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um jornal? uma revista?
edição n.º 12 editorial rui ângelo araújo  

editorial

o jeito 1

o jeito 2

falar barato

torre dos coléricos

crónica de viagem 1

crónica de viagem 2

património

entrevista

etnografia

gato das botas

perfil

reportagem 1

reportagem 2

questionário

ensaio 1

ensaio 2

visão dupla

anacrónicas 1

anacrónicas 2

anacrónicas 3

poesia 1

poesia 2

apartado 51

b. d.


Colaboradores neste número: Agapito Laranjeira, Anabela Pinto, Anabela Ribeiro, António Cabral, Carlos “Cazé” Dias, Elza Garcia, Fernando Gouveia, Gil Silva, Jorge Rodrigues, José Ferreira Borges, Luís C. Teixeira, Luís D'Almada, Luís Roque, Luísa Albino, Luísa Costa, Manuel Guimarães, Maria Filomena, Paulo Leitão, Pedro Martins Colaço, Pitchu, Rui Duarte, Troglodýtes Trogloditikós, Vítor Nogueira.

capa da edição n.º 12 (abril/maio de 2000) [fotografia de Paulo Pimenta / Visões Úteis]
capa da edição n.º 12
(abril/maio de 2000)
[fotografia de
Paulo Pimenta / Visões Úteis]

Dois anos depois...


1. Paira sobre a imprensa regional um paternalismo que tem sido em grande parte responsável pelo atrofiamento que (ainda) a define em larga escala1. O grau de exigência com que analisamos um jornal nacional (os que analisamos) não tem equivalência na ternura desculpabilizante com que lidamos com os jornais locais ou regionais. Esta atitude, sem que isso nos preocupe, é um atestado de menoridade que não condiz com os grandes valores e capacidades que estamos habituados a atribuirmo-nos.

À imprensa regional confere-se-lhe um carácter afectivo, próprio de relações sentimentais, em detrimento daquele que devia ser o seu papel no âmbito da comunicação entre seres racionais. Numa lógica de mais coração do que razão, abdicamos da informação profissional e da opinião inteligente e procuramos palavras mais ou menos inofensivas, cuja inoquidade ignoramos desde que falem sobre a terra e as pessoas com que nos cruzamos no bairro, ainda que nada tragam de marcante para a sociedade. Em vez do acompanhamento da realidade com intenção de esclarecimento, somos envolvidos num exercício de familiaridade onde até a crítica se assemelha a arrufos de namorados ou a desentendimentos entre irmãos. Na opinião, que abunda (sem que isso seja um mal em si) nas páginas regionais, não buscamos a visão perspicaz, o pensamento estratégico elevado, o raciocínio esclarecedor, a argumentação inteligente, a prosa interessante — procuramos a trica partidária, a desavença familiar, a coscuvilhice de bairro.

O desenvolvimento de uma terra (que só surge com o crescimento cultural, como diz Pires Cabral em entrevista nesta edição) não se faz à custa de afectividade. A solidariedade e outros nobres sentimentos de partilha não devem viver de bairrismos ou sentimentos de “tribo”, com tudo o que de fechamento eles acarretam — devem antes resultar da espontaneidade de quem exige de si e dos outros uma procura do crescimento, que não está nem no fixar tradições indiscriminadamente, nem no deslumbramento néscio com o estrangeiro. Provavelmente, duma dialéctica que envolva passado e futuro, identidade e cosmopolitismo, é que pode resultar a necessária síntese construtiva.


2. Depois desta introdução descabida e morigeradora (como diria Camilo), falemos do EITO FORA e do seu segundo aniversário.

Como não custará reconhecer, pese embora toda a insolência que terá sempre, o EITO FORA tem sido uma espécie de “suplemento cultural” desta região transmontana. Pelas suas páginas têm passado muitos daqueles que pela actividade ou pelo pensamento ajudam a caracterizar a cultura em Trás-os-Montes. Editado juntamente com um grande diário, o EITO FORA teria certamente a benção e o acompanhamento de muita mais gente (todos sabemos que só “existe” aquilo que os mass media consagram). No entanto, são cada vez mais aqueles a acreditar que temos que ser nós os construtores da nossa existência (e vivência) cultural. A esse propósito vejam-se as intenções, ainda periclitantes, mas finalmente esclarecidas, do “Fórum de Trás-os-Montes e Alto Douro”.

Como já dissemos uma vez, o EITO FORA (Jornal de Vilarelho, metafórica e geograficamente) não tem a pretensão de ser um produto final das possibilidades editoriais transmontanas (falta-lhe, entre outras virtudes, o perfil comercial). Muito longe disso, este jornal (ou revista, ou o que quer que seja), tem no entanto a distinta lata de dar pistas para aquilo que gostaria que fosse “a conversa” entre transmontanos, e destes com o país e o mundo. Pode ser petulância desmesurada, mas não é certamente cretinice. Ou será.

A irreverência pode assumir várias formas, umas mais ruidosas, outras mais subtis. Lembrar o anacronismo e outros defeitos de “A Voz de Trás-os-Montes” (e dos seus leitores) pode ter um resultado estético interessante e provocar a gargalhada fácil, mas mais necessário (e menos explorado) pode ser o conhecimento de pessoas e modos de pensar e agir. Só por muita preguiça mental ou falta de hábitos de leitura (para ser brando nas palavras) se pode criticar no EITO FORA — pelo tamanho... — aquilo que é admirado nas grandes publicações nacionais e internacionais: as entrevistas de fundo e as reportagens menos telegráficas. Terá a ver com a irredutibilidade que os transmontanos gostam de se outorgar... Só que é preciso que esta irredutibilidade não se confunda com teimosia alvar.

Aqui, como já toda a gente deve ter percebido, não se busca a unanimidade das opiniões nem a quantidade das massas. Parafraseando sem pejo o grupo de teatro “Visões Úteis” [ver reportagem nesta edição], o que nos move é “o prazer de fazer” e “a necessidade do bom”. Por oposição a afectividades provincianas e a “desbundas” inconsequentes. O “prazer de fazer” é garantido; o “bom” poucas vezes o conseguimos, quer por incapacidade nossa, quer por nem sempre ser fácil encontrá-lo. Mas continuaremos a tentar.

Por mérito dos nossos (corajosos, persistentes, desinteressados e suficientemente loucos) colaboradores, mas também de todos aqueles que se deixam envolver nas nossas teias, nas páginas do EITO FORA têm passado nacos de prosa e poesia, ilustrações, fotografias e ideias desempoeiradas, dignas de uma maior atenção. Queiram fazer o favor de reconhecer isso... Caso contrário podem regressar ao jornal desportivo ou ao “Big Show SIC”. Afectivamente.

 
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ruiaaraujo@periferica.org

Nota:
1 O Estado parece, finalmente, querer deixar de ser paternalista. Pelo menos no que se refere ao porte pago.

'Andarilho', símbolo do EITO FORA

 

transmontano sem preconceitos