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edição n.º 11 opinião [1] rui ângelo araújo  

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Colaboradores neste número: Agapito Laranjeira, Albertino Sousa, Anabela Ribeiro, Carlos “Cazé” Dias, Duarte Carvalho, Elza Garcia, Fernando Gouveia, Gil Silva (Giló), Jorge Rodrigues, José Ferreira Borges, Luís C. Teixeira, Luís D'Almada, Luísa Costa, Manuel Guimarães, Maria dos Remédios, Paulo Mourão, Pedro Martins Colaço, Rui Duarte, Troglodýtes Trogloditikós, Vítor Lamas.

Rui Ângelo Araújo segundo Paulo Araújo
Rui Ângelo Araújo segundo
Paulo Araújo

Este texto é complementado por um outro, da autoria de Fernando Gouveia, publicado em paralelo, que define a “A Imprensa Regional em 10 Lições”.

Imprensa regional:
O intervencionismo nefasto do Estado e o não-intervencionismo dos cidadãos


O conceito de “imprensa regional”, tal como é posto em prática em Portugal, acolhe no seu seio uma série de equívocos, um rol de inépcias e um vasto número de más intenções. Por alheamento, complacência ou inexistência de um público exigente, e por óbvia incompetência ou mal disfarçado aproveitamento de self-made journalists, temos que a maioria dos órgãos de imprensa regional, ao invés de servirem o crescimento intelectual das populações a que se dirigem, são instrumentos de atrofiamento, obstáculos ao desenvolvimento e progresso das ideias, veículos de promoção do obscurantismo, da boçalidade, do provincianismo. Numa palavra, perpetuam a mediocridade.

Existem publicações cujos responsáveis padecem de uma ignorância e de uma insuficiência tais que os impedem de produzir uma página com alguma utilidade, mas outras há cujo efeito atrofiador é intencional, quer por disso fazerem ocultada apologia, quer por tal servir propósitos de ascensão ou domínio social.

Se um exercício regulador por parte do Estado na profusão e existência de publicações regionais poderia ser entendido como uma intromissão indesejável na vida das populações, já a concessão de apoios (nomeadamente o “porte pago”) era suposto existir com base em critérios — de mérito — bem definidos.

Como é do conhecimento geral, a grande maioria das publicações regionais existe (e faz alarde de ter um público leitor) com base numa ilimitada possibilidade de distribuição gratuita. Quando surge no horizonte qualquer tentativa de “mexer” no “porte pago”, a maioria dos directores ou proprietários de publicações regionais bradam aqui d’El-Rei que querem calar “a voz do povo”. Habituados que estão a auto-intitular-se “a voz do povo”, estes verdadeiros cancros sociais nem por minutos admitem que a circulação dos pasquins que editam e das ideias (?) que expelem deveria depender duma procura efectiva ou do estoicismo a expensas dos próprios.

A atribuição de apoios com base no número de jornalistas profissionais1 seria, segundo alguns, uma maneira de corrigir as malformações e elevar a bitola das exigências. Esta ideia teria no mínimo o mérito de poupar uns dinheiros ao Estado e diminuir a exposição do povo a uma imprensa imbecilizante.

Mas, para além de este governo (como os anteriores, de resto) não gostar de afrontar os interesses instalados, a verdade é que o fim do “porte pago”, pontualmente injusto, não se revelaria suficiente para evitar a profusão da inépcia, dado que as publicações regionais têm outras fontes de rendimento que também não dependem do mérito empresarial nem da qualidade jornalística. Falo da publicidade institucional, em especial as publicações notariais.

Esta fonte de rendimento, mais do que sustentar a existência de alguns jornais, é verdadeiramente o fim último que preside ao acto de criação de vários deles. E mais: a obrigatoriedade de publicitação de escrituras e outros actos notariais no “jornal da terra”, ignorando os reais índices de leitura das publicações (visto que a existência de um jornal na terra, por si só, não é garante de leitura, especialmente quando numa mesma região a oferta jornalística é alargada), concede-lhes um ar institucional que encobre, aos olhos mais desprevenidos do povo, a má qualidade, quando não as inconfessáveis intenções.

Chegado aqui, parece-me óbvio que, tal como as coisas estão, o Estado é parte fundamental na promoção da mediocridade, na deturpação das regras de mercado, na obstaculização a um funcionamento baseado na meritocracia. Tudo isto porque os governos não se conseguem esquivar a um certo paternalismo perante as intenções comunicativas ou aspirações literárias das populações.

Outro aspecto que co-preside ao carácter prolixo da medíocre imprensa regional é, tal como referi no início, o alheamento, a complacência, ou a inexistência de um público exigente. Se é certo que não abundam leitores capazes de intervir com uma visão crítica (fruto de um país que se impõe a si próprio e aceita a iliteracia das estatísticas), também é verdade que o alheamento ou a complacência daqueles cujas vistas vêem mais longe são razões da facilidade e da impunidade da actuação da mais reles imprensa regional. Estas atitudes, que fazem dos que as adoptam verdadeiros cúmplices dos efeitos nefastos duma má imprensa regional, apenas são compreendidas num quadro geral de apatia, de um não-intervencionismo interesseiro, conivente (quando não cobarde), de um existencialismo oco e consumista, de uma cidadania de laissez faire pouco dignificante da inteligência que é suposto definir o ser humano. À luz duma teoria evolucionista, estas posturas passivas, no final do 2º milénio, podem indicar que a forma de vida mais evoluída na face da terra é a vegetal. Parece ser para lá que caminhamos.


ruiaaraujo@periferica.org

 
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Notas:

1 Em Trás-os-Montes, tanto quanto sei, esta ideia é defendida apenas pelo “Semanário Transmontano”, embora opinião igual tenha sido publicada na edição de 11 de Janeiro do “Jornal Nordeste” por um jornalista de “O Comércio do Porto”, Paulo Ferreira.


'Andarilho', símbolo do EITO FORA

Publicado igualmente na revista electrónica NON! Cultura e Intervenção.

 

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