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edição n.º 12 ensaio [2] josé ferreira borges  

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b. d.


Colaboradores neste número: Agapito Laranjeira, Anabela Pinto, Anabela Ribeiro, António Cabral, Carlos “Cazé” Dias, Elza Garcia, Fernando Gouveia, Gil Silva, Jorge Rodrigues, José Ferreira Borges, Luís C. Teixeira, Luís D'Almada, Luís Roque, Luísa Albino, Luísa Costa, Manuel Guimarães, Maria Filomena, Paulo Leitão, Pedro Martins Colaço, Pitchu, Rui Duarte, Troglodýtes Trogloditikós, Vítor Nogueira.

«A lucidez sepulta o dia rápido no intervalo de duas longas noites. O instante ressuscita na noite imensa a desmesura da sua luz.»

A Lucidez e o Instante


Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.

(Herberto Helder)



A memória é o húmus do sentido. A exigência da ordem, a que se está invariavelmente condenado, acompanha o eu, e o eu, ou o que a ele se parece em nós, é inseparável desse legado maleável de referências, que diariamente se actualiza e redefine de forma dinâmica e processual. O sentido é revelador, é a própria revelação: por ele é que o ser se dá, ou se inventa, figurando o mundo, fazendo-se mundo, com sons, imagens, a apoteose cromática dos signos. Nada impede que se negue a ordem, a lei unificadora, a providência cósmica, e se afirme o caos, o irracional, o paradoxo, o absurdo. Ainda assim, a razão empresta ao mundo o sentido desse não-sentido, colocando-o à distância, dando-lhe uma fulguração ôntica de harmonia.

Ver de fora esse precário sentido, sem todavia poder sair dele, tendo o nada como fundo, ou dissolvendo-o no vórtice indeterminado do ser, é também querer fazer dele o itinerário que a cada momento muda, a viagem que acolhe todos os sítios e quadros revelados, o movimento cuja essência se transmuda por cada nova aparição. Entre a luz primeira e a derradeira sombra, entre a alvorada inconsciente e o inevitável entardecer, atrás de uma implacável lucidez, olha-se o tempo como grande extensão de coisas, seres, factos, palavras, continente imenso como o mistério, de conteúdo opaco, aleatório, por vezes transparente, significativo, nas dobras de uma interminável fugacidade.

Vulgarmente, coleccionam-se datas: o ano terminal, o mês pernicioso, o dia brando, a hora recatada, o minuto predilecto. A percepção das datas é também o que há de mais diverso. E aprisiona, quais elos burocráticos de um deus tirano. O antes, o depois e o agora são a tríade em que mergulha a acção, constante e infatigável. Entre a lucidez e o instante. Mas o instante e a lucidez são barras de ferro suspensas de um vazio inominado. Com que braços é possível suster a simples ideia da queda e da vertigem? A lucidez vive na extensão de todo o tempo, o instante ilumina uma parte dele, inextensa. Aquela exprime a matéria como algo que viesse de fora; este, a energia como algo que de dentro viesse.

A lucidez revela o instante, o instante justifica a lucidez. Esta ensina a vaidade de todos os esforços, a fragilidade de que são feitos os sonhos, um «monte de imagens quebradas, onde o sol bate»1. Às vezes devolve o absurdo como uma faca, cortante. Outras, o cosmos trasbordante de sinais, um horizonte de pacificação. O instante reenvia o ímpeto vital, a inteireza de um átomo que fervilha; outras vezes é corrosivo, irmão da morte e do nada, em fragmentos de violentas tempestades. Mas procura também a densidade das coisas a que se agarra, para moldá-las à sua luminosa pequenez. A lucidez sepulta o dia rápido no intervalo de duas longas noites. O instante ressuscita na noite imensa a desmesura da sua luz.

Aquela tem a cor da cal; este, a cor do sangue. Mostram um ao outro palavras cuja caligrafia é já um indício de beleza. Instituem o silêncio como única forma intersticial. Mas há outras palavras que chamam, aqui e ali, que apelam na ante-angústia, pontificando inúteis, mesquinhas, nos recortes de um silêncio hostil e melindrável. A lucidez sente os objectos esvaírem-se, pergunta pela consistência que lhes foge. O instante goza a alienação da memória, a descoberta súbita e terrível de estar sendo. A lucidez suspende-se sobre o nada, o instante magnetiza o ser. Naquela há o ardor suspenso, labiríntico, problemático, convulsivo. Neste, a virtude invencível, ou a indolência mórbida, ou a lisura de uma adesão quase perfeita.

De que túnel são abertura estes dois pólos inacabados? De que noite côncava, em semicírculos, são extremos? Por que túnel passa o viajante? A lucidez é clausura, enredo em constante peregrinar, movendo-se pela melancolia de um demiurgo meditativo. O instante é a retórica do corpo, o reduto obsessivo, a anunciação do desejo, celebrado na dança de um deus ébrio de vida. A lucidez formula em surdina o espaço que recebe a música; o instante irradia o seu halo musical no espaço informulado.

A arquitectura do tempo do mundo pluraliza-se numa massa informe a que se dá sentido, e percorre o infinito como um declive de sombra, a trajectória cúmplice do medo. Mas é do outro lado do espelho diáfano, mediador entre a consciência e o seu lugar-de-explosão, que o gesto mutável é feito. Nenhum momento é pacífico no meio da simetria devastada. Os dois lados do espelho são dois modos do tempo, um que vê, outro que é visto; um que sugere a si mesmo o seu próprio ver, outro que sugere ao primeiro o invisível. É que o segredo das coisas não fulmina, não deslumbra, atravessa este ar corruptível como um som apenas ciciado.

A lucidez transporta a experiência, o desmentido, a negatividade; supõe a elevação, que não conhece por inteiro; lança os dados do desespero, mas ignora voluntariamente a soma que daí possa resultar; toma o mundo como um jogo de xadrez, e encarna, livre, em cada peça. O instante deixa-se transportar, até culminar em excesso, até ser «o caminho do excesso [,que] leva ao palácio da sabedoria»2; não ascende, não admite hierarquias, não reconcilia: aproxima. E pouco lhe importa que se encaminhe ou não para uma síntese superior, para uma finalidade estabelecida por transcendentes figuras. É que mover-se nesse registo é arriscar-se a perder o âmago da vivência, a adormecer na sombra os espinhos que fazem despertar, ainda que o ser esteja destinado a diluir-se rente às fronteiras do nada, sem outro suporte além da ilusão da espessura, como se fosse uma partícula minúscula em pura perda contínua de si. Essa perda, afinal, é também salvífica, mistura a queda e a virtude, porque «para ganhar a salvação é preciso ser-se primeiro inoculado com o vírus do pecado»3.

Quando o instante adere à lucidez, unem-se os dois extremos de uma espiral que se desenha em todas as direcções; o centro de gravidade deixa de ser aquele que os olhos de um deus elegem, a eternidade fixa, o arquétipo intemporal, e passa a ser a periferia centrífuga, que não cabe em qualquer sistema, o plural que se expande, o panteão que se auto-justifica. A experiência é a matriz, o fruto é o conhecimento. É preciso prová-lo de forma indefinida, para voltar a um tempo primitivo. Não àquele que ainda não foi maculado pelo orgulho instintivo, mas àquele onde o instante, haurido lucidamente, se converte no único ritual feito em nome da vida. É aí que se dá a última metamorfose do espírito, rumo a uma inocência superior, a «uma roda que gira por si própria, primeiro móbil, afirmação santa»4.


Notas:
1 Thomas Eliot, A Terra sem Vida, Edições Ática, 1984, p. 29.
2 William Blake, A União do Céu e do Inferno, Relógio D’ Água, 1991, p. 25.
3 Henry Miller, O Tempo dos Assassinos, Hiena Editora, 1985, p. 82.
4 Nietzsche, Assim Falava Zaratustra, 11ª ed., Guimarães Editores, 1997, p. 31.

 
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