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| um jornal? uma revista? | |||
| edição n.º 11 | opinião [2] | fernando gouveia | |
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opinião 2
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Às publicações que não se encaixam nesta classificação — mais do que as minhas desculpas por meter tudo no mesmo saco — os meus parabéns! (Ver o artigo do Rui Ângelo Araújo nesta mesma edição.) |
A Imprensa Regional em 10 Lições
Nestes últimos anos os jornais regionais (semanais ou quinzenais)
têm pululado em Trás-os-Montes, um pouco como os cogumelos. Não
sei o que se passa neste domínio no resto do país, mas se julgarmos apenas
pela quantidade de novas publicações, esta região deve
estar a viver uma idade de ouro em termos jornalísticos...
Mas, tal como com os cogumelos, há jornais e jornais. E, infelizmente
para Trás-os-Montes, os que lhe saíram em sorte são esmagadoramente do
tipo sem sabor, quando não dos que dão a volta ao estômago
e outras maleitas do mesmo jaez... Admitamos: há excepções (e
todos sabem quais são), mas não a ponto de mudar significativamente o
cenário. Uma andorinha não faz a Primavera.
O que se segue é uma radiografia à imprensa regional
transmontana, uma compilação das suas principais características.
Estou certo que em muitos pontos coincidirá com o panorama das demais regiões,
mas isso só poderá ser confirmado por quem por lá (sobre)vive.
Às publicações que não se encaixam nesta
classificação — mais do que as minhas desculpas por meter tudo no mesmo saco
— os meus parabéns!
CACIQUISMO e SUBSERVIÊNCIA: A característica
mais comum na imprensa transmontana é o caciquismo e a subserviência [ver
também MONOLITISMO]. Como da imprensa regional o que se exige é um “jornalismo
com valores morais”, a Igreja Católica (existe lá outra bitola?) deverá
rever-se na palavra escrita, de onde advirão muitas bênçãos
(assim espirituais como temporais). Por outro lado, dependendo a sobrevivência dos
órgãos de informação dos meios pequenos em grande medida da
publicidade institucional1, acima de tudo
mais convém não criar inimizades entre os barões locais, assumindo
antes uma postura que na gíria recebe a designação de “jornalismo
responsável”. Se se almejarem voos mais altos, o discurso laudatório
do poder é sempre incentivado [ver RECIPROCIDADE].
TRAMPOLINISMO: Um jornal representa sempre um certo poder, pois dele
poderá depender o controlo da Opinião Pública. Assim, que melhor
rampa de lançamento política do que uma tribuna num jornal da região?
Daqui poderá resultar uma outra posição não rara na imprensa
regional (se bem que aparentemente contrária à apresentada no ponto anterior):
a de certos jornais que fazem da oposição aos detentores do poder local
o seu cavalo de batalha e a sua política editorial.
A curto prazo são registados alguns benefícios
ao nível do debate, como seja o surgimento de um escaparate para (algum)as
tendências políticas anteriormente privadas de voz2.
Mas o espectro de ideias nunca se alarga muito [ver MONOLITISMO],
pois o que os move não é a busca do pluralismo, antes a substituição
de uma nomenklatura por outra: como diria Iznogoud, personagem ficcional (?) de
Goscinny, «Eu quero ser o Califa no lugar do Califa» — ou, reportando-nos a uma realidade
mais caseira, «O meu Cacique é o outro».
Se o “jornalismo responsável” pode apresentar brechas quanto ao poder
político, o mesmo não se passa quanto ao poder religioso: questionar a Igreja
(Católica) poderia fazer tender o fiel da balança para o lado contrário,
e não há nada pior para um político “trampolinizável” do que um
anátema...
MONOLITISMO: Se há uma acusação que não
podemos fazer à imprensa regional é a de falta de “coerência editorial”.
Para quê publicar artigos de opiniões divergentes, se a deles é que
é a recta, como de resto o podem confirmar os seus muitos amigos? Depois, a diversidade
confunde o Povo ou, o que ainda é pior, leva-o a pensar nos assuntos e a decidir
por si — o primeiro passo para a heresia... Pluralismo sim, mas a uma só voz
— os coros agradam ao Senhor. (Walter Lippmann dizia que quando toda a gente pensa da
mesma maneira, ninguém pensa grande coisa — mas que sabia ele da nossa realidade?...)
Um corolário desta “coerência” é a consanguinidade
de alguns jornais regionais, com muitos colaboradores (ou mesmo artigos publicados) em comum
— a esterilidade ideológica resultante deste incesto é aqui vista
como um benefício [ver FOSSILIZAÇÃO].
MANIQUEÍSMO: Como consequência deste
monolitismo cai-se numa abordagem maniqueísta dos assuntos, em especial se estes
envolvem valores morais: o mundo divide-se em “Nós” e “Os Outros”. Nós
— os rectos, os defensores das ordens divina e social, mantenedores da Santa Tradição
que tornou o nosso o Povo Nobre que é; Os Outros — forças obscuras a
orquestrar a corrupção dos valores morais da nossa Civilização3.
E toda a análise é feita partindo
deste pressuposto, sem meios termos: Portugal, Trás-os-Montes, a nossa vila ou cidade,
esta ou aquela personalidade ora são oásis de moralidade e dinamismo que todos
deveriam seguir [ver BAIRRISMO], ora são pólos de atracção para
o abismo em que o Mundo se afunda.
RECIPROCIDADE: Mas que ninguém diga que
na imprensa transmontana não se é amigo dos amigos! O lema da maioria
dos seus colaboradores parece ser «Diz bem sem esquecer ninguém» — em especial
se esses outros de quem falam forem políticos com raízes firmadas na
região, pois se «O primeiro e maior dever do homem é a gratidão»
(nas palavras do Papa Pio XII4), a
materialização desta acabará por se fazer...
E, sendo a imprensa regional tão generosa,
há louvores que cheguem para (quase) todos, a começar pelos demais «verdadeiros
intelectuais desta terra»5 que também
escrevem em algum jornal (porventura o mesmo), e que na primeira oportunidade
retribuirão, com juros...
PEDANTISMO Assim, como nos espantarmos que os jornais de uma das
regiões mais remotas e abandonadas de Portugal transbordem de «insignes»
colaboradores (entre eles o Eng. Qualquer-Coisa, «douto» como outro não
há — excepto, claro, o «ilustre» Dr. Fulano, que por acaso também
colabora no mesmo jornal), todos senhores de uma «prosa inspirada» e «magistral»
com que «abrilhantam» os «perspicazes» artigos de opinião que em boa
hora o jornal deu letra de forma...? Faltam-me palavras para descrever o esplendor
que reina na nossa imprensa — claramente o dicionário de sinónimos deles
é melhor do que o meu...
FOSSILIZAÇÃO: Evolução
social é algo que não diz nada (de bom) aos que fazem a imprensa regional que
temos. As ideias boas, os valores correctos, as ideologias salutares, a atitude a adoptar
são as de um tempo mítico ao qual essas pessoas ainda tiveram a “sorte”
de pertencer — e a desdita de ver como ele passou6.
Toda a medida tendente a alterar “A Tradição” (com maiúscula e
vénia) é obra de uns degenerados [ver MANIQUEÍSMO] infiltrados na nossa
Sociedade. (Haja visto o Referendo ao Aborto...) Assim, não raro os jornais regionais
constituem-se como profetas do statu quo, saudosos de um tempo que felizmente
já lá vai [ver SAUDOSISMO], eternos transmissores de ignorâncias
e motores de inércia, manietado(re)s pelas teias-de-aranha de uma moral
religiosa caduca e castradora.
SAUDOSISMO: Statu quo sim, mas nem tanto:
para a imprensa regional um pouco de marcha atrás seria por demais bem vinda:
até ao tempo edénico em que Portugal era uma nação
pluricontinental e tinha um Timoneiro à altura; até ao tempo em que Portugal
era respeitado no concerto das Nações (Aquilo na ONU? Manipulações!);
até ao tempo em que o País se regia pela Santíssima Trindade: Deus,
Pátria, Família (nunca o “assassínio de bebés não
nascidos” se teria equacionado!); até ao tempo em que as nossas “províncias”
ultramarinas eram um paraíso na Terra onde a irmandade reinava7, «e Deus viu que isso era bom» (recordaram-nos
recentemente8 que «Colonizar é
sinónimo [...] de civilizar. Civilizar não é explorar.»);
até ao tempo antes do E depois do Adeus...
BAIRRISMO: Mas se Portugal se vai aos poucos perdendo,
Trás-os-Montes ainda vai conservando algo da sua “pureza primordial”. Em grande
medida, graças à imprensa regional que tem [ver FOSSILIZAÇÃO].
Mas nem só dos bons velhos valores vive a região, não — a grandeza
abunda neste rincão pátrio como em nenhum outro sítio! A terra
é «bendita», «ubérrima» e «paradisíaca», os
municípios são «dinâmicos» (apesar de se desertificarem), os
povos que os habitam são «nobres», as cidades e vilas são
«antiquíssimas» (mesmo que só tenham uns séculos) e acima de
tudo «belas» (há mesmo algumas, que têm a sorte de rimar em -al,
para as quais há sempre algum leitor que envia um poemeto em que assevera ser «a
mais bela deste nosso Portugal»). Se não acreditam, basta ler os periódicos
transmontanos: está lá tudo, preto no branco. (E, como sabemos, se
está escrito é porque é verdade...)
TRAGICOMÉDIA: Posto isto, perante a
imprensa regional transmontana o leitor crítico vê-se o mais das vezes de
sentimentos divididos: rir ou chorar? Rir — da pobreza ideológica e de
espírito, do bairrismo bacoco, da paralisação no tempo,
da mediocridade crónica, do ridículo a que as coisas chegam (ou
de onde, desgraçadamente, nunca saíram), do amadorismo infantilizante
da maioria dos textos, do fait divers pequenino e estéril9 — ou chorar — exactamente pelas mesmas razões,
mais o facto de que é esta a memória que vai ficar para a posteridade,
armazenada nos nossos arquivos?
Com «Faróis de Alexandria»10
como estes, quem se admira que Trás-os-Montes se encontre encalhado?...
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1 Ver o artigo do Rui Ângelo Araújo nesta mesma edição.
Leia este texto (e muitos outros) também na
Secret’Área, o refúgio
literário de Fernando Gouveia. |
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transmontano sem preconceitos |
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