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anacrónicas 1
anacrónicas 2
anacrónicas 3
poesia 1
poesia 2
apartado 51
b. d.
Colaboradores neste número:
Agapito Laranjeira, Anabela Pinto, Anabela Ribeiro, António Cabral,
Carlos “Cazé” Dias, Elza Garcia, Fernando Gouveia, Gil Silva, Jorge Rodrigues, José Ferreira Borges,
Luís C. Teixeira, Luís D'Almada, Luís Roque, Luísa Albino, Luísa Costa,
Manuel Guimarães, Maria Filomena, Paulo Leitão, Pedro Martins Colaço, Pitchu, Rui Duarte,
Troglodýtes Trogloditikós, Vítor Nogueira.
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Viva a Cultura Popular
Depois do Carnaval, segundo o calendário, a Semana Santa e a Páscoa
constituem momentos eufóricos da expansão lúdica do nosso povo.
Eufóricos? — perguntar-se-á em relação aos dias comemorativos da
Paixão de Cristo. Esses dias são de luto e, por isso, de reflexão dolorida para os
cristãos. A euforia, essa, começa com a festa da Ressurreição. Resposta: sim e não.
Sim, quanto à memória de padecimentos expressa numa liturgia adequada em que os tons roxos e negros
dominam todas as cerimónias religiosas. Não, se tivermos em conta os aspectos festivos das
comemorações, o seu carácter lúdico, enquanto fonte de prazer que recorre a meios
expressivamente simbólicos, quase se autonomizando da sua origem. Estão neste caso dois costumes que
vamos aqui referir: o Enterro do Bacalhau e o Auto da Paixão.
O ENTERRO DO BACALHAU
É certo que o enterro do fiel amigo, como enterro, não é um costume lá
muito original. Enterros culturais há outros: os do Entrudo, da Morte, de Judas, do Pai da Carne ou Pai da
Fartura, por ai fora, sem esquecer o do Galo que ocorria na Quarta-feira de Cinzas. Verdade, verdadinha, o
préstito fúnebre do bacalhau é a resposta vingativa ao do Galo. Esta a simbolizar o adeus
à carne — carne vale (ou carne levamen — supressão da carne).
O dia a calhar era o de Sábado de Aleluia em que repicavam os sinos e as flores vinham do
campo para as ruas ainda com o ouro das abelhas. Hoje, a aleluia é no Domingo de Páscoa, mas não
foi por isso que o enterro do bacalhauzinho foi esmorecendo, até desaparecer na maior parte dos lugares. Os
costumes, como tudo o que é vivo, nascem, crescem, vivem e morrem. Dantes, era uma festança de fazer
roncar a pirucha — dito de pessoa que eu conheço — e, em Vila Real, conta-nos Chico Costa em “Crónicas
da Vila” (1987) que o farrancho era mesmo espectacular. “À frente, um esquadrão de cavalaria, com terno
de clarins, da 'tropa' do Matadouro, abria o cortejo”. E outros arremedos de tropas vinham de diferentes bairros.
“Um bacalhau enorme, feito de cartão, enfiado num garoto, seguia escoltado pelos últimos militares”. E
havia carrascos, juizes, advogados. E testemunhas: “as de acusação estavam a cargo dos criados dos
talhos; as testemunhas de defesa eram marçanos das mercearias”. E havia também archotes no meio do povo,
grotescamente lamuriento, com destaque para o coro de carpideiras. Finalmente, após julgamento, o bacalhau era
enforcado, enquanto se ouviam quadras humorísticas, como esta dos merceeiros:
Morre de morte macaca, como todos estais a ver! Só comereis carne barata, quando o boi da Cambra morrer.
Ora digam lá que não era bonito. Como bonito foi, neste ano, Terça-feira Gorda,
o Enterro em Vilarandelo. Não pude assistir, por motivo de outra ocupação, mas disseram-me — a
Victória que estagia na Delegação do INATEL, que até fez filme e tudo — que foi um cortejo
e peras. A comissão organizadora deu-lhe o nome de Enterro do Entrudo, mas muita gente das redondezas e
até de Vilarandelo entende a acção como Enterro do Bacalhau. O Entrudo era representado por um
homem que ia dentro dum caixão, tudo o mais imitando jocosamente um funeral que começou perto da igreja.
Muitos, muitos mirones a deliciarem-se com a gárrula costumeira que os de Vilarandelo — honra lhes seja feita —
não querem deixar perder. Ora essa! antes o diabo desse um estouro.
Ter sido o Carnaval, segundo o pensamento e o dizer de alguns, a data escolhida para o préstito
fúnebre do fiel amigo é que não condiz, aparentemente, com o calendário litúrgico,
já que a Quaresma, logo a seguir, é que é o tempo das abstinências, isto é, de
pôr a carne de lado, restando o peixe de peguilho — está visto. A verdade, porém, é ser o
Entrudo o tempo adequado a todas as farras, além de que a coisa pode muito bem ser interpretada “a contrario
sensu”, como quem diz: querem-nos impingir o bacalhau como paparoca, mas nós tratamos-lhe da saúde. O
costume de Vilarandelo seria assim um protesto, olarila. O olho malandreco do nosso povo está sempre aberto.
O AUTO DA PAIXÃO
À data em que escrevo este apontamento, só chegou ao Inatel (Vila Real) um pedido de
apoia para a realização de um Auto da Paixão — Tronco, Chaves — embora neste distrito outras
localidades tenham pensado em encená-lo, como sucedeu, e muito bem, no ano passado, em Sonim (Valpaços).
Não é fácil juntar actores e figurantes para uma acção de tal envergadura, sabendo
todos nós que, a acrescentar às muitas despesas e às necessidades do trabalho rural e outro, as
nossas aldeias, que têm o cenário ideal para este género de teatro, vêm ficando cada vez mais
desfalcadas de juventude, sem a qual as tradições correm sérios riscos.
Retomando uma reflexão anterior, quero referir-me especialmente ao carácter
lúdico do Auto da Paixão. Em primeiro lugar, há que acentuar a ludicidade de todo o teatro: jogo
fisionómico, jogo de representação (o actor é e não é a personagem que
representa), jogo de luzes, jogo de sombras, jogo temporal (o passado como presente). E já dizia Brecht,
acentuando-o bem, que «a função do teatro, como a das restantes artes, consiste sempre em divertir». Ora
o jogo é isso mesmo: repetir uma acção pelo prazer que se lhe encontra. Pode o público
que assiste a um auto, em maior ou menor parte, alhear-se dos efeitos cénicos e concentrar-se na mensagem
transmitida. Nesse caso o jogo é inversamente proporcional à vivência do modelo encenado, tendo-se
aqui, no entanto, que essa reedificação nunca é total: sempre aquele que assiste se conduz como
assistente em um ou outro momento, atribuindo um valor à arte e técnicas exibidas e é precisamente
aí que o prazer lúdico se instala.
Por vezes, acontecem mesmo cenas hilariantes, a contracenarem com o auto em si. Conta Miguel Torga
que em determinada aldeia um actor representou tão bem o papel de Judas que, no final da
representação, alguns espectadores mais sensíveis o perseguiram, correndo-o à pedrada.
Vivência do conteúdo? Sim, mas não só, como é bom de ver. O mesmo se passou noutro
lugar, acrescento eu, com uma atraente rapariga que tanto se evidenciou no papel de Madalena que no final foi mimoseada
com alguns suaves beliscões e apalpadelas. Claro, jogo é jogo e, como no Carnaval, bem tolo é
quem leva a mal.
Já se pensou em constituir uma comissão distrital (pena que não seja regional)
para estimular e apoiar, sistematicamente, pelo menos um Ramo (Natal) e um Auto da Paixão, anualmente. Essa
comissão é necessária porque o teatro popular religioso, com ressonâncias pagãs ou
não e com o prazer que proporciona, continua a ser uma das actividades cativantes, no domínio da cultura
popular.
A CULTURA É UMA PIRÂMIDE
Entretenha-se agora o leitor a localizar, neste desenho de uma pirâmide, em que ponto se situa
a cultura popular e a chamada cultura erudita, passando pelas formas intermédias.
* Na Idade Média chamava-se "theatrales ludi" (jogos teatrais) às
representações dramáticas.
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