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edição n.º 11 opinião [3] carlos “cazé” dias  

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apartado 51

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Colaboradores neste número: Agapito Laranjeira, Albertino Sousa, Anabela Ribeiro, Carlos “Cazé” Dias, Duarte Carvalho, Elza Garcia, Fernando Gouveia, Gil Silva (Giló), Jorge Rodrigues, José Ferreira Borges, Luís C. Teixeira, Luís D'Almada, Luísa Costa, Manuel Guimarães, Maria dos Remédios, Paulo Mourão, Pedro Martins Colaço, Rui Duarte, Troglodýtes Trogloditikós, Vítor Lamas.

ilustração de Paulo Araújo
ilustração de Paulo Araújo

... e cheguei à conclusão que talvez não seja boa ideia ligar a televisão para tentar adormecer...

Yin-yang


Algures entre o dia 8 e 15 de Dezembro, não posso precisar o dia, acabando de marcar presença na frenética noite aguiarense, o regresso a casa era merecido, e o conforto dos meus lençóis de flanela era uma meta pela qual ansiava, pois o desgaste era bastante.

Na tentativa de um rápido adormecer, liguei a televisão e ali fiquei a ver las notícias, num dos canais de nuestros hermanos, enquanto aguardava a companhia de Morfeu (cada um dorme com quem quer, ou com quem pode...).

Rápido despertei do meu contínuo entorpecer, quando ouvi uma notícia que basicamente dizia que “numa determinada vila/cidade (não posso precisar) espanhola, e depois de demonstrada morte cerebral de uma paciente, esta seria mantida, por máquinas, num estado de vida sustentada durante 7 semanas, pois no seu ventre gerava um feto ao qual, por vontade da família, se queria dar hipóteses de sobrevivência e esse espaço de tempo seria essencial ao êxito desta missão”.

De inicio fiquei a pensar se tal atitude seria ou não ética, mas logo deixei escapulir este pormenor para segundo, terceiro ou quarto plano, quando me apercebi que tal era um acto de vida.

Fiquei sensibilizado, rapidamente me transpus para a evolução social e tecnológica da espécie humana, senti crescer em mim uma enorme fé neste mundo, que por tantas vezes dá a sensação de ter entrado em ponto de rotura.

Comecei a imaginar a felicidade daqueles familiares a quem a morte arrebatou, talvez uma irmã, uma filha, uma tia, mas que se tudo correr bem, ficará personalizada naquele feto que devolverá toda a esperança que tal perda abala.

Enquanto tudo isto passava de neurónio para neurónio, surge talvez por artes mágicas de Merlim ou Morgana, uma outra palavra que me quebrou todo o encadeamento: Aborto, negro e infeliz como aquilo que define.

Mudemos de cenário...

Estamos num qualquer ponto geográfico deste jardim à beira-mar plantado, uma mulher com poucos recursos e um marido desempregado, que devido à falha de um contraceptivo está a gerar um feto dentro de si. Ela nada tem para lhe dar a não ser uns trapos, uma casa sem um mínimo de condições (então não é casa... se não tem condições...), uma barriga quase sempre vazia e uma educação precária.

As famílias deste casal não querem ou não podem apoiar o futuro da criança que irá nascer; o desespero começa a agravar a instabilidade familiar; para o sistema (afinal quem é o sistema?), esta mãe e este feto, a criança que irá nascer, não passam de meras estatísticas e as associações humanitárias não chegam a todo lado... mas por enquanto ainda existe esperança de um futuro humano para aquele ser; o sacerdote diz-lhes que a paróquia ainda não possui infra-estruturas para resolver este tipo de casos (não existirão verbas no Vaticano? Ou estarão a ser usadas para construir templos de ostentação?).

A custo a decisão é tomada.

A futura criança já não vai nascer, a mãe num grande sofrimento vai fazer um aborto clandestino (feito por uma enfermeira na reforma, que uma vizinha lhe recomendou), não tem dinheiro para recorrer a uma clínica privada e já é tarde para recorrer a um hospital público.

Seria o seu quarto filho. Os outros com 4, 5 e 7 anos têm olhos claros, são inteligentes e têm o rubro da vida a corar-lhe as faces, correm com os outros putos lá do bairro em mil e uma brincadeiras, próprias de uma inocência angelical.

A mãe voltou cheia de dores, abraçou os filhos e por momentos sentiu o seu coração reconfortado. Mas as dores eram mais e mais, o marido impotente em relação a tal situação, tentava ajudar a mulher o melhor que sabia. Nada parecia resultar e aquela mulher a quem falhou o contraceptivo viu a sua vida esvair-se em infecções e sofrimento, morreu porque não foi assistida atempadamente no hospital.

O pai das três crianças viu-se desorientado refugiou-se no álcool e a pouco e pouco transformou os filhos na base do seu sustento (lá andavam os putos nos estacionamentos dos grandes centros comercias, imundos e cheios de fome!), destruindo assim a pouca felicidade infantil que ainda restava nas suas crianças, os seus filhos.

O feto não foi criança, nem adolescente, nem adulto; as crianças ficaram sem mãe; o pai ficou sem forças para continuar a lutar, e da mãe ficou a estatística.

Vocês poderiam perguntar o que é que têm haver com isto, eu simplesmente responderia NADA! Mas eu fiquei a pensar nisto tudo e cheguei à conclusão que talvez não seja boa ideia ligar a televisão para tentar adormecer... (mas há quem consiga...).

 
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