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edição n.º 11 reportagem TEXTO: vítor lamas, p. araújo e r. a. araújo
FOTOGRAFIAS: paulo araújo
 

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apartado 51

caricatura


Colaboradores neste número: Agapito Laranjeira, Albertino Sousa, Anabela Ribeiro, Carlos “Cazé” Dias, Duarte Carvalho, Elza Garcia, Fernando Gouveia, Gil Silva (Giló), Jorge Rodrigues, José Ferreira Borges, Luís C. Teixeira, Luís D'Almada, Luísa Costa, Manuel Guimarães, Maria dos Remédios, Paulo Mourão, Pedro Martins Colaço, Rui Duarte, Troglodýtes Trogloditikós, Vítor Lamas.


Em tempos idos, em Portugal, e em especial em Trás-os-Montes, tocava-se um instrumento, denominado sanfona, que praticamente desapareceu sem deixar rasto. Referido em várias obras bibliográficas e presente na memória de alguns, é hoje novamente usada pelo grupo “Realejo”, de Coimbra, após ter sido retomada a sua fabricação por Fernando Meireles, elemento do referido grupo. Este artífice é o único em Portugal a construir sanfonas e, embora na vizinha Galiza haja outros, o certo é que, devido à qualidade que Fernando Meireles imprime aos seus trabalhos, a quase totalidade das suas encomendas vem precisamente daquele região espanhola.

Fernando Meireles

Fernando Meireles,
Fazedor de sanfonas


Breve história da sanfona

Numa obra intitulada “Instrumentos Musicais Populares Portugueses”, publicada em 1966 por Ernesto Veiga de Oliveira, é descrita minuciosamente a origem e evolução da sanfona. Este peculiar instrumento deriva do organistrum, «instrumento exclusivamente europeu, de que há notícias a partir do século IX, representado desde o século XII com muita frequência na escultura religiosa românica; de entrada essencialmente monástico, ele representa mesmo a consubstanciação das regras da mais antiga polifonia ocidental.» Segundo aquele autor, a sanfona, com capacidades sonoras enriquecidas e simplificada nas suas características funcionais e estéticas, representará «a laicização do organistrum», que, por volta do século XIII, foi destronado na música de igreja pelo órgão.

A partir do século XIII, a sanfona passou a ser utilizada quer pelo povo, quer pela nobreza. Nesta época, príncipes, trovadores e jograis, devido ao seu timbre discreto, preferiam-na para acompanhar as suas festas e cantares, embora já fosse também usada por vagabundos.

Depois do século XV este instrumento entra em decadência, acentuada pela evolução e preponderância do violino.

Dizia, em 1966, Ernesto Veiga de Oliveira: «Entre nós, da sanfona queda rara lembrança, e já apenas como instrumento de feira, cada vez mais raro, ao serviço de mendigos e cegos que, sem a saberem tocar, a envileceram e desacreditaram; e é neste aspecto final que a memória dela se fixou. (...) Contudo há menos de cinquenta anos, viam-se ainda, não com frequência, mas pelo menos como uma presença normal e característica, desmanteladas e encardidas pelo pó de intérminas andanças, nas feiras e festas importantes do país, mormente do norte e sobretudo em Trás-os-Montes, a tiracolo de cegos mendicantes, acompanhando com o estrídulo monótono do seu arranhar roufenho a cantoria lamurienta desses pobres vagabundos. Em todo o caso, mesmo nesses países em que se procura salvar a sanfona do total desaparecimento, ela é já uma raridade sem vida espontânea, uma comovente figura do passado, quando não uma simples curiosidade arqueológica, que o mundo de hoje ignora irremediavelmente.»

Para uma referência próxima à sanfona pode-se consultar o Volume II da obra de António Lourenço Fontes “Etnografia Transmontana”. Lembra este autor, a propósito das “bodas à antiga”: «(...) Os cantadores, depois de fazerem botar a lágrima aos pais em público com as suas quadras, ao som da sanfona ou concertina, animam os mesmos a esta façanha de entregar a esposada ao esposo...»

Na Galiza a sanfona teve muito relevo e, apesar de também o seu uso ter decaído até determinada época mais ou menos recente, foi (e é) tida como um instrumento nacional, a par da gaita-de-foles. Actualmente na Galiza são muitos (e bons) os grupos que a utilizam, havendo alguns fabricantes que a constróem. Em Portugal existe apenas um.

 

Fernando Meireles construindo um bandolim


O artífice

Fernando Meireles nasceu em Paço de Sousa, Penafiel, tendo posteriormente rumado até Coimbra. Multifacetado no campo musical, é instrumentista, compositor e construtor de instrumentos.

Na faceta de músico, é fundador do grupo "Realejo" e toca no "Ars Musicae". É um amante da música de cariz tradicional desde longa data.

Na vertente de construtor de instrumentos, iniciou-se com um cavaquinho, que antecedeu a feitura de outros: violas braguesas; guitarras; concertinas; bandolins; trancanholas; sanfonas... Nunca teve mestre; o que aprendeu foi com a prática e com os livros. O seu trabalho prima pela perfeição e qualidade, para o atestar, estão nomes como Júlio Pereira e Pedro Caldeira Cabral, que utilizam instrumentos construídos pela sua mão.

Sanfona e Fernando são hoje, em Portugal, vocábulos indissociáveis. As palavras de Manuel Louzã Henriques são bem elucidativas, «Ao dar vida a um instrumento há muito tempo desaparecido entre nós, Fernando Meireles retoma o filão perdido, cuja origem remonta provavelmente à cultura trovadoresca».

À sanfona, Fernando, o artífice que a esculpe, dá-lhe o corpo, e Fernando, o músico que a manuseia, dá-lhe a alma.

Quando entramos no seu atelier estava a construir um bandolim. Amavelmente, pediu-nos que aguardássemos um instante, estava num trabalho de minúcia e não queria “perder a medida”. Durante a conversação relembrou a sua infância; os brinquedos que construía; o prazer com que os executava. Julga que foi nesse tempo, que começou a trabalhar a criatividade e a motricidade fina, que hoje lhe são indispensáveis para o labor de manufactura que executa. Embora o tema que nos movia fosse a sanfona e a sua fabricação, o panorama musical (e cultural) deste país também teve o seu espaço. Telegráfico.

No final, posou para fazermos algumas fotos e tocou alguns temas na sua sanfona. Pena é, que as fotografias não consigam reproduzir o som...


Últimas encomendas

Há tempos telefonaram-lhe da presidência da Republica. Encomendaram uma guitarra portuguesa para oferecer ao presidente da República Popular da China quando ele esteve cá em visita. Não tinha nenhuma para entrega naquela semana. Tinha bandolins. Mas só fazia sentido oferecer a guitarra por ser um símbolo nacional. [Uma foice também faria sentido, dizemos nós, já que Macau “foice”. E martelo.]

Curiosamente, Fernando Meireles vai restaurar os instrumentos antigos que ilustrarão a obra de Ernesto Veiga de Oliveira, a reeditar num futuro próximo. Convergências.

 
 

Fernando Meireles a tocar sanfona

Telegramas

«O panorama da música popular em Portugal tem a ver com uma coisa que é uma peça fundamental da organização duma sociedade: a educação. Nós não temos educação ou temos uma educação deficiente. A educação musical então... é paupérrima. A música para evoluir precisa dessa componente. As pessoas têm que ter formação para poderem responder. O que se passa é que os músicos em Portugal (e não é só aqui), como não têm essa formação, geralmente são muito medianos. A música sofre com isso.»

«A educação era a grande paixão do Guterres, mas ele desapaixonou-se. Isto é como na vida, um gajo apaixona-se e a seguir as coisas não correm...»

«As pessoas não têm um poder de opinião forte e são bombardeadas e sugestionadas por aquilo que a imprensa lhes diz que é bom, aquilo que mandam cá para fora as televisões. A música pimba. As pessoas consomem aquilo como se fosse uma verdade absoluta.»

«Os seres humanos foram feitos para a preguiça. A vida é difícil, uma família trabalha chega a casa cansada, come e só quer sentar-se em frente à televisão. E o que nos dão? Música pimba. Se nos derem outra coisa, vê-mo-la, porque vemos aquilo que nos derem! »

«O problema é que nem toda a gente ouve música pelos ouvidos. As coisas são condicionadas por outros factores.»

«Nos países onde vamos o público gosta da música tradicional, dança, salta para o palco...»

«Os ranchos, sendo, como dizes, os grandes divulgadores [deturpadores] da música tradicional, não passam, na verdade, de um motivo de convívio, para arranjar namoro.»

«As pessoas em Portugal não vão à música pela música. Se houver um concerto de um grupo que a malta não conheça, ninguém vai.»

«Os galegos têm uma preocupação com as coisas que nós aqui não temos. Eles não deixam acabar as coisas.»


Por voz (quase) própria

«Iniciei-me na construção de instrumentos por acaso. Fruto da vivência estudantil em Coimbra (vim estudar para o conservatório). Tinha que ter uma actividade qualquer paralela, embora não soubesse muito bem o quê. Tinham-me oferecido um cavaquinho e, como era um tipo habilidoso (fazia muitas coisas com as mãos), a partir daquele fiz um igual e saiu-me bem. Como não havia muito quem fizesse estas coisas, as pessoas foram-me pedindo, e às tantas já estava metido nisto. As coisas aconteceram assim porque também eu, como músico, tinha necessidade de bons instrumentos, com as escalas calibradas, a soarem bem... Na altura não havia muito disso no mercado.

Comecei por estudar violino e isso seduziu-me de alguma forma. Comecei a ler tudo o que dizia respeito ao violino, os seus aspectos técnicos, os materiais usados, porquê aqueles e não outros. Comecei a aplicar estes conhecimentos na construção dos instrumentos tradicionais populares. A partir daí fui autodidacta. Li livros, falei com pessoas, com bons músicos (Pedro Caldeira Cabral, Júlio Pereira, exímios executantes) e percebi melhor o que é que um instrumento tinha que ter para ser bom. A maneira peculiar como desenvolvi os meus conhecimentos fez com que os instrumentos começassem a soar de um modo ligeiramente diferente. O mesmo acontecia com o toque, a sensação, o tacto. (A verdade é que é completamente diferente pegar num instrumento meu e pegar num instrumento de outra pessoa.)

Faço todos os instrumentos portugueses, e faço um instrumento que mais ninguém faz. A sanfona. É um instrumento que havia desaparecido completamente no século dezanove. Tomei conhecimento dela a partir de um livro de instrumentos populares portugueses do Dr. Ernesto Veiga de Oliveira. Primeiro o instrumento encantou-me pela sua forma e depois pela sonoridade. Propus-me fazer uma sanfona para mim sem qualquer outro objectivo.

Comecei por fazer uma sanfona que estava numa figura de presépio do século dezassete (de Machado Castro) no Museu de Arte Antiga. Queria fazer uma sanfona o mais portuguesa possível.

Deparei-me com bastantes problemas porque não tinha nada, só sabia como é que aquilo funcionava, que as cordas são friccionadas por uma roda... A partir daí comecei a fazer os meus cálculos. Levei cinco anos a acumular conhecimentos.

Demoro quatro meses a fazer uma sanfona. As encomendas são sobretudo da Galiza. Muitas. Os galegos gostam muito das minhas sanfonas. Em Portugal vendi duas ou três.

Faço sempre um instrumento como se fosse a primeira vez. O meu último é sempre o melhor que fiz.

O que influencia o som de um instrumentos é o conjunto de todos os factores, desde a escolha da madeira, a cola, a maneira como se trabalha a madeira, as espessuras que se deixam na madeira, os vernizes que se usam... Tudo isso condiciona. Também a própria montagem do instrumento.

Os instrumentos dos fabricantes do Minho eram (e são) muito consumidos pelo folclore e este não é muito exigente (os instrumentos têm que andar ao sol, á chuva, etc.). Por isso eles sempre os construíram da mesma maneira e nunca aquilo foi questionado. Quando apareceram músicos já com outra formação a querer tocar os instrumentos, com outras exigências que a malta do folclore não tem, eles lá tentaram resolver o problema, melhor ou pior. Eu, como músico, fui um bocado apanhado nessa onda. E a melhor maneira que eu tive de resolver esse problema foi resolvê-lo eu próprio. Também por isso me fiz construtor de instrumentos.

A madeira que uso é muito cara. É importada. A madeira para bons instrumentos não existe em Portugal, salvo raras excepções. Por exemplo, para os tampos superiores só pode ser o chamado "pinho de flandres", criado em climas frios, grandes altitudes. Tem uma consistência bastante densa e os veios bastante alinhados. É o melhor condutor de som que existe. Para o fundo e ilhargas geralmente usam-se madeiras duras, tipo "pau santo", que vem do Brasil. Nos instrumentos mais modestos aqui em Portugal usa-se nogueira com bons resultados.

O produto final, feito à mão, com boas madeiras, pode custar muito dinheiro. Também porque se trata de uma peça única. Um bandolim bom pode custar 180 contos. A sanfona, 600 contos. É um preço razoável, mas para mim não é convidativo. É só um preço para que as pessoas possam ter acesso a ela, porque de facto estou a trabalhar de borla.

A sanfona é um instrumento que eu gosto muito, porque foi uma vitória. É um instrumento extremamente complexo. Afeiçoei-me bastante a ele. Tenho três em construção, são para a Galiza. Na Galiza há muita gente a tocar sanfona e há muitos construtores, mas os instrumentos lá são construídos ao jeito de cá: há bons construtores, mas a maior parte são assim um tanto ou quanto rústicos. Depois, os músicos que sobressaem querem instrumentos melhores...

Os galegos têm uma educação musical fora de série. Hoje em dia toda a gente toca gaita-de-foles, em todas as casas há um gaiteiro. É uma coisa que foi implementada. Ensina-se gaita no conservatório. Aqui alguma vez se viu ensinar guitarra portuguesa num conservatório, ou assim uma coisa? Ensina-se nos conservatórios a música clássica, que nem é a portuguesa por sinal. São raros os compositores portugueses que se ensinam nos conservatórios. Em França os conservatórios têm orquestras de sanfonas, de gaitas... Acontece que os instrumentos não são maiores nem são menores: a música é que é diferente. É só uma questão de linguagem.

Eu penso que se está a fazer alguma coisa nesse sentido, já há escolas de formação musical profissional, a Escola Superior de educação tem neste momento cursos virados para a música. Só que estas coisas vão dando frutos muito lentamente. Passamos um período em que não havia nada. Havia as bandas filarmónicas, que eram as grandes escolas de música de Portugal. Temos grandes instrumentistas de sopro que vieram das bandas e estão aí a dar cartas em muitos lados.

É difícil abandonar os instrumentos depois de os fazer. Sou um bocado selectivo. Não faço instrumentos para toda a gente. Quem me procura para fazer instrumentos tem pelo menos que saber tocar. Tem que ser boa gente. Gente um pouco mais exigente, até porque os instrumentos custam um pouco mais.»

 
 


esquema da sanfona

A sanfona é um cordofone (instrumento de cordas) com a particularidade de que o som é extraído através de uma roda, accionada por uma manivela, que fricciona as cordas situadas dentro da caixa. Possui dois tipo de cordas: as cantantes (ou melódicas), responsáveis pela melodia, e os bordões (ou cordas pedais) que emitem um som contínuo, sem variações de tom. As melodias são obtidas dedilhando um teclado que acciona as têmperas (espécie de martelo que prime as cordas cantantes que, friccionadas pela roda, emitem as diferentes notas).

 
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