vai para a página do index da edição
um jornal? uma revista?
edição n.º 12 anacrónicas [3] luís d’almada  

editorial

o jeito 1

o jeito 2

falar barato

torre dos coléricos

crónica de viagem 1

crónica de viagem 2

património

entrevista

etnografia

gato das botas

perfil

reportagem 1

reportagem 2

questionário

ensaio 1

ensaio 2

visão dupla

anacrónicas 1

anacrónicas 2

anacrónicas 3

poesia 1

poesia 2

apartado 51

b. d.


Colaboradores neste número: Agapito Laranjeira, Anabela Pinto, Anabela Ribeiro, António Cabral, Carlos “Cazé” Dias, Elza Garcia, Fernando Gouveia, Gil Silva, Jorge Rodrigues, José Ferreira Borges, Luís C. Teixeira, Luís D'Almada, Luís Roque, Luísa Albino, Luísa Costa, Manuel Guimarães, Maria Filomena, Paulo Leitão, Pedro Martins Colaço, Pitchu, Rui Duarte, Troglodýtes Trogloditikós, Vítor Nogueira.

ilustração de Luís Roque
ilustração de Luís Roque

Há dias assim...


O dia começou chuvoso, como me havia habituado. Há tempos que saio bem cedo para tomar café, o mata bicho, e fumar cigarros à espera do jornal.

Procuro trabalho.

Importuna-me o gosto do novo bagaço que me serviram, olho-o agoniado com o sabor vínico que me ficou na boca. Aliás já tudo me agonia. A sensação de nada fazer torna-me ansioso, tira-me o sono e alimenta-me um estado depressivo que há tempos me embebe.

Nada me satisfaz, parece que todos me acompanham o sofrimento. Na vila, os aos meus olhos tudo se altera, os rostos tornam-se tristes, sem vida e já nada parece o mesmo. Muitos parecem acompanhar-me impacientes polindo bancos de jardim, outros deambulam de trás para a frente como se procurassem sem encontrar ou esperassem o que nunca há-de chegar.

A vila, outrora animada, vai-se afogando numa angústia indiscritível. O trabalho amontoa-se e o espírito de Outono teima em precipitar diluviamente sobre o sítio. Comenta-se o estranho comportamento que há tempos se abate em parte das gentes, há quem fale em mau olhado.

Os dias sucedem-se, uns atrás dos outros, e o tempo passa sem que se passe pelo tempo. Sem tempero.

Despreocupado com a imagem, sinto-me cada vez mais velho, e o quarto nas águas-furtadas torna-se pequeno para o amontoado de roupa que manifesta pouco asseio.

A vontade de trabalhar há muito que se diluiu neste estado de espírito, e a capacidade de estabelecer objectivos contamina-se em doença de remédio viciante que se esgotou.

Deambulo melancolicamente sem achar graça a alguma coisa, e o trajecto orienta-se sempre para o beco, para a zona mais antiga da vila. É aí, perto da tasca, outrora igreja, que se amontoam os que como eu parecem partilhar tal sufoco.

O ambiente é de reformatório e dá-se pela falta dos que fraquejam pelo espaço que fica pela parede... E lá, perto da tasca, numa viela mais fechada, há uma loja com o sinal luminoso apagado. "Alugam-se sonhos" diz, e em baixo "Fechados temporariamente".

Acordei agoniado com o gosto do novo bagaço... o empregado já trazia o jornal.

 
vai para o topo da página  

'Andarilho', símbolo do EITO FORA

 

transmontano sem preconceitos