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apartado 51
caricatura
Colaboradores neste número:
Agapito Laranjeira, Albertino Sousa, Anabela Ribeiro, Carlos “Cazé”
Dias, Duarte Carvalho, Elza Garcia, Fernando Gouveia, Gil Silva (Giló), Jorge Rodrigues,
José Ferreira Borges, Luís C. Teixeira, Luís D'Almada, Luísa Costa,
Manuel Guimarães, Maria dos Remédios, Paulo Mourão, Pedro Martins
Colaço, Rui Duarte, Troglodýtes Trogloditikós, Vítor Lamas.
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... Entretanto, a lisura
invencível da luz alta espraia-se no corpo sem lirismo. Se o instinto inaugura, o olhar
cria. Se a razão calcula, o olhar trejeita.
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Do inessencial
Escrevo através do inessencial. A orla da folha arrasta-se
contra o infinito, cercadura obstinada que repugna à memória lívida do
parque. O dia inclina-se para a habitual resposta compacta e paga o tributo ao dever que aos
poucos fulminou. Assim é consentido o centro das sucessivas erosões da fantasia,
erosões despedidas do grito emparedado. A tarde entrega o plasma de luz violenta.
Não há deus antes dessa entrega nem depois da loucura. No interior dos dedos a
tarde é outra, carregada de penumbras mansas. Elas exsudam o frio doloroso.
Reconheço que as horas se ordenam para o espasmo dos navios e que dentro das mãos
há também madeira incendiada. Mas o lugar da noite é um plágio de
códigos, que roubam ao infinito a censura do vento. O mistério é a
metamorfose de um casulo devastado. Conhece a agonia e as pregas da terrosidade. O seu ver
deixa-se possuir por ondas e obstáculos de muros elegantes, põe na ferida
ancestral a bomba incriada, a emoção prodigiosa. (O silêncio converge para
um fio de água. As escarpas amargas magnetizam a solidão-exílio imperial.)
Ao tocar o norte inexpressivo, regresso à prosa das manhãs abertas. Os lenhadores
de sempre estão ali. Juram que as árvores conhecem o drama de pulsos rasgados. O
sonho exacto reflecte-se no lago ou suporta por delicadeza os corpos sem fundura. Ontem,
arquitectei a palavra e o compasso do sangue. Desfiz o labirinto sobre a mesa de metal, o jogo
amado em uivos de brandura. Hoje canto a virtude como sono esventrado e os gumes das grades
macilentas. O canto avaro é de substância igual à do gato rápido e
à pele que se gasta hesitante até permanecer. Se a terra dançante cabe nos
vasos e as colunas bóiam à tona de um instante-adiado-esgoto, posso perscrutar a
adoração do fogo e as pedras embriagadas, tecer grânulos de gelo no ventre
das estátuas. O susto ilumina a idade contemplativa. Estou certo de que as hastes
proliferam contra a escrita do desejo. Mas por impura transferência também a
beleza é fazedora: há cimos de neve, há mansões de ratos. Entretanto,
a lisura invencível da luz alta espraia-se no corpo sem lirismo. Se o instinto inaugura,
o olhar cria. Se a razão calcula, o olhar trejeita. |
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