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Colaboradores neste número:
Agapito Laranjeira, Albertino Sousa, Anabela Ribeiro, Carlos “Cazé”
Dias, Duarte Carvalho, Elza Garcia, Fernando Gouveia, Gil Silva (Giló), Jorge Rodrigues,
José Ferreira Borges, Luís C. Teixeira, Luís D'Almada, Luísa Costa,
Manuel Guimarães, Maria dos Remédios, Paulo Mourão, Pedro Martins
Colaço, Rui Duarte, Troglodýtes Trogloditikós, Vítor Lamas.
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ilustração de Rui Duarte
Aos professores de Educação
Visual recomenda-se, pura e simplesmente, um olhar mais profundo e mais analítico da
realidade educativa e social circundante. Sobretudo, que se libertem de um certo “conformismo”...
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Mudam-se os Tempos
Não se mudam as Vontades
Condenados a ser livres, somos condenados a criar,
para obter a qualidade de vida, ou simplesmente sobreviver.
(René Passeron)
É lamentável que um conjunto de factores e de circunstâncias não sejam ainda suficientes para convencer determinados agentes educativos, de que algo de muito mal se continua a verificar no nosso sistema de ensino, no que concerne ao ensino artístico. Esta é, aliás, uma denúncia que se verifica noutros sistemas de ensino, na comunidade internacional.
Entretanto, centrarei a minha reflexão na área do ensino das artes plásticas, mais concretamente, na disciplina de Educação Visual, do 3º ciclo do Ensino Básico (E.B.), por se tratar daquela em que me sinto com algum à-vontade e legitimidade para opinar. Falar do ensino artístico, melhor dizendo, da educação artística desde os primeiros anos de vida, não merece menor atenção. Pelo contrário. No entanto, tornar-se-ia um artigo demasiado extenso, o que me levaria a ultrapassar algumas limitações a que estou submetido, e que estão fora das minhas competências. Fica para uma próxima oportunidade.
É interminável a lista de obras e de autores (que incluem educadores, professores, investigadores e pedagogos) que desenvolveram estudos e investigações, apoiados numa prática reflexiva e que, desde há longas décadas, vêm denunciando uma prática de ensino artístico que atenta contra a imaginação, a criatividade, o sentido estético, o sentido crítico, enfim, contra a liberdade de expressão das nossas crianças e dos nossos jovens. É caso para dizer: mudam-se os tempos, mas não se mudam as vontades.
Como se não bastasse termos, actualmente, apenas uma única disciplina de expressão artística no 3º ciclo do E.B.1, Educação Visual; ainda há que contar com as retrogradas e ultrapassadas práticas pedagógicas nela tratadas e, ainda, uma mentalidade (teimosamente) resistente à mudança e à inovação. Uma mentalidade indiferente à necessária aquisição de um conjunto de conhecimentos (sobretudo a nível da Psicologia do Desenvolvimento) e de metodologias de educação artística, fundamentais à formação integral do professor e à educação dos nossos jovens. Na realidade, a generalidade dos professores desta disciplina — no passado recente, designada de Desenho — continuam a abordar (quase) na totalidade apenas conteúdos directamente ligados ao desenho geométrico (chamemos-lhe assim). Alguns docentes desta disciplina defendem-se (desculpam-se!!!), dizendo que o desenho geométrico é imprescindível para determinadas (e futuras) carreiras académicas. Logo aqui surge uma situação paradoxal: que alunos irão seguir uma carreira académica e quais deles irão enveredar por um curso que necessite de conhecimentos sobre desenho geométrico? Só para bruxos ou videntes!
Retomando o meu raciocínio, o que se prende com as áreas plásticas (desenho artístico, pintura, escultura, impressão, etc.), nada é praticamente trabalhado, é dado ao esquecimento e ao desprezo, e no entanto, o programa curricular é perfeitamente claro no que concerne a objectivos da disciplina. A grande maioria aponta, basicamente, para o desenvolvimento da expressão do jovem, o que comporta o desenvolvimento da criatividade, do sentido estético, do sentido crítico, da percepção visual, etc.
Contudo, não quero que fique a ideia que sou contra o (ensino) do desenho geométrico. Pelo contrário, até sou a favor. Aliás, trata-se de uma componente que faz parte do ensino das artes plásticas, nomeadamente no que diz respeito ao desenho de figura, ao desenho de observação. Se queremos ser capazes de desenhar fielmente uma determinada paisagem, temos que ter, por exemplo, conhecimentos sobre perspectiva geométrica. No entanto, há que acreditar que a natural aprendizagem da vertente plástica não evitará que o aluno venha a necessitar e (por ele) procurar saber de conhecimentos no domínio do desenho geométrico. Agora, aquilo que eu critico e que acho inconcebível, é que seja dado a este uma importância e um tratamento que se estende, praticamente, ao longo de todo o ano lectivo, menosprezando outras componentes, como sendo as de formação estética, artística, cívica e para a cidadania democrática.
Encontrando-se o jovem no final do E.B., o que corresponde a dizer que se encontra numa fase em que o contacto com as disciplinas de expressão vai terminar — à excepção daqueles que seguem, no ensino secundário, a dominante de Artes —, torna-se imperativo proporcionar, neste momento, o maior número de experiências estéticas e artísticas diversificadas, que venham a traduzir-se numa oportunidade daquele (o jovem) exprimir sentimentos, ideias e emoções (tão necessária nesta fase do desenvolvimento físico e psicológico do jovem — a adolescência), reconhecendo, por último, o papel que a arte representa na formação integral do indivíduo e na própria sociedade.
Por outro lado, e num contexto global de aprendizagem, é necessário reconhecer que “a imaginação, criatividade e sensibilidade são tão importantes nas ciências como nas artes (...)”2. Quererá isto dizer que estas faculdades do intelecto humano (erradamente associadas, ao longo dos tempos, apenas às artes) são imprescindíveis em qualquer área do conhecimento científico, tecnológico ou filosófico. Segundo David Best (1996), o próprio Einstein teria um dia admitido que, na ciência, a imaginação era mais importante do que o conhecimento. Numa simples mas oportuna correcção a este pensamento, Best sublinha que mais claro teria sido se Einstein tivesse dito que “o conhecimento científico é inseparável da imaginação”3. Podemos, a partir daqui, inferir que encontramos forte elos de ligação entre ciência e arte; que as faculdades que uma desenvolve são imprescindíveis para o sustento e progresso da outra.
Face à ditadura das novas tecnologias de informação (entre outras) e do audiovisual, os nossos conhecimentos em pouco tempo se tornam obsoletos. Fabrice Hervieu, citando Séverine Roty, confirma-nos uma realidade, a de que “os jovens nunca estiveram tão confrontados com as imagens de hoje em dia. Será então a nossa missão [enquanto educadores e professores] ajudá-los a desenvolver o seu espírito crítico face a esta maré de imagens”4.
Há que investir seriamente, neste caso particular, nas áreas de expressão, de modo a que o jovem adquira conhecimentos e técnicas sobre a linguagem plástica e visual, para que, ao terminar a escolaridade obrigatória, saiba “usar a imagem gráfico-plástica como a palavra, o número e as notas musicais”5.
Aos professores de Educação Visual (o objecto das minhas análises), recomenda-se, pura e simplesmente, um olhar mais profundo e mais analítico da realidade educativa e social circundante. Sobretudo, que se libertem de um certo “conformismo” que, em consequência (e injustamente), acaba por prejudicar os jovens, criando neles um vazio e um handicap na sua formação, passível de transmissão às gerações seguintes, contribuindo, deste modo, para este ciclo vicioso.
Notas:
1 Lamenta-se profundamente o facto de apenas haver uma disciplina onde as nossas crianças e jovens têm uma oportunidade de se exprimirem por via artística. A disciplina de Educação Musical é outra componente da formação artística dos nossos jovens que, infelizmente e incompreensivelmente, não faz parte do currículo do 3º ciclo do E.B.. E a Expressão Dramática? E a dança? Que dizer!
2 BEST, David (1996). A Racionalidade do Sentimento. O papel das artes na educação. Porto: Asa, p. 27.
3 Idem, ibidem, p. 68.
4 HERVIEU, Fabrice (1996). As artes plásticas na escola. Logo que a liberdade do artista entra na sala de aula. In revista Le monde de l´éducation. nº 243, p. 44.
5 JIMÉNEZ, Carmen (1993). Alfabeto Gráfico. Alfabetização visual. Madrid: Ediciones de la torre, p. 322.
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