas no universo dos porquês. Assim se satisfaz o animal humano. Com santos. Lugares. Histórias. De formigas. E outras coisas mais.

 


Bibliografia

BARRADAS, Lereno A. — Vias romanas das regiões de Chaves e Bragança in «Revista de Guimarães», Separata do volume LXVI, Guimarães, 1956.

MONTALVÃO, António — Notas sobre vias romanas em terras flavienses, Bragança, Escola Tipográfica, 1971.

PEREIRA, Manuel J. — Cem anos de progresso de um povo (Vidago), Lisboa, Oficinas S. José, 1965.

TABOADA, Jesus — A Alta Idade Média na região superior do Tâmega in «Revista de Guimarães», Separata do volume LXVI, Guimarães, 1956.

VÁRIOSCaminhos Portugueses de Peregrinação a Santiago, Xunta de Galicia/Centro Regional de Artes Tradicionais, Alva Gráfica, 1995.


1 FREGUESIA DE PÓVOA DE AGRAÇÕES

Secção Temática

N.º do Livro Data(s) Concelho
Baptismos 001 1615 a 1716 Carrazedo de Montenegro
Casamentos 027 1596 a 1616 Carrazedo de Montenegro
Baptismos 026 1872 Chaves
Casamentos 044 1872 Chaves

 
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