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editorial
o jeito 1
o jeito 2
falar barato
torre dos coléricos
crónica de viagem 1
crónica de viagem 2
património
entrevista
etnografia
gato das botas
perfil
reportagem 1
reportagem 2
questionário
ensaio 1
ensaio 2
visão dupla
anacrónicas 1
anacrónicas 2
anacrónicas 3
poesia 1
poesia 2
apartado 51
b. d.
Colaboradores neste número:
Agapito Laranjeira, Anabela Pinto, Anabela Ribeiro, António Cabral,
Carlos “Cazé” Dias, Elza Garcia, Fernando Gouveia, Gil Silva, Jorge Rodrigues, José Ferreira Borges,
Luís C. Teixeira, Luís D'Almada, Luís Roque, Luísa Albino, Luísa Costa,
Manuel Guimarães, Maria Filomena, Paulo Leitão, Pedro Martins Colaço, Pitchu, Rui Duarte,
Troglodýtes Trogloditikós, Vítor Nogueira.
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Anabela Pinto é
investigadora na Universidade de Cambridge no âmbito do comportamento e bem-estar animal
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Anda tanta gente a passar fome...
Um dos argumentos mais frequentemente utilizados pelas pessoas desinteressadas na
qualidade de vida dos animais, consiste na comparação com a pobreza que grassa em muitas
populações humanas por esse mundo fora e até mesmo no nosso país. O que mais me irrita
quando ouço um argumento desta natureza é que geralmente eles saem da boca de pessoas que provavelmente
nunca deram tostão para organizações de ajuda ao terceiro mundo. De facto, o que essas pessoas se
esquecem é que a miséria em que vive a grande maioria da população não é
devida ao facto de se usarem recursos económicos na elaboração de políticas ou leis que
visam a protecção dos animais, mas sim à exploração dos países
tecnologicamente mais avançados sobre os países do terceiro-mundo.
A miséria em que essas pessoas vivem é devida ao facto de que as pessoas dos
países ricos querem comprar três vídeos e quatro televisões ao preço da chuva,
calçar sapatos da moda e ténis de marca que custam a menina-dos-olhos, mas cuja manufactura é
paga com salários de miséria, muitas vezes usando trabalho infantil. O problema principal é que o
lucro resultante da diferença entre o salário pago ao operário e os preços exorbitantes
pagos pela vaidade do cidadão dos países mais desenvolvidos não vai ser usado para matar a fome
ou acabar com a pobreza. Quando alguém me diz que há por aí tanta gente com fome, eu pergunto, o
que é que o meu interlocutor tem feito para minimizar essa fome?
Não estou a ver como é que comprar umas latas de comida para gato no supermercado da
esquina, ou evitar que os animais de circo sejam maltratados vá contribuir para o aumento da fome no mundo.
Também não posso ver nenhuma relação de consequência entre o aumento da
sensibilização social para o problema da crueldade contra os animais e a persistência da
miséria humana.
Da mesma forma que ser um fanático do Futebol Clube de Trás-do-Sol-Posto não
exclui necessariamente ser-se católico e ir de joelhos a Fátima até sangrar, também
não estou a ver qual a razão porque um humanista que se preocupa com a pobreza não se deve
também preocupar com o bem estar dos animais. Uma coisa não exclui a outra e na realidade, verdadeiros
humanistas, geralmente são pessoas suficientemente iluminadas para sentirem da mesma forma pelos animais.
Aqueles que geralmente usam a pobreza humana como argumento de rejeição da
protecção animal, estão na realidade a tentar sublimar a sua culpa por não fazer nada para
mudar a situação. De facto, na maioria dos casos nem sequer fazem o que quer que seja pelas outras pessoas.
Da mesma forma que as calças nada têm a haver com aquela parte arredondada que se
encontra no fim das costas, também a crueldade e sofrimento dos animais não tem muita relação
com a miséria humana. No entanto o reverso já não é a mesma coisa. A crueldade para com os
animais está frequentemente associada com a miséria não só económica como
também moral e cultural de certos grupos sociais humanos.
Numa sociedade democrática, cada cidadão tem o direito de investir os seus recursos
económicos naquilo que muito bem entender. Não vejo razão por que pagar uma quota mensal para
um clube de futebol que paga salários astronómicos a uma dúzia de indivíduos para correr
durante 2 horas atrás de uma bola tem mais valor do que pagar para um associação que luta contra
a crueldade para com os animais. De facto, seríamos tentados a dizer que entre os jogadores de futebol e os
animais há um ponto em comum. Nenhum destes grupos contribui para a sociedade. Mas depois de uma análise
mais pormenorizada, de facto os animais contribuem muito mais do que os futebolistas, pois enquanto os primeiros
servem para alimentar populações, servem para experimentar novos medicamentos, servem para amenizar
momentos de solidão, os jogadores servem-se a eles próprios e a mais uma meia dúzia de gerentes
e agentes que também comem à conta da jogada. De facto, a única contribuição para
a sociedade de um jogo de futebol consiste em alienação ou, em certos casos, leva mesmo a violência
paranóica apenas comparável as guerras tribais de sociedades primitivas.
Numa sociedade democrática e respeitadora dos direitos dos cidadãos, deve haver lugar
para todos os gostos. Futebolistas e os seus fãs, musica pimba e música clássica, arte moderna e
folclore, cristãos e ateus, homo e heterossexuais, animais e pessoas.
O fulcro desta questão é que, pobres ou ricos, os humanos podem escolher. Podem votar,
lutar, protestar, fazer greves, manifestações, atentados, complots, coligações,
associações de defesa dos seus direitos. Por outro lado, os animais sob o domínio dos humanos,
não têm opções senão sucumbirem ao mundo que os humanos lhes proporcionam. Porque
nós os humanos temos o controle, é nossa responsabilidade aprender mais sobre as necessidades de cada
animal e proporcionar-lhes o ambiente adequado à sua espécie. |
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