volta ao index das edições de 2000
um jornal? uma revista?
edição n.º 11 opinião [2] fernando gouveia  

editorial

o jeito 1

o jeito 2

o jeito 3

o jeito 4

opinião 1

opinião 2

opinião 3

opinião 4

entrevista 1

entrevista 2

património

reportagem

torre dos coléricos

transmont. online

anacrónicas 1

anacrónicas 2

anacrónicas 3

ensaio 1

ensaio 2

poesia 1

poesia 2

apartado 51

caricatura


Colaboradores neste número: Agapito Laranjeira, Albertino Sousa, Anabela Ribeiro, Carlos “Cazé” Dias, Duarte Carvalho, Elza Garcia, Fernando Gouveia, Gil Silva (Giló), Jorge Rodrigues, José Ferreira Borges, Luís C. Teixeira, Luís D'Almada, Luísa Costa, Manuel Guimarães, Maria dos Remédios, Paulo Mourão, Pedro Martins Colaço, Rui Duarte, Troglodýtes Trogloditikós, Vítor Lamas.

Fotografia de Ralph Gibson
Fotografia de Ralph Gibson

Às publicações que não se encaixam nesta classificação — mais do que as minhas desculpas por meter tudo no mesmo saco — os meus parabéns!

(Ver o artigo do Rui Ângelo Araújo nesta mesma edição.)

A Imprensa Regional em 10 Lições


Nestes últimos anos os jornais regionais (semanais ou quinzenais) têm pululado em Trás-os-Montes, um pouco como os cogumelos. Não sei o que se passa neste domínio no resto do país, mas se julgarmos apenas pela quantidade de novas publicações, esta região deve estar a viver uma idade de ouro em termos jornalísticos...

Mas, tal como com os cogumelos, há jornais e jornais. E, infelizmente para Trás-os-Montes, os que lhe saíram em sorte são esmagadoramente do tipo sem sabor, quando não dos que dão a volta ao estômago e outras maleitas do mesmo jaez... Admitamos: há excepções (e todos sabem quais são), mas não a ponto de mudar significativamente o cenário. Uma andorinha não faz a Primavera.

O que se segue é uma radiografia à imprensa regional transmontana, uma compilação das suas principais características. Estou certo que em muitos pontos coincidirá com o panorama das demais regiões, mas isso só poderá ser confirmado por quem por lá (sobre)vive.

Às publicações que não se encaixam nesta classificação — mais do que as minhas desculpas por meter tudo no mesmo saco — os meus parabéns!

CACIQUISMO e SUBSERVIÊNCIA: A característica mais comum na imprensa transmontana é o caciquismo e a subserviência [ver também MONOLITISMO]. Como da imprensa regional o que se exige é um “jornalismo com valores morais”, a Igreja Católica (existe lá outra bitola?) deverá rever-se na palavra escrita, de onde advirão muitas bênçãos (assim espirituais como temporais). Por outro lado, dependendo a sobrevivência dos órgãos de informação dos meios pequenos em grande medida da publicidade institucional1, acima de tudo mais convém não criar inimizades entre os barões locais, assumindo antes uma postura que na gíria recebe a designação de “jornalismo responsável”. Se se almejarem voos mais altos, o discurso laudatório do poder é sempre incentivado [ver RECIPROCIDADE].

TRAMPOLINISMO: Um jornal representa sempre um certo poder, pois dele poderá depender o controlo da Opinião Pública. Assim, que melhor rampa de lançamento política do que uma tribuna num jornal da região? Daqui poderá resultar uma outra posição não rara na imprensa regional (se bem que aparentemente contrária à apresentada no ponto anterior): a de certos jornais que fazem da oposição aos detentores do poder local o seu cavalo de batalha e a sua política editorial.

A curto prazo são registados alguns benefícios ao nível do debate, como seja o surgimento de um escaparate para (algum)as tendências políticas anteriormente privadas de voz2. Mas o espectro de ideias nunca se alarga muito [ver MONOLITISMO], pois o que os move não é a busca do pluralismo, antes a substituição de uma nomenklatura por outra: como diria Iznogoud, personagem ficcional (?) de Goscinny, «Eu quero ser o Califa no lugar do Califa» — ou, reportando-nos a uma realidade mais caseira, «O meu Cacique é o outro».

Se o “jornalismo responsável” pode apresentar brechas quanto ao poder político, o mesmo não se passa quanto ao poder religioso: questionar a Igreja (Católica) poderia fazer tender o fiel da balança para o lado contrário, e não há nada pior para um político “trampolinizável” do que um anátema...

MONOLITISMO: Se há uma acusação que não podemos fazer à imprensa regional é a de falta de “coerência editorial”. Para quê publicar artigos de opiniões divergentes, se a deles é que é a recta, como de resto o podem confirmar os seus muitos amigos? Depois, a diversidade confunde o Povo ou, o que ainda é pior, leva-o a pensar nos assuntos e a decidir por si — o primeiro passo para a heresia... Pluralismo sim, mas a uma só voz — os coros agradam ao Senhor. (Walter Lippmann dizia que quando toda a gente pensa da mesma maneira, ninguém pensa grande coisa — mas que sabia ele da nossa realidade?...)

Um corolário desta “coerência” é a consanguinidade de alguns jornais regionais, com muitos colaboradores (ou mesmo artigos publicados) em comum — a esterilidade ideológica resultante deste incesto é aqui vista como um benefício [ver FOSSILIZAÇÃO].

MANIQUEÍSMO: Como consequência deste monolitismo cai-se numa abordagem maniqueísta dos assuntos, em especial se estes envolvem valores morais: o mundo divide-se em “Nós” e “Os Outros”. Nós — os rectos, os defensores das ordens divina e social, mantenedores da Santa Tradição que tornou o nosso o Povo Nobre que é; Os Outros — forças obscuras a orquestrar a corrupção dos valores morais da nossa Civilização3. E toda a análise é feita partindo deste pressuposto, sem meios termos: Portugal, Trás-os-Montes, a nossa vila ou cidade, esta ou aquela personalidade ora são oásis de moralidade e dinamismo que todos deveriam seguir [ver BAIRRISMO], ora são pólos de atracção para o abismo em que o Mundo se afunda.

RECIPROCIDADE: Mas que ninguém diga que na imprensa transmontana não se é amigo dos amigos! O lema da maioria dos seus colaboradores parece ser «Diz bem sem esquecer ninguém» — em especial se esses outros de quem falam forem políticos com raízes firmadas na região, pois se «O primeiro e maior dever do homem é a gratidão» (nas palavras do Papa Pio XII4), a materialização desta acabará por se fazer...

E, sendo a imprensa regional tão generosa, há louvores que cheguem para (quase) todos, a começar pelos demais «verdadeiros intelectuais desta terra»5 que também escrevem em algum jornal (porventura o mesmo), e que na primeira oportunidade retribuirão, com juros...

PEDANTISMO Assim, como nos espantarmos que os jornais de uma das regiões mais remotas e abandonadas de Portugal transbordem de «insignes» colaboradores (entre eles o Eng. Qualquer-Coisa, «douto» como outro não há — excepto, claro, o «ilustre» Dr. Fulano, que por acaso também colabora no mesmo jornal), todos senhores de uma «prosa inspirada» e «magistral» com que «abrilhantam» os «perspicazes» artigos de opinião que em boa hora o jornal deu letra de forma...? Faltam-me palavras para descrever o esplendor que reina na nossa imprensa — claramente o dicionário de sinónimos deles é melhor do que o meu...

FOSSILIZAÇÃO: Evolução social é algo que não diz nada (de bom) aos que fazem a imprensa regional que temos. As ideias boas, os valores correctos, as ideologias salutares, a atitude a adoptar são as de um tempo mítico ao qual essas pessoas ainda tiveram a “sorte” de pertencer — e a desdita de ver como ele passou6. Toda a medida tendente a alterar “A Tradição” (com maiúscula e vénia) é obra de uns degenerados [ver MANIQUEÍSMO] infiltrados na nossa Sociedade. (Haja visto o Referendo ao Aborto...) Assim, não raro os jornais regionais constituem-se como profetas do statu quo, saudosos de um tempo que felizmente já lá vai [ver SAUDOSISMO], eternos transmissores de ignorâncias e motores de inércia, manietado(re)s pelas teias-de-aranha de uma moral religiosa caduca e castradora.

SAUDOSISMO: Statu quo sim, mas nem tanto: para a imprensa regional um pouco de marcha atrás seria por demais bem vinda: até ao tempo edénico em que Portugal era uma nação pluricontinental e tinha um Timoneiro à altura; até ao tempo em que Portugal era respeitado no concerto das Nações (Aquilo na ONU? Manipulações!); até ao tempo em que o País se regia pela Santíssima Trindade: Deus, Pátria, Família (nunca o “assassínio de bebés não nascidos” se teria equacionado!); até ao tempo em que as nossas “províncias” ultramarinas eram um paraíso na Terra onde a irmandade reinava7, «e Deus viu que isso era bom» (recordaram-nos recentemente8 que «Colonizar é sinónimo [...] de civilizar. Civilizar não é explorar.»); até ao tempo antes do E depois do Adeus...

BAIRRISMO: Mas se Portugal se vai aos poucos perdendo, Trás-os-Montes ainda vai conservando algo da sua “pureza primordial”. Em grande medida, graças à imprensa regional que tem [ver FOSSILIZAÇÃO]. Mas nem só dos bons velhos valores vive a região, não — a grandeza abunda neste rincão pátrio como em nenhum outro sítio! A terra é «bendita», «ubérrima» e «paradisíaca», os municípios são «dinâmicos» (apesar de se desertificarem), os povos que os habitam são «nobres», as cidades e vilas são «antiquíssimas» (mesmo que só tenham uns séculos) e acima de tudo «belas» (há mesmo algumas, que têm a sorte de rimar em -al, para as quais há sempre algum leitor que envia um poemeto em que assevera ser «a mais bela deste nosso Portugal»). Se não acreditam, basta ler os periódicos transmontanos: está lá tudo, preto no branco. (E, como sabemos, se está escrito é porque é verdade...)

TRAGICOMÉDIA: Posto isto, perante a imprensa regional transmontana o leitor crítico vê-se o mais das vezes de sentimentos divididos: rir ou chorar? Rir — da pobreza ideológica e de espírito, do bairrismo bacoco, da paralisação no tempo, da mediocridade crónica, do ridículo a que as coisas chegam (ou de onde, desgraçadamente, nunca saíram), do amadorismo infantilizante da maioria dos textos, do fait divers pequenino e estéril9 — ou chorar — exactamente pelas mesmas razões, mais o facto de que é esta a memória que vai ficar para a posteridade, armazenada nos nossos arquivos?

Com «Faróis de Alexandria»10 como estes, quem se admira que Trás-os-Montes se encontre encalhado?...


fgouveia@periferica.org

 
vai para o topo da página  


Notas:

1 Ver o artigo do Rui Ângelo Araújo nesta mesma edição.
2 É curiosa a afeição da imprensa regional pela “voz” [ver também artigo do Rui Ângelo Araújo]. Uns (A Voz de Trás-os-Montes, A Voz de Chaves, A Voz do Nordeste, etc.) levam-na por título, outros (ocorrem-me o Notícias de Vila Real: estatuto editorial, n.º 0, 29 de Setembro de 1998; e o autodenominado «jornal de vanguarda» Mensageiro de Bragança: editorial, n.º 2758, 14 de Janeiro de 2000) propõem-se a «dar voz a quem a não tem» — estaremos nós perante, não jornalistas, mas terapeutas da fala?
3 Recordo os viperinos textos de um (não tão) misterioso “JG”, transbordando fel e veneno, e de uma demagogia identificável à légua, publicados em A Voz de Trás-os-Montes entre Fevereiro e Junho de 1998, aquando do Referendo ao Aborto. Material antológico para um estudo do género.
4 Mensagem radiofónica proferida em português no dia 31 de Outubro de 1942 (transcrita na revista Semper, n.º 31).
5 Ana Maria Aguiar Macedo, A Voz de Trás-os-Montes n.º 2589, 6 de Janeiro de 2000.
6 «Declaradamente a última geração que antecedeu o ano 2000 e que liderou em Portugal as últimas décadas do século XX, traiu os destinos da Pátria que Afonso Henriques delineou nos campos de S. Mamede, em 1128.» (Barroso da Fonte, Notícias do Douro, 31 de Dezembro de 1999.)
7 «Ainda ontem forças positivas multi-raciais, filhas do teu ventre, protegiam teu ser luso. [...] Dois povos se irmanarem em cultura de aceitação recíproca, unos defendendo as suas terras onde o sustento sempre vinha sobrando para o dia seguinte.» (António Gomes – Terras de Panóias, artigo «Ó África Lusa», A Voz de Trás-os-Montes n.º 2541, 21 de Janeiro de 1999.)
8 João Baptista Martins, Notícias de Chaves, 31 de Dezembro de 1999.
9 «Lamego tem uma nova licenciada» deu direito a parangona e a foto sorridente da vítima numa edição de 1999 do Lamego Hoje. Não obstante tratar-se de um acontecimento-charneira na milenar história lamecense, não recordo a data precisa.
10 Parafraseando Ana Maria Aguiar Macedo, ed. cit.


'Andarilho', símbolo do EITO FORA

Leia este texto (e muitos outros) também na Secret’Área, o refúgio literário de Fernando Gouveia.

 

transmontano sem preconceitos