Por voz (quase) própria
«Iniciei-me na construção de instrumentos por acaso. Fruto da vivência estudantil em Coimbra (vim estudar para o conservatório). Tinha que ter uma actividade qualquer paralela, embora não soubesse muito bem o quê. Tinham-me oferecido um cavaquinho e, como era um tipo habilidoso (fazia muitas coisas com as mãos), a partir daquele fiz um igual e saiu-me bem. Como não havia muito quem fizesse estas coisas, as pessoas foram-me pedindo, e às tantas já estava metido nisto. As coisas aconteceram assim porque também eu, como músico, tinha necessidade de bons instrumentos, com as escalas calibradas, a soarem bem... Na altura não havia muito disso no mercado.
Comecei por estudar violino e isso seduziu-me de alguma forma. Comecei a ler tudo o que dizia respeito ao violino, os seus aspectos técnicos, os materiais usados, porquê aqueles e não outros. Comecei a aplicar estes conhecimentos na construção dos instrumentos tradicionais populares. A partir daí fui autodidacta. Li livros, falei com pessoas, com bons músicos (Pedro Caldeira Cabral, Júlio Pereira, exímios executantes) e percebi melhor o que é que um instrumento tinha que ter para ser bom. A maneira peculiar como desenvolvi os meus conhecimentos fez com que os instrumentos começassem a soar de um modo ligeiramente diferente. O mesmo acontecia com o toque, a sensação, o tacto. (A verdade é que é completamente diferente pegar num instrumento meu e pegar num instrumento de outra pessoa.)
Faço todos os instrumentos portugueses, e faço um instrumento que mais ninguém faz. A sanfona. É um instrumento que havia desaparecido completamente no século dezanove. Tomei conhecimento dela a partir de um livro de instrumentos populares portugueses do Dr. Ernesto Veiga de Oliveira. Primeiro o instrumento encantou-me pela sua forma e depois pela sonoridade. Propus-me fazer uma sanfona para mim sem qualquer outro objectivo.
Comecei por fazer uma sanfona que estava numa figura de presépio do século dezassete (de Machado Castro) no Museu de Arte Antiga. Queria fazer uma sanfona o mais portuguesa possível.
Deparei-me com bastantes problemas porque não tinha nada, só sabia como é que aquilo funcionava, que as cordas são friccionadas por uma roda... A partir daí comecei a fazer os meus cálculos. Levei cinco anos a acumular conhecimentos.
Demoro quatro meses a fazer uma sanfona. As encomendas são sobretudo da Galiza. Muitas. Os galegos gostam muito das minhas sanfonas. Em Portugal vendi duas ou três.
Faço sempre um instrumento como se fosse a primeira vez. O meu último é sempre o melhor que fiz.
O que influencia o som de um instrumentos é o conjunto de todos os factores, desde a escolha da madeira, a cola, a maneira como se trabalha a madeira, as espessuras que se deixam na madeira, os vernizes que se usam... Tudo isso condiciona. Também a própria montagem do instrumento.
Os instrumentos dos fabricantes do Minho eram (e são) muito consumidos pelo folclore e este não é muito exigente (os instrumentos têm que andar ao sol, á chuva, etc.). Por isso eles sempre os construíram da mesma maneira e nunca aquilo foi questionado. Quando apareceram músicos já com outra formação a querer tocar os instrumentos, com outras exigências que a malta do folclore não tem, eles lá tentaram resolver o problema, melhor ou pior. Eu, como músico, fui um bocado apanhado nessa onda. E a melhor maneira que eu tive de resolver esse problema foi resolvê-lo eu próprio. Também por isso me fiz construtor de instrumentos.
A madeira que uso é muito cara. É importada. A madeira para bons instrumentos não existe em Portugal, salvo raras excepções. Por exemplo, para os tampos superiores só pode ser o chamado "pinho de flandres", criado em climas frios, grandes altitudes. Tem uma consistência bastante densa e os veios bastante alinhados. É o melhor condutor de som que existe. Para o fundo e ilhargas geralmente usam-se madeiras duras, tipo "pau santo", que vem do Brasil. Nos instrumentos mais modestos aqui em Portugal usa-se nogueira com bons resultados.
O produto final, feito à mão, com boas madeiras, pode custar muito dinheiro. Também porque se trata de uma peça única. Um bandolim bom pode custar 180 contos. A sanfona, 600 contos. É um preço razoável, mas para mim não é convidativo. É só um preço para que as pessoas possam ter acesso a ela, porque de facto estou a trabalhar de borla.
A sanfona é um instrumento que eu gosto muito, porque foi uma vitória. É um instrumento extremamente complexo. Afeiçoei-me bastante a ele. Tenho três em construção, são para a Galiza. Na Galiza há muita gente a tocar sanfona e há muitos construtores, mas os instrumentos lá são construídos ao jeito de cá: há bons construtores, mas a maior parte são assim um tanto ou quanto rústicos. Depois, os músicos que sobressaem querem instrumentos melhores...
Os galegos têm uma educação musical fora de série. Hoje em dia toda a gente toca gaita-de-foles, em todas as casas há um gaiteiro. É uma coisa que foi implementada. Ensina-se gaita no conservatório. Aqui alguma vez se viu ensinar guitarra portuguesa num conservatório, ou assim uma coisa? Ensina-se nos conservatórios a música clássica, que nem é a portuguesa por sinal. São raros os compositores portugueses que se ensinam nos conservatórios. Em França os conservatórios têm orquestras de sanfonas, de gaitas... Acontece que os instrumentos não são maiores nem são menores: a música é que é diferente. É só uma questão de linguagem.
Eu penso que se está a fazer alguma coisa nesse sentido, já há escolas de formação musical profissional, a Escola Superior de educação tem neste momento cursos virados para a música. Só que estas coisas vão dando frutos muito lentamente. Passamos um período em que não havia nada. Havia as bandas filarmónicas, que eram as grandes escolas de música de Portugal. Temos grandes instrumentistas de sopro que vieram das bandas e estão aí a dar cartas em muitos lados.
É difícil abandonar os instrumentos depois de os fazer. Sou um bocado selectivo. Não faço instrumentos para toda a gente. Quem me procura para fazer instrumentos tem pelo menos que saber tocar. Tem que ser boa gente. Gente um pouco mais exigente, até porque os instrumentos custam um pouco mais.»