«Se a minha vida dava um filme? Não. Um conto, quando muito. Talvez uma anedota. A minha nota biográfica pode ter interesse num aspecto, e esse aspecto talvez só interesse aos jovens.
Conforme a pressão social, estudei direito e formei-me. Para além disso, ia sonhando com a música. Quando tive força suficiente para me escapar à pressão social que me encaminhava para ser um émulo de um homem que teve o instinto de ser jurista, o meu pai, acedi, ou cedi, ao meu instinto, ao meu desejo de ser músico.
Até aos vinte e seis anos estudei direito e música. Durante muitos anos foi um arrastar de tensões pelas ruas de Coimbra. Vivi em Coimbra onde dava algumas aulas de guitarra e donde saía para ter aulas de guitarra no Porto e frequentar cursos de Verão. Formado em direito, aprendiz em música, tomei a decisão, aos vinte sete anos, já com mulher e filho. Daí em diante estudei música e esqueci as sebentas de direito. Fiz cursos em Mateus, frequentei uma escola no Porto, fui aos cursos do Estoril, dados pelo grande guitarrista Alberto Afonso... Mais tarde, o ensejo de ir gravar para teatro a Viena, levou-me a fazer exames à academia, à escola superior de música de Viena. Coincidiam as datas. Fui lá para gravar e, como havia também exames, fiz exame e entrei. Vim para Portugal para tratar de uma bolsa de estudos. Consegui obtê-la e fui-a renovando (estive dois anos em Viena). De seguida fui para Paris estudar. Regressei a Portugal quando acabou a bolsa e vim trabalhar para Vila Real. Como não vi perspectivas de se desenvolver o ensino da música em Vila real, aceitei um convite da Universidade de Aveiro. A partir daí tornei-me um emigrante de raio curto, entre Vila Real e Aveiro.
O resto foi tudo muito normal, muito banal. Um contrato para um concerto, um contrato para uma escola, um contrato para tocar com uma orquestra... Coisas muito normais, não têm valor.
O meu grande momento musical continua a ser o daquela cama de mogno onde o meu avô morreu, com uma colcha de linho. Quase esculpida em linho. Tinha lá uma viola do meu irmão mais velho e eu descobri que a segunda, a terceira e a quarta cordas soavam bem em conjunto. Um momento mágico: a descoberta das três cordas da viola — si, sol e ré, um acorde perfeito. Do barulho passei para um acorde perfeito na segunda inversão. A descoberta continua a ser essa. Daí ainda não passei muito. Quando isso aconteceu, tinha talvez dez anos, onze, doze, não sei. O encantamento absoluto foi dessa vez.
Passado pouco tempo, ensinado pelo meu irmão Luís, acompanhei o meu pai nas variações em ré menor do Artur Paredes. Foi o meu segundo momento. (O meu pai tocava muitíssimo bem guitarra e ainda hoje toca. Mas hoje já se aborrece. Já acha que é maior o esforço que o prazer.) Quando o acompanhei nas variações em ré menor, foi talvez a última vez que fui imortal, que tive aquele prazer incondicional de quem tinha conquistado não mais uma coisinha mas um espaço infinito. Não é de quem descobriu mais uma ilha — é de quem passou do rio para o oceano.
O terceiro momento foi tocar, aldrabada, uma sonata de Scarlatti, tirada por um disco do André Segóbia. Essa foi outra coisa enorme que guardo no cofre de ouro da minha memória. Tirar a música, como nós dizíamos, é copiar o mais fielmente possível. (A cópia é o acto anterior à criação). Eu já tocava aquilo quase igual, mas sempre diferente. Sabia que não estava igual, mas não sabia onde é que estava a diferença. Isso manteve-me numa espécie de angústia, de insatisfação permanente, que depois os mais velhos e mais sabidos me resolveram. Puseram-me um papel à frente e disseram-me: «Olha, a diferença está aqui.»
Foi assim o terceiro momento, foi o terceiro passo enorme. E estes momentos foram as grandes conquistas. Depois, talvez tenha descoberto a Madeira, ou talvez só mesmo as Berlengas... Ou nem isso. Talvez só tenha ficado por umas rochas. Depois disso digamos que não aconteceu mais nada. Vieram mais acordes, mais notas, mais alguns aplausos...
Nunca fui muito de organizar um sistema de expansão. Aliás, tenho perdido inúmeras oportunidades. Lembro uma história. Há muitos anos, no museu de Évora, no fim de um concerto, um casal de americanos, no meio de comentários sobre o concerto, perguntou-me qualquer coisa sobre a América. Eu disse: «Não, não. América não, de forma nenhuma. Nunca.» Eles ficaram com um ar estranho, um pouco gelados para a circunstância, e desapareceram. Então, a directora do museu perguntou-me: «Porque não quer ir tocar à América?» ...Eu pensava que eles me tinham perguntado se já tinha ido tocar à América...
Habituei-me demasiado à ideia inicial de fazer música, ao desejo de estar em contacto com o instrumento, ouvir o som, fazer o som... Não nasci muito naquele caixilho de predestinado. Até porque não sou. O que faço, faço com esforço. O meu mais forte convívio com a música nem sequer são os concertos. São os momentos de estudo. Há uma intimidade que é inexplicável, é intransmissível. Não quer dizer que eu toque só para mim; é uma alegria tocar para as outras pessoas. E se for para um público grande, melhor. Mas a minha matriz não é a do showman.»
Há um lado literário no seu discurso.
Eu sou filho de um poeta... Não sou propriamente um rato de biblioteca, nem coisa que se pareça; não leio doses pantagruélicas de nada; não sou erudito; mas não abdico do direito de utilizar a língua portuguesa como qualquer poeta. Tenho tanto direito a falar português como o Aquilino Ribeiro, e, portanto, falo. Se pensarmos que o mais importante de tudo é a liberdade, todos vamos parecer de alguma forma poetas. Porque a poesia anda-nos na cabeça.
O seu discurso não é propriamente o da poesia. Tem uma elaboração que não é propriamente a da poesia. A poesia terá, talvez, mais a ver com a espontaneidade. O seu discurso é elaborado, a maneira pausada como fala... Se calhar é uma maneira inteligente de falar...
Assim dizem-se muito menos asneiras (risos)... Eu sempre fui lento. Há tempos um colega meu dizia-me: «Tenho alunos que são muitos rápidos, e tenho outros que não são piores — são lentos! Não são maus são lentos!» Não é defeito.
Eu tenho um verdadeiro comprazimento em conversar. Para mim conversar é um dos mais altos prazeres da vida. Há um prazer de partilha. Se eu gosto muito de conversar sou capaz de procurar as melhores palavras que sei, os melhores modos de as dizer, por respeito à conversa. Eu acho que é muito triste que, tendo nós uma língua tão rica, tão cheia de nuances — não é preciso dizer nuances, basta dizer subtilezas — cheia de cambiantes, cheia de variantes, de matizes, cheia de pigmentações...
A conversa também pode ter uma função didáctica, como agora...
A função didáctica é esta: nós aprendemos com o que falamos, com o que dizemos. Sempre que falamos ouvimos, sempre que ouvimos criticamos, sempre que criticamos, debruçamo-nos criticamente sobre aquilo que dissemos, portanto, há uma espécie de reciclagem do nosso pensamento, há um output que evolui para input, há uma reavaliação do que pensamos quando ouvimos as palavras do nosso pensamento. Há essa função didáctica, temos muito que aprender com nós próprios.
Há uma organização dos pensamentos.
Há uma corporização. Não é um corpo gráfico, mas é um corpo sonoro, que posto numa fita magnética é tão definitivo, é tão inelástico como um corpo escrito. Portanto, nós ao falarmos pomos em causa aquilo que pensamos. Estamos a ser autodidactas. Aprendemos com o olhar dos outros também.
Com a reacção...
Com a reacção dos outros, se eles aceitam, se compreendem, ou se aceitam com ar de parvos, ou se desconfiam de manhosos... Isso traz-nos informação nova sobre a informação que nós damos aos outros. O próprio acto de criação tem essas componentes todas, tem essas ressonâncias todas. De muitos artistas ressalta essa pluralidade de sujeitos resumidos num só agente. Um pintor, ao responder a uma qualquer pergunta sobre um quadro dele, é capaz de falar do assunto da inspiração, do assunto da venda do quadro, do assunto da comunicação, do assunto da crítica que lhe é feita pelo público mais anónimo (ou o grande público — uma forma gentil de chamar ignorante a muita gente, engrandecendo-a), e vem-lhe à boca o mestre, o vendedor, o comprador... Um autor é uma entidade potencialmente múltipla, é uma cadeia de pessoas que se resume num acto que está na ponta de um pincel, ou na escolha duma cor, ou duma nota.
Ser autor é ser corajoso. Não é ser temerário. É ter a coragem de fazer assim por uma profunda convicção. Há muitos autores que não são autores de nada, não decidiram nada, deixaram-se levar pela corrente e por um dia de bom negócio. Os autores começam onde acabam as vozes dos críticos, os pedidos dos ouvintes, depois de vendido o último bilhete.
O Paulo é umas das grande referências da guitarra em Portugal. E na composição?
... Embora nenhuma das grandes referências da guitarra seja portuguesa. No campo da composição tenho menos importância do que no campo da guitarra. Tenho um prazer enorme em compor. Mas nunca dediquei à composição o mesmo labor que dediquei que à execução de guitarra. Sou melhor guitarrista do que compositor, embora possa, eventualmente, (e já aconteceu muitas vezes) ter mais prazer a compor do que a tocar guitarra. Se o meu trabalho teve alguma importância foi enquanto guitarrista e não compositor. De resto, não faço conjunturas. "Nunca suba o sapateiro muito acima da chinela".
O festival "A poente do XX" foi uma originalidade para os transmontanos?
Transmontanos é um nome. Para nós, os outros é que são transmontanos. Qual é a frente e qual é traseira do monte? O nome transmontano quer dizer que está atrás do monte, e portanto sugere sempre a ideia de alteridade, do outro lado, numa margem até mais obscura. A margem de trás, o lado de trás. Só há uma comunidade capaz de acabar com essa ideia: o povo transmontano. Nós temos que provocar a ideia de que do "Alto de Espinho" até ao Atlântico são um bando de transmontanos. Todos. Se conseguirmos que a luz nasça daqui, o problema resolve-se.
O festival "A poente do XX", se não está exactamente nessa linha, anda por aí perto?...
Muito perto, mesmo. Como utopia, está no centro disso. Como realização andará perto, ou talvez meio longe, mas a caminhar para andar mais perto. O "Poente do XX" foi uma espécie de insignificância vulcânica. Insignificância porque de facto é apenas um conjunto de seis concertos — seis concertos não podem fazer nada; mas vulcânica porque tem na sua origem uma energia... "eruptiva". A erupção de uma ideia que é esta: há portugueses mais ou menos proscritos do panorama diário dos concertos. Há um século da música também proscrito das bilheteiras, do grande público, que é o século XX. Este é o primeiro século que não ouve música contemporânea. Todos os outros ouviam quase só música contemporânea. No século de todas as teorias da comunicação, dá-se um divórcio; no século de todas as proximidades da informação, dá-se um dramático virar de costas entre o público e os criadores. Principalmente na música e parcialmente na pintura, o que é lamentável. Isto resulta em muitos autores a escreverem para a gaveta, outros a escreverem apadrinhados por instituições, e raramente sustentados pelo próprio público.
O público até houve música contemporânea: rock, pop, pimba... Parece haver aqui uma deturpação do acto criativo quando este depende de apadrinhamentos como única maneira de obstar a que os trabalhos vão para a gaveta. E nada garante que os trabalhos que vão para a gaveta não sejam melhores do que os outros. Como é que é possível dar a volta a isto, conseguir públicos, conseguir que os trabalhos não necessitem de ser apadrinhados para não irem para a gaveta? É possível isso?
É. Da parte que me toca estou a fazê-lo.
A preparação do público...
O público não precisa de ser preparado. O público está perfeitamente preparado para a surpresa, para ser surpreendido. Toda a gente está preparada para ser surpreendida. E se alguma coisa boa, uma música, ou um concerto, ou um festival podem trazer é a surpresa. Só isso já é um grande passo. "A Poente do XX" foi isso seis vezes. Faltou uma para ser um número mágico. Seria cabalístico. Teriam sido sete maravilhas, feitas por pessoas que andam aqui à volta, mais quilómetro menos quilómetro.
De qualquer maneira não foi um acontecimento de massas, pode ter sido quase elitista...
Mas o "Eito Fora" também não vende tanto como "A Bola"...
Porque é que um acontecimento cultural de qualidade é dissociável de muito público?
Não é um drama para mim. É triste que haja tanta gente que por circunstâncias mais ou menos pérfidas não tenha acesso a coisas como estas. A pessoa que vive na porta ao lado da casa em que fazemos os concertos, não tem acesso a isto. Tem dinheiro, viu o cartaz, tem tempo, mas não foi lá. Não é o problema de quem está amordaçado, mas é o problema de quem é mudo.
É estrutural?
É um problema estrutural. Uma incapacidade que se foi gerando, e essa incapacidade manifesta-se dizendo: «está frio»; dizendo: «há telenovela». São sintomas de inanição, de falta de adesão à aventura. As pessoas estão habituadas a ter as coisas como certas, a ter o êxito certo. Vêem o bestseller na televisão porque é bestseller, não é por terem curiosidade de ver o que é que se passa. Como nenhum dos artistas que actuou neste festival é um bestseller, a tendência é as pessoas não irem — até que alguém lhes diga: «Perdeste um bestseller.» As pessoas esquecem a laranja e subnutrem-se da casca. Não porque sejam estúpidas, mas porque são muitos anos de mau hábito, de estupidificação imposta. A estupidez é um invólucro que está mais ou menos a sufocar muita gente. Mas eu não posso dizer que em Vila Real se tenha notado isso. Realmente com temperaturas muito baixas como estavam, geadas (estava tudo muito branco)... O próximo "A Poente do XX", que não sei como se vai chamar, vai ser antes das geadas.
Está aí uma crítica subjacente: «Vamos fazer isto agora, que depois vêm aí as geadas e podemos não ter ninguém...»
Eu ouvi muitos concertos ao som da neve, em Viena, em Paris, com temperaturas muito baixas. Um bocado de frio no cachaço não faz mal a ninguém. É preciso as pessoas sentirem que as coisas têm que ser procuradas. Cada pessoa tem que ter o prazer de conquistar um livro, ou um concerto, ou um filme. Ou um amor. Tudo tem que ser conquistado.
A Câmara apoiou? Interessou-se de alguma maneira?
A Delegação da Cultura garantiu-me a possibilidade de o fazer. Em conversa casual, o Dr. Jorge Ginja entusiasmou-se com a ideia de uma pequena cidade contribuir para o cômputo da música do século XX. A Câmara tem mostrado bastantes dificuldades económicas. Não fui à Câmara, mas mandei os convites. Não apareceu ninguém. Foi pena. Acho que também precisam de assistir a estes concertos, também merecem. Já são horas do município sair do seu claustro e vir ter com aqueles que estão no terreno. É tempo de se atender às vontades das maiorias e das minorias, em vez de se fazerem contas de mercearia aos votos. De qualquer modo, aqueles que não vieram ouviram falar nisto. Mais tarde ou mais cedo vão ser suficientemente orgulhosos para se associarem...
Alguns vão ter é que perder um bocadinho de orgulho...
Não, não. Se tivessem que perder era vaidade, mas não orgulho. O orgulho é o parente rico, inteligente e criativo da vaidade. A vaidade é vã, vanitas. A vaidade é a parte negativa do orgulho.
... É bom aparecer-se, não com projectos delirantes, mas com obras já feitas. Obras que depois têm que ser solidificadas e têm que ser acarinhadas pelo poder local. Temos que acabar com o hábito de ir comprar chouriço a Feces...
Como dizia há bocado, se alguém pode mudar a imagem dos transmontanos são os transmontanos...
O "A Poente do XX" julgo que foi uma demonstração desse sentido, embora extensivo à relação entre Portugal e o estrangeiro. Sem qualquer espécie de nacionalismo bacoco.
Deduzo daí que se pode comparar a relação de Trás-os-Montes com o resto do país com a relação de Portugal com o estrangeiro?
Parece-me que sim. Aqueles ombros encolhidos do transmontano perante o resto do país são os mesmo ombros que o país se habituou a ter perante o estrangeiro. Mas, um pouco por toda a parte nós vamos tendo, felizmente, razões para pensar que não é assim. Se nós pensássemos só nos últimos anos podíamos mencionar Damásio, Saramago, Maria João Pires, Paula Rego. Podemos pensar como é que um país tão pequeno consegue estar representado cimeiramente em tantos domínios!
Também há o inverso da medalha: a maior parte desses nomes, se não sempre, pelo menos circunstancialmente têm uma animosidade com o país. Ou o país com eles. A dada altura todos acabam por se queixar do fraco carinho que têm no país de origem, e a verdade é que o país muitas vezes lhes vira um bocado as costas. Continua a haver um divórcio entre o país e aqueles que estão a fazer alguma coisa.
Aí falta o orgulho. Repara que de há poucos anos para cá é que nós aprendemos a ter, digamos, um orgulho democrático nos descobrimentos. Sempre tivemos a tendência mórbida para a autopunição. Custou-nos até a aceitar termos sido líderes da conquista do mundo. Ultimamente esse complexo está a desaparecer.
Há um certo mal estar pelo facto da cultura que é feita para um número restrito de pessoas ser paga por todos, até pelas massas ausentes, uma vez que ela é subsidiada...
Nunca esperei ter espectáculos de massas, mas espectáculos de massas cinzentas. Não tenho nenhum complexo em relação a isso. Repara: uma cidade não é um conjunto de casas; uma cidade é um conceito de vida. O que conta para o conceito de cidade não é o número de casas ou de avenidas; é principalmente a potencialidade de um determinado núcleo urbano. Uma cidade como Vila Real — que é uma capital de distrito, que seria até, talvez, se houvesse regionalização, uma capital regional — tem que assumir-se como "cidade capital", como uma "cabeça". E uma cabeça não pode ser uma cabeça de um dedo, tem que ser a cabeça de um corpo inteiro. Nessa medida, a capital tem de oferecer tudo a todos. Uma capital tem que oferecer uma saída para cada ambição, tem que ter potencialmente resposta para tudo. Por isso, eu não tive nenhum complexo em trazer para Vila Real uma coisa de especialidade. Conceptualmente, para que haja a construção integral do homem aqui, é fundamental que haja este espaço de imaginação e de comunicação. A resposta a este investimento de capital surge sempre de forma indirecta. Surge na evolução das mentalidades, surge na progressiva abertura de espírito às coisas novas. Que hoje aparece pela ciência, amanhã pela música, depois pelo desporto, a seguir por outra coisa qualquer.
Não tenho nenhuma dúvida que manifestações como esta, como o ciclo que o Raúl Pinto está a fazer, como o festival de Mateus, etc., são focos de irradiação de prestígio da cidade, são focos de abertura de mentalidades e até chamamento de gente interessante para viver em Vila Real. Isto tem uma força enorme no conceito que as pessoas têm sobre esta cidade. Nesta altura não há turistas. Os turistas estão todos na Europa central a regular o aquecimento, estão na vida deles a juntar os marcos e os francos e os dólares que vão gastar durante o Verão. Mas este festival não é dirigido aos turistas. É um caso de amor entre a organização, entre a cidade e entre os músicos que actuaram. Estes são os implicados.
Até porque uma terra não pode proporcionar uma vivência intelectual durante o Verão se não a tiver durante o resto do ano, sob o risco de montar uma farsa, um cenário estival pouco solidificado.
Mas se os turistas não estão neste festival é porque a cidade não tem sido capaz de captar turistas de Inverno.
Há a queixa, os próprios agentes de turismo a fazem, de que não existem actividades. Aos turistas apenas lhes resta dormir ou ir para a cozinha comer alheiras até fartar. Importava haver uma coordenação entre as diversas entidades de modo a estabelecer uma programação que assegurasse actividades durante todo o ano?
Sou fervoroso adepto disso. Passou-se algo semelhante neste festival. A Delegação da Cultura telefonou-nos a dizer que a Universidade tinha pedido um concerto porque estavam cá os congressistas da Quinzena da Ciência e Tecnologia. Mudámos um concerto para a Aula Magna da universidade, um sítio mau, mas eu fiquei contentíssimo por haver uma convergência de energias. As pessoas da ciência e tecnologia juntarem-se a um festival de música... Pensar a ciência à tarde e sentir a música à noite. Maravilhoso. (Foi pena que, por distracção, acabassem por ficar todos num restaurante...)
Para o ano haverá uma sequela deste festival?
Sim, mas... para ser sequela, não pode ser igual a este. E já vai ser feito com muitos aspectos diferentes deste.
Vai ser reforçado o lado do marketing...
Esse lado vai ser reforçado, mas vão ser reforçadas outras ideias. É preciso principalmente mexer com o bem estar pardo e podre. Não estou a fazer nenhuma acusação a ninguém. É preciso mexer com os nossos hábitos preconceituosos.
Vai ser mais ambicioso...
Não, porque o projecto deste ano era infinitamente ambicioso. Não é o facto de serem seis concertos e de ser um festival barato que implica que não seja extremamente ambicioso. Uma janela pode ter um metro quadrado, mas dela podem-se ver as galáxias.
O saldo do “A Poente do XX” foi positivo?
Foi absolutamente positivo. Não foi um festival perfeito, muito longe disso. Até porque, embora tenha sido conjecturado com bastante antecedência, foi concretizado em muito pouco tempo. Não foi possível pedir aos músicos que dirigissem o repertório com o rigor que seria de desejar. Tivemos que pedir aos músicos que tocassem aquilo que tinham em estante. Mas o certo é que houve já uma ideia global do que foi a criação portuguesa do século. Não houve, nem por sombras, uma estruturação dos conteúdos do festival. Para o ano já vamos dar grande passos no sentido de uma programação e duma estruturação melhor, duma catalogação melhor do que vai acontecer.
Vamos agora sair do festival. O ambiente cultural aqui está parado? Mexe?
A resposta a uma pergunta dessas é sempre muito delicada, porque quem for sincero é injusto, quem for justo... Acaba por ser um conceito de justiça manhoso. Mais vale nem ir para um extremo nem para o outro e ser apenas natural. Vila Real neste momento tenta sacudir o capote de muitos anos de parvónia. Foi de facto uma parvónia, Vila Real. Todos nós fomos anuindo, fomos sendo cúmplices da parvónia. Uma das maneiras de contribuir para a parvónia é ir ao CCB e ficar satisfeito e dormir perfeitamente. Eu não vou ao CCB! Que venha cá ele! É preciso fazermos sentir uns aos outros que o CCB não vem cá. Não são as placas de calcário do CCB que têm que vir cá. É o movimento que tem que vir aqui, aquele espírito de movimento, aquilo tudo tem que existir cá. Ora, nessa medida Vila Real tem sido uma parvónia. O que tem acontecido de notável aqui tem sido o festival de Mateus, mais nada. Depois, só de vez em quando vai acontecendo uma ou outra coisa interessante. Nós é que temos que acabar com a pasmaceira. Temos companhias de teatro que sobrevivem na penúria... Não vêm cá as outras. Temos escolas de música a inventar e reinventar e outras coisas que ainda estão para vir. Temos que fazer a "movida" vila-realense.
Tem havido alguma reivindicação, mas tem havido pouca realização, pouco espírito de ousadia para fazer coisas, É importante também realizar coisas.
Fazer e reivindicar. Dar o exemplo de que se pode fazer e exigir que os outros façam. As exposições, por exemplo, têm sido feitas, ou num acesso da câmara Municipal, ou numa saloca do centro cultural (que nunca foi coisa para exposições), ou... Eu até já vi uma exposição de arquitectura numa saloca da associação comercial!
Há um improviso organizativo?
Não é improviso organizativo — é um desenrasque! Improviso é criação; o desenrasque tem qualquer coisa de aceitação duma penúria, das más condições. Aquela velha coisa de que o bom artista com qualquer ferramenta trabalha é mentira. Os bons artistas trabalharam sempre com as melhores ferramentas! Os melhores artistas sempre actuaram nas melhores salas. Quem desenrasca em Vila Real é quem vai aceitando que Vila Real encolha os ombros. Há uma aceitação da mediocridade no desenrascanço, e isso é uma forma de cumplicidade com o estado medíocre das coisas. Por exemplo, agora que se fez o museu municipal preocupa-me que não haja duas salas para que a gente possa comunicar com as ideias actuais,. É mesmo necessário um espaço de grande liberdade, tanto do ponto de vista formal como ideológico, para que esse movimento circule livremente. Uma capital tem direito esse movimento. O município de Vila Real tem obrigação de reservar no museu um espaço para essa libérrima, e sublinho libérrima, circulação de ideias. Está-se a fazer uma coisa óptima que é aquela série de conferências sobre o passado de Vila Real...
As tertúlias ao café?
... As tertúlias ao café são uma iniciativa a todos os títulos louvável. Estão a ser a colecção da primeira energia da micro-história de Vila Real, da história local. Isso não se pode fazer sem espaços. Mas é necessário que, para além da mostra arqueológica e numismática, haja espaço para circulação das ideias actuais. Só uma instituição pública é que pode responder a isso.
Temos que pensar nisto: que em cada cidade haja pelo menos um muro onde escrever tudo. A cidade de Vila Real tem que ter urgentemente uma galeria municipal. Que não é nos acessos, ou nos claustros da câmara municipal. Do ponto de vista da exposição dos materiais é uma prioridade criar a tribuna dos pintores, dos escultores.