Camilo de Araújo Correia, filho do escritor João de Araújo Correia, nasceu no Porto em 1925, mas vive na Régua desde os três anos. Aí fez a instrução primária na escola oficial e o 1º ciclo do liceu no extinto Colégio Reguense. Completou o curso nos liceus de Lamego e Vila Real. Frequentou depois a Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, onde viria a formar-se em 1953.
Enquanto estudante de Coimbra, viveu sempre em república (o Palácio da Loucura) e despertou para a literatura, colaborando nos jornais académicos da época — A via latina, A Briosa e o Pagode.
Em 1961 foi mobilizado para Moçambique, integrado como anestesista no Hospital Militar 338, destinado a Porto Amélia. Ajudou a formar e a dinamizar o “Grupo Cénico de Porto Amélia”. Além de ter sido ensaiador, escreveu para um dos espectáculos daquele grupo a revista Atracou o "Troça Nova".
Mantém no Arrais uma coluna semanal, desde 1978.
Publicou: Histórias na Palma da Mão; Coimbra Minha; Livro de Andanças; Na Rota do Sal; Médicos, doentes e outras gentes; Coimbra, outra vez.
A sair: Quarenta Anos de Gás.
Tem um grande antecedente nas letras. E sucessores?
— Meu filho João, médico no Hospital de Santo António, tem grande pendor para a escrita. Era ainda estudantinho do liceu quando fundou um jornal académico-literário — O PegaFogo. Profissionalmente, tem uma vida de inferno e no inferno não se pode escrever...
Como definiria em traços largos, seu pai, João de Araújo Correia, e Abel Salazar?
— Apenas se irmanaram na formatura em medicina, na estima e admiração mútuas. João de Araújo Correia conseguiu ser grande e diligente contista e cronista nas sobras de tempo da sua intensa actividade profissional. Abel Salazar foi brilhante professor universitário, investigador científico no campo da histologia e distinguido artista plástico.
Que influência exerceu o seu pai na sua formação, quer a nível profissional, quer a nível da escrita?
— Muita influência. Como médico, ensinou-me a ver o doente antes da doença e a exercer clínica sem relógio e sem calendário. Como escritor, ensinou-me a ser escravo da Língua Portuguesa e a ser companheiro dos leitores, nunca os maçando e divertindo-os nos mais diversos recreios do espírito.
Quais os seus escritores predilectos?
— A essa pergunta respondo sempre com escritores falecidos. Camilo Castelo Branco foi meu professor de instrução primária... Comecei a lê-lo muito cedo. Ainda hoje vou à aula dos seus livros. Eça de Queirós, Júlio Dinis, Raul Brandão, Aquilino Ribeiro, João de Araújo Correia, Miguel Torga... Dos estrangeiros sempre me fizeram boa companhia Somerset Maugham, Charles Dickens, Érico Veríssimo, Anton Tchekov, Hemingway, Ballester... Dito assim ao correr da memória.
Sabemos que estudou em Coimbra e sobre a sua estada lá escreveu um livro. Para além de Coimbra, que outros pilares teve na sua formação?
— Sobre a minha vida académica já escrevi Coimbra Minha e Coimbra, outra vez. É bem possível que um terceiro livro venha a escrever. Na passagem da vida académica para a vida prática, há uma espécie de naufrágio... Nunca mais deixam de dar à costa da memória os mais diversos salvados...
O grande pilar da minha formação assenta na família. Além de outros preciosos membros, meu pai e meu avô paterno souberam disciplinar-me sem autoritarismo e abrir-me apetências que muito vieram a contribuir para a minha personalidade. Outro pilar foi o que aprendi e convivi nos cursos liceal e universitário. Embora tenha escolhido a vida civil, passei seis meses em Mafra, nove meses em Elvas e dois anos e meio em Porto Amélia (Moçambique). Devo reconhecer que tanta tropa me deu uma espécie de segundo esqueleto. O último pilar ainda está a erguer-se, com o exercício da profissão, muita leitura e alguma escrita.
Qual o livro, ou livros, que se encontram na sua mesinha de cabeceira?
— Escolho o que leio na cama conforme a disposição de espírito. Na mesinha nunca tenho menos de três ou quatro livros. À luz do candeeiro, tenho agora "Impressões e Paisagens" de Raul Brandão, "Tiempo y Cosas" de Azorin, "Diário VI" de Miguel Torga, "Uma Casa na Areia" de Pablo Neruda.
Da sua obra, que livro lhe agrada mais?
— Bem... eu não sei se poderemos chamar obra a meia dúzia de livros e umas centenas de crónicas dispersas pelos jornais... Nunca se gosta totalmente de um livro que se escreve. Mas "Histórias na Palma da Mão" é aquele que lembro sempre com alguma ternura. Sinto-o como um filho pequeno que um dia nos fugiu para a rua e nos deixou sobressaltados com o que lhe pudesse acontecer, mas que volta a casa sorridente e com os bolsos cheios de rebuçados.
«Não gosto de arte vazia, daquela que é preciso encher de interpretações arrojadas para se impor... Uma tela cheia de traços e borrões... não passa de um trapo para limpar pincéis.» É assim que define o abstraccionismo? E o realismo?
— Essa é a caricatura que faço do abstraccionismo. O realismo é a arte de trazer com ARTE aos nossos olhos a verdade nua e crua.
No "Livro de Andanças" fala-nos de várias viagens, mas sobre o Trás-os-Montes profundo poucas referências, nomeadamente, o Alto Tâmega, o Barroso, a Terra Fria. As suas belezas por si só não justificariam algumas páginas no livro?
— Conheço muito mal as regiões que refere. Estou certo de que uma segunda volta mais repousada me há-de levar ao papel os seus deslumbramentos. Tenho já material para uma segunda edição (corrigida e aumentada) do " Livro de Andanças".
Reportando às suas referências no “Livro de Andanças”, porquê Novembro?
— Sinto o mês de Novembro como uma doce e reconfortante pausa. Acabou o lufa-lufa do Verão e a garra do Inverno ainda não nos foi buscar à rua. Podem ainda dar-se uns passeios e em casa começa a haver um aconchego propício à leitura e à escrita.
Como é que Portugal pode não ser português?
— Portugal, ao perder o Ultramar, sofreu uma grave amputação dos seus membros. Ao ficar reduzido ao tronco europeu começou por sofrer a pletora dos regressados, mas depressa se refez porque eles, os regressados, trouxeram com as suas mágoas um patriotismo intacto. Com a queda das fronteiras, acentua-se o vaivém da emigração-imigração e daí uma possível descaracterização do nosso povo. Mas como a alma portuguesa me parece intacta, Portugal não deixará de ser sempre bem português.
Há a candidatura do Douro a património mundial. Se lhe pedissem para defender esta candidatura que argumentos esboçaria?
— Os argumentos são tantos que teria dificuldade só para os por em linha de fogo com uma certa disciplina! Vinhos e frutos capazes de irem todos à mesa do rei... Paisagem tão diversa e deslumbrante que tem sido inspiração de consagrados poetas, prosadores, artistas plásticos, fotógrafos... Comovente testemunho da luta do homem com a terra que lhe dá sustento e mortalha... História de grandeza e fidalguia expressa em casas senhoriais e outras monumentalidades... Terras que são verdadeiros relicários de tradições e onde a língua portuguesa se acoita a fugir aos espingardeiros da cidade grande...
Douro está realmente "vivo e achado"? E os durienses?
— O Douro estará sempre mais ou menos "vivo e achado" conforme os durienses estiverem mais ou menos atentos ao futuro que começa no fim de cada vindima.
Que perspectivas para o Douro? A nível cultural, turístico, paisagístico.
— As melhores perspectivas. A nível cultural, nunca os pelouros da cultura das Câmaras Municipais estiveram tão vivos e activos. A notícia e o pensamento das terras vai cada vez mais longe com o aumento do número de jornais e de estações de rádio. Assiste-se também a uma grande desinibição dos prosadores, dos poetas e dos artistas plásticos. Volta meia volta aí temos mais um lançamento de expressão cultural. As terras que se prezam vão tendo a sua biblioteca. No que respeita ao turismo houve uma verdadeira explosão com a navegabilidade do rio, e com a abertura de casas agrícolas e senhoriais a uma hotelaria de qualidade. Quanto ao aspecto paisagístico... Bem, a paisagem aí está desde o princípio do mundo, agora marcada pela mão do homem, por vezes de maneira bem comovente.
Será esta juventude tão diferente da sua?
— Muito diferente. Há sessenta anos não havia televisão, computadores, discotecas, droga, motorizadas e tantas outras dispersões do espírito juvenil de hoje.
Que futuro para esta humanidade?
— Com a droga, a sida e outras doenças a alastrar como indomáveis manchas de azeite, com uma indústria a fazer buracos no firmamento, com o terrorismo político e religioso a manter os homens em permanente guerra civil, vejo o futuro da humanidade apanhado pelo gancho de um ponto de interrogação. A minha esperança está em que não matem a última pomba branca...