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edição n.º 11 poesia [2] troglodýtes trogloditikós  

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Colaboradores neste número: Agapito Laranjeira, Albertino Sousa, Anabela Ribeiro, Carlos “Cazé” Dias, Duarte Carvalho, Elza Garcia, Fernando Gouveia, Gil Silva (Giló), Jorge Rodrigues, José Ferreira Borges, Luís C. Teixeira, Luís D'Almada, Luísa Costa, Manuel Guimarães, Maria dos Remédios, Paulo Mourão, Pedro Martins Colaço, Rui Duarte, Troglodýtes Trogloditikós, Vítor Lamas.


... Entretanto, a lisura invencível da luz alta espraia-se no corpo sem lirismo. Se o instinto inaugura, o olhar cria. Se a razão calcula, o olhar trejeita.

Do inessencial


Escrevo através do inessencial. A orla da folha arrasta-se contra o infinito, cercadura obstinada que repugna à memória lívida do parque. O dia inclina-se para a habitual resposta compacta e paga o tributo ao dever que aos poucos fulminou. Assim é consentido o centro das sucessivas erosões da fantasia, erosões despedidas do grito emparedado. A tarde entrega o plasma de luz violenta. Não há deus antes dessa entrega nem depois da loucura. No interior dos dedos a tarde é outra, carregada de penumbras mansas. Elas exsudam o frio doloroso. Reconheço que as horas se ordenam para o espasmo dos navios e que dentro das mãos há também madeira incendiada. Mas o lugar da noite é um plágio de códigos, que roubam ao infinito a censura do vento. O mistério é a metamorfose de um casulo devastado. Conhece a agonia e as pregas da terrosidade. O seu ver deixa-se possuir por ondas e obstáculos de muros elegantes, põe na ferida ancestral a bomba incriada, a emoção prodigiosa. (O silêncio converge para um fio de água. As escarpas amargas magnetizam a solidão-exílio imperial.) Ao tocar o norte inexpressivo, regresso à prosa das manhãs abertas. Os lenhadores de sempre estão ali. Juram que as árvores conhecem o drama de pulsos rasgados. O sonho exacto reflecte-se no lago ou suporta por delicadeza os corpos sem fundura. Ontem, arquitectei a palavra e o compasso do sangue. Desfiz o labirinto sobre a mesa de metal, o jogo amado em uivos de brandura. Hoje canto a virtude como sono esventrado e os gumes das grades macilentas. O canto avaro é de substância igual à do gato rápido e à pele que se gasta hesitante até permanecer. Se a terra dançante cabe nos vasos e as colunas bóiam à tona de um instante-adiado-esgoto, posso perscrutar a adoração do fogo e as pedras embriagadas, tecer grânulos de gelo no ventre das estátuas. O susto ilumina a idade contemplativa. Estou certo de que as hastes proliferam contra a escrita do desejo. Mas por impura transferência também a beleza é fazedora: há cimos de neve, há mansões de ratos. Entretanto, a lisura invencível da luz alta espraia-se no corpo sem lirismo. Se o instinto inaugura, o olhar cria. Se a razão calcula, o olhar trejeita.

 
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