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| um jornal? uma revista? | |||
| edição n.º 12 | editorial | rui ângelo araújo | |
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editorial
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Dois anos depois...
1. Paira sobre a imprensa regional um paternalismo que tem
sido em grande parte responsável pelo atrofiamento que (ainda) a define em larga escala1.
O grau de exigência com que analisamos um jornal nacional (os que analisamos) não tem equivalência
na ternura desculpabilizante com que lidamos com os jornais locais ou regionais. Esta atitude, sem que isso nos preocupe,
é um atestado de menoridade que não condiz com os grandes valores e capacidades que estamos habituados a
atribuirmo-nos.
À imprensa regional confere-se-lhe um carácter afectivo, próprio de
relações sentimentais, em detrimento daquele que devia ser o seu papel no âmbito da
comunicação entre seres racionais. Numa lógica de mais coração do que razão,
abdicamos da informação profissional e da opinião inteligente e procuramos palavras mais ou menos
inofensivas, cuja inoquidade ignoramos desde que falem sobre a terra e as pessoas com que nos cruzamos no bairro,
ainda que nada tragam de marcante para a sociedade. Em vez do acompanhamento da realidade com intenção
de esclarecimento, somos envolvidos num exercício de familiaridade onde até a crítica se
assemelha a arrufos de namorados ou a desentendimentos entre irmãos. Na opinião, que abunda (sem que
isso seja um mal em si) nas páginas regionais, não buscamos a visão perspicaz, o pensamento
estratégico elevado, o raciocínio esclarecedor, a argumentação inteligente, a prosa
interessante — procuramos a trica partidária, a desavença familiar, a coscuvilhice de bairro.
O desenvolvimento de uma terra (que só surge com o crescimento cultural, como diz Pires Cabral
em entrevista nesta edição) não se faz à custa de afectividade. A solidariedade e outros
nobres sentimentos de partilha não devem viver de bairrismos ou sentimentos de “tribo”, com tudo o que de
fechamento eles acarretam — devem antes resultar da espontaneidade de quem exige de si e dos outros uma procura do
crescimento, que não está nem no fixar tradições indiscriminadamente, nem no deslumbramento
néscio com o estrangeiro. Provavelmente, duma dialéctica que envolva passado e futuro, identidade e
cosmopolitismo, é que pode resultar a necessária síntese construtiva.
Como não custará reconhecer, pese embora toda a insolência que terá
sempre, o EITO FORA tem sido uma espécie de “suplemento cultural” desta região transmontana. Pelas suas
páginas têm passado muitos daqueles que pela actividade ou pelo pensamento ajudam a caracterizar a
cultura em Trás-os-Montes. Editado juntamente com um grande diário, o EITO FORA teria certamente a
benção e o acompanhamento de muita mais gente (todos sabemos que só “existe” aquilo que os
mass media consagram). No entanto, são cada vez mais aqueles a acreditar que temos que ser nós
os construtores da nossa existência (e vivência) cultural. A esse propósito vejam-se as
intenções, ainda periclitantes, mas finalmente esclarecidas, do “Fórum de Trás-os-Montes
e Alto Douro”.
Como já dissemos uma vez, o EITO FORA (Jornal de Vilarelho, metafórica e
geograficamente) não tem a pretensão de ser um produto final das possibilidades editoriais transmontanas
(falta-lhe, entre outras virtudes, o perfil comercial). Muito longe disso, este jornal (ou revista, ou o que quer
que seja), tem no entanto a distinta lata de dar pistas para aquilo que gostaria que fosse “a conversa” entre
transmontanos, e destes com o país e o mundo. Pode ser petulância desmesurada, mas não é
certamente cretinice. Ou será.
A irreverência pode assumir várias formas, umas mais ruidosas, outras mais subtis.
Lembrar o anacronismo e outros defeitos de “A Voz de
Trás-os-Montes” (e dos seus leitores) pode ter um resultado estético interessante e provocar a
gargalhada fácil, mas mais necessário (e menos explorado) pode ser o conhecimento de pessoas e modos
de pensar e agir. Só por muita preguiça mental ou falta de hábitos de leitura (para ser brando
nas palavras) se pode criticar no EITO FORA — pelo tamanho... — aquilo que é admirado nas grandes
publicações nacionais e internacionais: as entrevistas de fundo e as reportagens menos
telegráficas. Terá a ver com a irredutibilidade que os transmontanos gostam de se outorgar... Só
que é preciso que esta irredutibilidade não se confunda com teimosia alvar.
Aqui, como já toda a gente deve ter percebido, não se busca a unanimidade das
opiniões nem a quantidade das massas. Parafraseando sem pejo o grupo de teatro “Visões Úteis” [ver reportagem nesta edição], o
que nos move é “o prazer de fazer” e “a necessidade do bom”. Por oposição a afectividades provincianas e a
“desbundas” inconsequentes. O “prazer de fazer” é garantido; o “bom” poucas vezes o conseguimos, quer por incapacidade
nossa, quer por nem sempre ser fácil encontrá-lo. Mas continuaremos a tentar.
Por mérito dos nossos (corajosos, persistentes, desinteressados e suficientemente loucos)
colaboradores, mas também de todos aqueles que se deixam envolver nas nossas teias, nas páginas do
EITO FORA têm passado nacos de prosa e poesia, ilustrações, fotografias e ideias desempoeiradas,
dignas de uma maior atenção. Queiram fazer o favor de reconhecer isso... Caso contrário podem
regressar ao jornal desportivo ou ao “Big Show SIC”. Afectivamente. |
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Nota:
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transmontano sem preconceitos |
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